Marília Mendonça para além dos palcos

Imagem: Reprodução.

Por Marllon Alves

Marília Mendonça foi uma artista cujo legado continua a influenciar muitos artistas em todo o Brasil. A prova deste fato está nos números que suas músicas e clipes musicais alcançam. Além disso, Marília se destacou também pelo trabalho que fez fora dos palcos, chegando até a se posicionar politicamente.

            Nascida no ano de 1995, Marilia Mendonça chegou a frequentar algumas igrejas evangélicas, fato que a influenciou em sua vida pessoal. Iniciou sua trajetória enquanto cantora cantando em bares, restaurantes e churrascarias. Não demorou muito para que começasse a compor e enviar as suas músicas para artistas e duplas consagradas. Não demorou muito também para que Marília Mendonça se consagrasse como cantora e alcançasse o estrelato.

            Muitas são as músicas gravadas por Marília Mendonça e se a lista de músicas que a cantora compôs e que foram gravadas por outros artistas forem incluídas, o legado da cantora sertaneja em questão é ainda maior. Algumas das músicas de Marília Mendonça são: Infiel, De quem é a culpa?, Amante não tem lar, Folgado, Alô porteiro, Como faz com ela, Graveto, Supera, Love à queima roupa, Ciumeira, Sem sal, Bem pior que eu e muitas outras. Uma característica profissional de Marília Mendonça era o fato desta gravar músicas com muitos artistas (os chamados “feat”) e algumas destas são: Casa da Mãe Joana (feat. Henrique e Juliano), Flor e o Beija-Flor (feat. Henrique e Juliano), Estrelinha (feat. Di Paullo e Paulino), Bebaça (feat. Maiara e Maraisa), Esqueça-me se for capaz (feat. Maiara e Maraisa), Todo mundo menos você (feat. Maiara e Maraisa), Apaixonadinha (feat. Leo Santana), Intenção (feat. Gaab) e Vou ter que superar (feat. Matheus & Kauan). Quando faleceu, Marília Mendonça deixou um caderno com composições inéditas, além de trabalhos musicais a serem lançados posteriormente. Neste contexto, destacam-se Amava nada (feat. Lucas Lucco) e 50% (feat. Naiara Azevedo). Uma coisa que chama a atenção em Marília Mendonça é a versatilidade. A cantora passeava com maestria pelo axé, rap, funk e MPB, por exemplo, sem perder a sua essência sertaneja.

Marília Mendonça com a dupla sertaneja Maiara e Maraísa em ocasião da participação no dominical Domingão com Huck. Esta seria a última participação de Marília Mendonça em um programa de TV. Imagem: Instagram Marília Mendonça.

            O sucesso de Marília Mendonça é traduzido em números. Marília é a cantora com mais clipes acima de 100 milhões visualizações no YouTube em todo o mundo, é também a dona da live de música com o maior número de telespectadores simultâneos (3,3 milhões de pessoas assistiram a live). O canal no YouTube da “Rainha da Sofrência” tem 16,2 bilhões de visualizações e 24,7 milhões de inscritos. Além disso, Marília Mendonça foi a artista mais assistida no YouTube no ano de 2021 (a artista foi assistida 3,1 bilhões de vezes). O ícone máximo do “feminejo” também foi pioneira em alguns feitos, sendo a primeira brasileira a marcar 8 bilhões de streams no Spotify, sendo também a cantora mais ouvida do Spotify Brasil. O álbum Todos os Cantos Vol. 1 foi o primeiro a atingir a marca de 1 bilhão de streams no Spotify Brasil e este mesmo álbum é o mais ouvido na história do Spotify Brasil. Ainda no Spotify, das 200 músicas no Top 200 Brasil deste mesmo aplicativo em um único dia, 74 são de Marilia Mendonça. A cantora detém o recorde de artista com o maior número de músicas no Spotify Global com cinco músicas, sendo duas no Top 50.

