• Primeiras-damas do Brasil (Parte I): Mariana da Fonseca – uma monarquista em um espaço republicano

    Mariana da Fonseca, esposa do Marechal Deodoro da Fonseca, é considerada hoje a primeira mulher a ocupar o posto de primeira-dama no Brasil. Imagem: Reprodução.

    Por Marllon Alves

                Pelo fato de ter sido esposa de Deodoro da Fonseca, o primeiro presidente do Brasil republicano, Mariana da Fonseca é considerada hoje a primeira mulher a ocupar o posto de primeira-dama no Brasil. Curiosamente, apesar de a monarquia ter sido extinta no país, Mariana preferia ser tratada como baronesa, um título remetente aos tempos imperiais. Este fato não deve ser visto com estranheza, uma vez que a república brasileira demorou para se consolidar no Brasil.

                No dia 15 de novembro de 1889 um golpe militar republicano pôs fim a era imperial brasileira. D. Pedro II e sua família foram exilados. Desta forma, o cargo de primeiro presidente do Brasil foi entregue ao Marechal Deodoro da Fonseca. O marechal conheceu Mariana da Fonseca em 1860, quando era capitão do exército. Por sua vez, esta era filha de militar e solteira aos 34 anos de idade. A solteirice em idade avançada não era comum na época, especialmente para as mulheres. Por conta deste fato, Mariana foi vítima de comentários maldosos. Um ano mais velha que Deodoro, Mariana e o mesmo se casaram poucas semanas depois de se conhecerem.

                Uma vez casados, Deodoro e Mariana tiveram de viver separados um do outro por ocasião da Guerra do Paraguai, pois o futuro marechal e seus irmãos foram para o conflito representar o Brasil. Durante este período, Mariana conviveu com Rosa Paulina, sua sogra. Mariana acabou sendo um apoio fundamental para a mãe de seu marido porque três irmãos de Deodoro morreram no conflito em questão. Apesar da dor da perda, Rosa se orgulhava da trajetória dos três filhos falecidos.

    Representação de Mariana da Fonseca (de costas) em pintura de Gustave Hastoy, em 1891. Imagem: Reprodução.

                Quando Deodoro da Fonseca tornou-se o primeiro presidente do Brasil, Mariana da Fonseca tinha 63 anos de idade. Especialistas a classificam como uma pessoa discreta e que gostava de ser chamada de baronesa. Este fato não deve ser visto com estranheza porque a república demorou para se consolidar no país. A monarquia deixou sua marca no país, que permaneceu mesmo após sua deposição. Tudo isso ajuda a entender os motivos de tantas revoltas no país durante os primeiros anos da república, além das censuras e perseguições a opositores que os primeiros presidentes orquestraram. Desta forma, não era raro no Brasil encontrar, mesmo nos primeiros anos do período republicano, brasileiros que tinham apreço pela monarquia e/ou pela figura do imperador D. Pedro II. Assim como a esposa, Deodoro era monarquista e tinha um profundo respeito pela figura do último monarca do Brasil.

                O primeiro presidente do Brasil proclamou a república contra a sua vontade. Em obra intitulada Cartas do Brasil, Max Leclerc disse que “a revolução está terminada e ninguém parece discuti-la, mas aconteceu que os que fizeram a revolução não tinham de modo algum a intenção de fazê-la e há atualmente na América um presidente da República à força. Deodoro desejava apenas derrubar um ministério hostil. Era contra Ouro Preto e não contra a Monarquia. A Monarquia caíra. Colheram-na sem esforço como um fruto maduro” (MAX LECLERC apud COSTA, 2010: p. 397). Baseado nesta mesma linha de pensamento, Elias (2012) diz que o desejo de Deodoro da Fonseca em destituir o gabinete do liberal Visconde de Ouro Preto originou-se quando republicanos que se aproximaram do marechal espalharam o falso boato de que o visconde em questão o prenderia. Entretanto, a decisão de Deodoro em por fim à monarquia decorreu da informação de que o político liberal Gaspar da Silveira Martins substituiria Ouro Preto. Por conta de um caso amoroso (Deodoro tinha por hábito trair a esposa), Gaspar era um inimigo pessoal do marechal. Com isso, o militar teria optado por derrubar a monarquia. A presença de monarquistas atuando nos primeiros anos do sistema republicano no país não era raro. Além do próprio Deodoro, Rodrigues Alves, Afonso Pena, barão do Rio Branco e Joaquim Nabuco, por exemplo, eram simpatizantes da monarquia.

