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Hebe Camargo, uma personalidade que faz falta na televisão brasileira

Hebe Camargo é considerada a rainha da televisão brasileira. Imagem: Reprodução/Youtube Por Marllon Alves
Hebe Camargo é um dos maiores nomes da televisão brasileira, seu nome dispensa apresentações, mesmo se passando 10 anos após sua morte. Hebe Camargo não fez história somente por ser a “rainha da TV brasileira”: a apresentadora usou seu espaço na televisão e respectiva influência para fazer críticas sociais e políticas. Aliás, muitas das criticas feitas por Hebe no passado continuam bastante atuais. Infelizmente.
Hebe começou sua carreira como cantora na Rádio Tupi nos anos 1950. Iniciou sua trajetória na televisão nos anos 1950 com o programa O Mundo é das Mulheres, considerado hoje o primeiro programa feminino da TV brasileira. Hebe Camargo exercia simultaneamente suas atividades como cantora e apresentadora de televisão. Entretanto, a carreira como apresentadora acabou predominando na vida de Hebe, profissão que exerceu até o fim de sua vida. Hebe teve passagens pela TV Tupi, TV Record, Band e SBT. Nesta última emissora, Hebe Camargo permaneceu por 24 anos, entrando em 1986 e saindo em 2010, quando foi para a RedeTV!, sua última emissora de televisão. Quando foi para a emissora de Silvio Santos, Hebe já era um nome consolidado e consagrado na televisão brasileira. Além disso, a apresentadora já havia feito fortuna com sua carreira até então. O que acontece é que a emissora do Homem do Baú deu uma visibilidade que a apresentadora nunca tinha visto até então, a ida de Hebe Camargo para o SBT foi um acerto tanto para a apresentadora como também para a emissora em questão. Em outras palavras, o SBT colocou a Hebe em “outro patamar” [1].

A entrevista dada por Hebe Camargo ao programa Roda Viva é lembrada até hoje por conta de os temas abordados serem atuais. Imagem: Reprodução/Youtube Toda a visibilidade que Hebe Camargo recebia até então fez com que ela fosse entrevistada no programa Roda Viva, no ano de 1987. Afinal, a apresentadora estava “na moda”, como disse um dos entrevistadores. Com frequência, trechos da entrevista em questão circulam nas redes sociais e isso não é a toa. Apesar de ter sido feita há 35 anos atrás, muitos assuntos abordados na entrevista em questão ainda são muito atuais. A impressão que passa é a de que Hebe Camargo foi ao programa em questão semana passada. A entrevista de Hebe Camargo para o Roda Viva revela a fundo a opinião da apresentadora sobre diversos assuntos, muitos delicados ainda nos dias de hoje.
Quando foi entrevistada no programa Roda Viva, Hebe Camargo era capa de diversas revistas e seu programa era líder de audiência. Em um programa que contou com jornalistas renomados como Boris Casoy, Otávio Mesquita, Leão Lobo e Rui Castro, a apresentadora falou de diversos assuntos. Em seu programa, Hebe Camargo falava abertamente de “homossexualismo” [2] e AIDS. A cantora argumentou que os gays “são seres humanos como a gente” e nega “incentivar a prática”. Hebe ainda completou que o ser humana já nasce sentindo atração sexual por pessoas do mesmo sexo ou não, e não vai ser ela quem vai estimular tal desejo. Se em 2022, apesar das aberturas para falar do assunto nas mais diferentes mídias e de leis para proteger a população LGBTQIA+, esta ainda é uma questão delicada; imagina então como deveria ser 1987, quando não se tinha nada disso. E vale lembrar que nesta época a AIDS era desconhecida e adquirir a mesma era sentença de morte. Além disso, a doença em questão teve por primeiras vitimas os homossexuais, fazendo com que o preconceito para com este grupo fosse reforçado.
No Roda Viva, Hebe também se mostrou favorável ao aborto, dizendo que este é um assunto particular e delicado. A apresentadora, inclusive, confessou que havia feito um aborto no passado por entender que esta era a melhor decisão a ser tomada. Na época, a apresentadora era jovem e estava começando a sua carreira. Além disso, o homem de quem Hebe estava grávida seria comprometido e a apresentadora não era oficialmente casada. Se em 2022 ser mãe solteira é um tabu, nos anos 1940-50 ser mãe solo era um verdadeiro escândalo. Perguntada, Hebe respondeu que a legalização do aborto não vai fazer com que as mulheres abortem deliberadamente. A apresentadora criticou também a proibição dos jogos de azar no Brasil [3], usando o mesmo argumento que usou para defender posição favorável a legalização do aborto: a legalização dos jogos de azar não fará todas as pessoas apostarem todos os seus bens em um jogo.
Ainda no Roda Viva, Hebe Camargo fez críticas ao então presidente José Sarney, classificando seu governo como “tumultuado”, sem autoridade e criticando também as constantes viagens de Sarney. A miséria latente existente no período (e ainda hoje) e os constantes aumentos nos preços dos alimentos não passaram desapercebidos por Hebe na entrevista em questão. Este era um contexto de um país que saía de uma ditadura na qual permaneceu por 21 anos. O primeiro presidente da dita “Nova República” havia chegado ao poder de forma indireta, por um colégio eleitoral e não pelo voto popular. Além disso, a década de 1980 foi um período de inflação extremamente alta, resultando no alto preço dos alimentos. Hebe disse no programa que não se sentia culta, ainda mais pelo fato de estar sendo entrevistada por pessoas que “escrevem livros”. Entretanto, as suas falas revelam um Brasil que ainda mantém velhos preconceitos e desigualdades.
Hebe e seus saudosos selinhos