            As atitudes de Marilia Mendonça fora dos palcos também merecem destaque. Durante o pleito presidencial de 2018, de onde Jair Bolsonaro foi eleito Presidente da República, Marilia juntou-se as milhões de vozes dentro e fora do Brasil que diziam “Ele não”, em repúdio a candidatura de Bolsonaro. Tamanha atitude fez com que a cantora e sua família fossem atacadas de forma cruel. E lembrando que estamos falando do mundo sertanejo, um espaço masculino, branco (sempre bom lembrar dos marcadores de raça) e majoritariamente bolsonarista, apoiando maciçamente Bolsonaro nos pleitos de 2018 e 2022. Desta forma, Marília Mendonça foi uma exceção em meio a tantas pessoas que apoiaram Bolsonaro. Vale ressaltar que a presença da cantora em si já representava uma quebra de paradigmas. Isso porque estamos falando de uma mulher acima do peso (e que foi emagrecendo gradativamente), cantora e cujas letras versam sobre mulheres que não se comportam da forma como a sociedade espera que uma pessoa do sexo feminino deva se comportar. Tudo isso em um espaço branco, masculino, patriarcal e que tende a objetificar a mulher. Nas músicas de Marília Mendonça a mulher bebe, trai, têm desejos sexuais, abandonam seus companheiros quando percebem que o relacionamento não tem mais volta e seguem adiante com suas vidas.

            Durante a pandemia de Covid-19, entre 2020 e 2021, Marília Mendonça vendeu seu próprio jatinho para segurar os gastos e não ter que demitir parte da equipe, uma vez que durante este período as aglomerações (e consequentemente os shows) estavam proibidas. Isso ajuda a entender o fato de a cantora estar utilizando o serviço de táxi aéreo na ocasião de sua morte. Ainda na pandemia, quando houve um colapso causado pela falta de cilindros de oxigênio no estado do Amazonas, Marilia Mendonça e mais algumas personalidades, diante da lentidão das autoridades, providenciaram a rápida entrega de oxigênio, salvando muitas vidas. Destaque também para a ocasião em que a cantora apoiou a instituição antirracista Pretitudes, beneficiando 225 jovens com o pagamento de cursos pré-vestibular e de inscrições para o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Marília Mendonça realizava muitas ações sociais e sempre tentava manter o anonimato. No caso da ajuda a organização Pretitudes, por exemplo, a ação da cantora só veio a público após a sua morte, uma vez que os organizadores disseram que ela fez questão de exigir o anonimato.

Conclusão

            Marília Mendonça notabilizou-se por seus feitos dentro e também fora dos palcos. Com seu corpo considerado “fora do padrão” e cantando músicas onde a mulher não se comporta de “maneira convencional”; Marília teve a ousadia de adentrar o mundo sertanejo, um espaço masculino, branco e que tende a objetificar a mulher. A cantora teve a ousadia de fazer coro ao “Ele não” em oposição a Bolsonaro em 2018. Por conta disso, Marília Mendonça tornou-se uma voz destoante, uma vez que nos pleitos presidenciais de 2018 e 2022 o estilo sertanejo mostrou adesão majoritária a Jair Bolsonaro. Fora dos palcos, Marília mostrou sensibilidade ao não demitir parte da equipe durante a pandemia de coronavírus e ao ajudar uma organização antirracista, por exemplo. Com relação às ações sociais, a cantora em questão não gostava de falar sobre, preferindo brilhar no anonimato.

Referências:

https://www.metropoles.com/colunas/guilherme-amado/marilia-mendonca-mundo-sertanejo-ele-nao visualizado no dia 05/11/2022;

https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/entretenimento/e-hit/marilia-mendonca-vendeu-jatinho-proprio-devido-a-falta-de-shows-na-pandemia-diz-colunista-1.3156440 visualizado no dia 05/11/2022;

https://www.otempo.com.br/brasil/marilia-mendonca-fazia-constantes-doacoes-muitas-anonimas-1.2566836 visualizado no dia 05/11/2022.

Como citar este texto:

– ALVES, Marllon. Marília Mendonça para além dos palcos. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2022/11/08/marilia-mendonca-para-alem-dos-palcos/ publicado no dia 08/11/2022.