                Tanto Deodoro quanto Mariana procuravam favorecer os amigos com indicações para altos cargos em bancos ou empregos bem remunerados de forma geral. Já com relação à intimidade, Mariana nutria carinho e admiração pela família imperial brasileira. Este fato ajuda a entender o motivo de ter ordenado a permanência dos retratos dos membros da antiga corte em um dos salões do Itamaraty. Um dos projetos públicos mais relevantes de Mariana da Fonseca foi a criação de uma escola para meninas pobres e órfãs. Além do ensino primário, a instituição ensinava habilidades úteis para uma dona de casa.

                O mandato do Marechal Deodoro da Fonseca durou dois anos, findando quando este cedeu às pressões de grupos militares. O também Marechal Floriano Peixoto o substituiu na cadeira presidencial. Problemas de saúde também contribuíram para a curta duração do governo de Deodoro. Médicos do primeiro presidente do país recomendaram a este procurar tratamento na França. Entretanto, Mariana da Fonseca não permitiu a viagem do marido quando soube que uma das amantes do mesmo estaria no mesmo navio. Deodoro ficou na cidade do Rio de Janeiro, então capital do país, onde veio a falecer, no ano de 1892. Já Mariana morreu no ano de 1905, 13 anos depois da morte do marido, aos 79 anos de idade e sem nunca ter tido um filho.

    Conclusão

                Mariana da Fonseca foi a primeira mulher a assumir o posto de primeira-dama no Brasil. Tal termo não era muito comum em um país onde a república foi proclamada à força. Este fato ajuda a entender o motivo de Mariana gostar de ser chamada de baronesa. Se Mariana não tivesse sido a esposa do primeiro presidente do Brasil, tal fato não chamaria a atenção, mas como estamos falando da esposa de um presidente, a situação é outra. Mariana é apenas mais uma dentre os muitos monarquistas que aturam na consolidação da estrutura republicana em seus primeiros anos.

    Referências:

    – COSTA, Emília Viotti da. Da Monarquia à República: momentos decisivos. 9ª ed. São Paulo: Editora UNESP, 2010. 524p.;

    – ELIAS, Rodrigo. Herança do Império. Revista de História da Biblioteca Nacional. Revista de História da Biblioteca Nacional, ano 8, nº 86, p. 24-26, novembro 2012;

    https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/almanaque/filha-de-militar-e-fa-da-monarquia-mariana-da-fonseca-a-primeira-a-assumir-o-posto-de-primeira-dama-no-pais.phtml visualizado no dia 07/09/2022.

    Como citar este artigo:

    – ALVES, Marllon. Primeiras-damas do Brasil (Parte I): Mariana da Fonseca – uma monarquista em um espaço republicano. In: Gênero e História. Disponível em https://generoehistoriacom.wordpress.com/2022/09/09/primeiras-damas-do-brasil-parte-i-mariana-da-fonseca-uma-monarquista-em-um-espaco-republicano/ publicado no dia 09/09/2022.

  • Branca, Inês e Marta: quando Manoel Carlos mostrou que nem sempre maternidade e amor incondicional são sinônimos

    Branca, Inês e Marta, personagens de Por Amor (1997), Mulheres Apaixonadas (2003) e Páginas da Vida (2006), respectivamente. Através destas personagens, ‘Maneco’ abordou uma maternidade “não idealizada”. Imagem: Reprodução.

    Por Marllon Alves

    Manoel Carlos é um dos grandes nomes da teledramaturgia brasileira, o mesmo escreveu cenas que entraram para a história da televisão no Brasil. A principal característica de seus folhetins é o batismo de suas protagonistas como o nome Helena. Por sua vez, estas demonstram de forma direta e indireta o amor incondicional por seus filhos. Entretanto, este mesmo autor escreveu personagens que fogem a este perfil e que até hoje são lembrados por muitos.