O primeiro selinho de Hebe na TV foi na verdade um beijo roubado de Rita Lee no programa da Hebe, no ano de 1997. Imagem: Reprodução. Uma das marcas registradas de Hebe Camargo era os selinhos que a apresentadora costumava dar nas pessoas que iam a seu programa. Com o tempo, os selinhos passaram a ser dados por Hebe fora de seu programa e nas mais diversas situações. Tudo começou em 1997, quando Rita Lee foi no programa da apresentadora e, vendo que a mesma “estava tão rainha”, não resistiu e roubou um beijo da loira. Hebe se assustou, mas depois brincou com a situação, dizendo que “você sabe que meu namoro com o Lélio começou assim, ele me deu um beijo e eu gostei”. Este foi o primeiro de muitos selinhos que Hebe deu na frente das câmeras. Celso Portiolli, Pelé, Adriane Galisteu, Roberto Carlos, Silvio Santos, Miguel Falabella, Caio Castro, Neymar, Bruno Gagliasso, Leonardo, Zezé di Camargo, o astro internacional Jude Law e Anderson Silva foram alguns dos mortais que tiveram o privilégio de beijar a eterna rainha da TV brasileira. O selinho era a marca registrada de Hebe Camargo e muitos desejaram ser beijados por ela.
Em uma sociedade onde os afetos não são muitos bem vistos, principalmente se forem em público e entre pessoas do mesmo sexo, esta atitude de Hebe Camargo chama a atenção.
Conclusão
O que faz de Hebe Camargo ser a “rainha da televisão brasileira” foi a ousadia da mesma em falar de assuntos atuais e que ainda são considerados tabus no Brasil do século XXI. A longevidade de Hebe na televisão deve-se ao fato da apresentadora debater em seus programas assuntos que ainda são atuais. Tristemente atuais.
Notas:
[1] Expressão viral dita por Bruno Henrique, jogador do Flamengo, após um clássico carioca entre Flamengo e Vasco no ano de 2019, que terminou empatado em 4 a 4.
[2] Termo abolido pela OMS (Organização Mundial da Saúde) em 1990 porque o mesmo sugeria que a homossexualidade (termo usado deste então) era uma doença.
[3] Os jogos de azar são proibidos no Brasil desde 1946 .
Referências:
Vídeo visualizado no dia 01/04/2022 https://www.uol.com.br/esporte/futebol/ultimas-noticias/2019/11/13/flamengo-x-vasco.htm visualizado no dia 01/04/2022
https://observatoriog.bol.uol.com.br/noticias/cultura/por-que-o-correto-e-homossexualidade-e-como-surgiu-o-termo-homossexualismo visualizado no dia 01/04/2022
https://www.conjur.com.br/2022-mar-06/brandao-cavalcanti-jogos-azar-brasil#:~:text=Da%20proibi%C3%A7%C3%A3o%20dos%20jogos%20no,em%20todo%20o%20territ%C3%B3rio%20nacional%22. visualizado em 01/04/2022
https://televisao.uol.com.br/noticias/redacao/2012/03/16/hebe-estava-tao-rainha-que-tasquei-lhe-um-beijo-diz-rita-lee-sobre-primeiro-selinho-da-apresentadora.htm visualizado no dia 01/04/2022
Como citar este artigo:
– ALVES, Marllon. Hebe Camargo, uma personalidade que faz falta na televisão brasileira. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2022/04/06/hebe-camargo-uma-personalidade-que-faz-falta-na-televisao-brasileira/ publicado no dia 06 de abril de 2022.
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