                Maneco, apelido carinhoso de Manoel Carlos, deixou uma grande contribuição para a televisão brasileira. Apesar de terem sido escritos há muitas décadas, seus textos sensíveis e bem escritos ainda geram discussões na contemporaneidade e sensibilizam o telespectador. Até hoje é lembrada a sequência em que a Helena (Regina Duarte) troca o seu filho saudável pelo natimorto de Maria Eduarda (Gabriela Duarte) em Por Amor (1997), impossível ouvir a canção Love by Grace da cantora Lara Fabian e não lembrar de Camila (Carolina Dieckmann) raspando seus cabelos em Laços de Família (2000) por estar enfrentado uma leucemia. De tão conhecida, a cena em que a racista Marta (Vera Holtz) tem uma tórrida relação sexual com seu empregado negro André (Taiguara Nazareth) em Presença de Anita (2001) é facilmente encontrada em portais eróticos. Já a sequência relacionada a morte de Fernanda (Vanessa Gerbelly) em Mulheres Apaixonadas (2003) emocionou o Brasil. Outro personagem de Manoel Carlos que emocionou o país foi Nanda (Fernanda Vasconcellos), que passou muitos dissabores em Páginas da Vida (2006) ao se ver grávida de gêmeos, tendo que lidar com a ausência de um namorado que não quis ir adiante com a relação e nem assumir a paternidade das crianças. Além disso, a coitada teve que lidar com uma mãe insensível e amargurada.

                Por sua vez, as “Helenas” de Maneco são épicas. A de Por Amor (1997) não pensou duas vezes em trocar seu bebê vivo pelo bebê sem vida de sua filha Maria Eduarda. A mesma suportou todo tipo de sofrimento que esta atitude lhe trouxe: o desmoronamento de seu casamento, o fato de tratar o filho como neto e o sofrimento do marido Atílio por achar que o filho que esperou a vida toda para ter nasceu sem vida. Além de todo este sofrimento, a Helena da novela em questão teve de lidar com os sofrimentos de César (Marcelo Serrado), médico e amigo da família que a auxiliou nesta troca. O rapaz ficou à beira de um colapso mental. Já a Helena (Vera Fisher) de Laços de Família (2000) se envolve com Edu (Reynaldo Gianecchini), um rapaz mais jovem, e por conta disso enfrenta o preconceito dentro de sua própria família e também na da família do namorado. Percebendo que o mesmo e a filha Camila (Carolina Dieckmann) estão apaixonados, sai de cena para que ambos possam viver este amor, mesmo estando muito apaixonada por ele. Quando, enfim, ela encontra em Miguel (Tony Ramos) um novo amor, esta Helena se vê mais uma vez na obrigação de abdicar do mesmo. Isso porque a filha descobre que tem leucemia e a única forma de ser curada é receber a medula de uma pessoa compatível. Como o filho Fred (Luigi Baricelli) era de outro homem (ninguém sabia disso), não havia como este salvar a irmã. Desta forma, Helena decide se relacionar com Pedro (José Mayer) (um homem do passado, seu primo e pai de sua filha) a fim de ter um filho com este e salvar Camila. A Helena (Regina Duarte) de Páginas da Vida (2006) perdeu sua única filha biológica quando esta ainda era uma criança. Seu destino se cruza com o da jovem Nanda (Fernanda Vasconcellos), que deu entrada no hospital em que trabalha após ser atropelada e estar prestes a entrar em trabalho de parto. A moça morre após o nascimento dos gêmeos e exames feitos ainda na maternidade indicam que Clara (Joana Mocarzel) (o bebê tem o mesmo nome que o de sua falecida filha) tem Síndrome de Down. Helena decide adotar a menina e não demora muito para perceber que tem que lutar a todo instante pelos direitos de sua filha adotiva quando percebe que grande parte da sociedade tem preconceito com pessoas com Síndrome de Down e, por conta deste mesmo preconceito, tendem a deixar estas pessoas de lado. O calvário de Helena aumenta quando a avó biológica de Clara aparece, bem como o pai biológico e ambos vão parar nos tribunais para disputar a guarda da menina.

    Branca em cena de Por Amor (1997). Imagem: Reprodução.

                Memoráveis são as maternais Helenas de Manoel Carlos, assim como aquelas que não foram tão maternais assim, apesar de terem filhos. Branca (Susana Vieira), a antagonista de Por Amor (1997), é mãe de três filhos: Marcelo (Fábio Assunção), Milena (Carolina Ferraz) e Leonardo (Murilo Benício; e ela lida com cada um de forma peculiar. Marcelo é, sem dúvidas, o filho predileto. A Branca conversa com ele, dá conselhos e dificilmente briga com o mesmo. A predileção por este filho se deve ao fato de Branca achar que o mesmo era filho de Atílio, o homem a quem sempre amou. Apesar de ser casada com Arnaldo, Branca nunca foi de fato apaixonada por este homem. A relação de Branca com Milena é tensa porque a filha se impõe diante da mãe e tem sempre uma ironia na ponta da língua para mandar a sua progenitora. Além disso, Milena e a mãe brigam tanto porque a filha é tudo aquilo que a mãe não queria que ela fosse. Milena usa cabelos curtos, roupas que destacam seu corpo e se envolve com vários homens ao mesmo tempo. Reprodutora do machismo, Branca reprova tais atitudes. Já com Leonardo, ou simplesmente Leo, Branca rejeita o mesmo. Em mais de uma ocasião, Branca deixou claro que não queria uma terceira gestação e nunca se preocupou em esconder o desprezo que sente pelo mesmo. Por um golpe do destino, o filho a quem ela sempre amou por julgar ser filho do Atílio não era Marcelo, mas sim o Leo, a quem ela rejeitou a vida toda. Não foi fácil para Branca aceitar este fato. No fim de Por Amor (1997), Branca termina sozinha e sem ser visitada pelos filhos. A exceção era o Leo, que telefonava quase que diariamente. Mesmo assim, Branca não demonstrou muito afeto para com este filho.

    A Inês de Mulheres Apaixonadas (2003) não pensou duas vezes em usar a filha e os netos para conseguir dinheiro. Imagem: Reprodução.

                Inês (Manoelita Lustosa) é a mãe de Fernanda (Vanessa Gerbelli) em Mulheres Apaixonadas (2003), uma mulher que trabalhou como prostituta no passado e foi nesse contexto que ela teve um casal de filhos. Lucas (Victor Cugula), filho de Fernanda, foi criado com o pai e pela Helena (Christiane Torloni) e jamais soube que era adotado. Téo (Tony Ramos), pai biológico de Lucas, assim como a Helena, gozam de boas condições financeiras, podendo educar o Lucas com todo o conforto e luxo possíveis. Já a menina Salete (Bruna Marquezine) é educada por Fernanda e, apesar de Téo lhe ajudar financeiramente, não tem o mesmo padrão de vida que seu irmão Lucas. Inês, sabendo deste fato e depois de descobrir que Téo deixou uma excelente quantia para Salete usufruir no futuro, começa a pedir dinheiro para Fernanda, ameaçando contar tudo o que sabe caso a filha negue seu pedido. Depois que Fernanda vai para o hospital após ser baleada e durante um tempo após a morte desta, Salete passa a ser cuidada pela avó Inês. Julgando que a menina era mal acostumada pela mãe, a avó trata a neta da forma mais rude possível. Além disso, Inês obriga Salete a dizer onde a mãe guardava dinheiro dentro de casa e passa a gastar as economias da filha. Percebendo o interesse de Téo em cuidar de Salete, Inês passa a pedir dinheiro ao mesmo toda vez que este quiser ver a menina. Movido pela possibilidade de Salete ser sua filha, um exame de DNA é feito, comprovando a paternidade de Téo. Com isso, Salete passa a ser cuidada pelo pai biológico e junto do irmão, findando com as extorsões de Inês.

    Em Páginas da Vida (2006), Marta despertou raiva e compaixão dos telespectadores. Imagem: Reprodução.

                Marta (Lília Cabral), a principal antagonista de Páginas da Vida (2006), teve uma infância rígida, difícil e com muitas privações. Sempre teve inveja de sua irmã Verônica (Silvia Salgado) pelo fato desta ser rica (mas fica pobre no fim da trama por conta do consumo excessivo de bebida alcoólica por parte do marido). Verônica era tudo aquilo que Marta tentou ser a vida inteira. Além disso, a inveja de Marta para com sua irmã era maior porque a mesma julgava que Verônica teve tudo o que quis sem ter que fazer esforço. Casada com Alex (Marcos Caruso), com quem teve o casal de filhos Nanda (Fernanda Vasconcellos) e Sérgio (Max Fercondini), Marta vivia feliz, apesar das constantes dificuldades financeiras. O casamento começou a entrar em crise quando Alex passou a não se fixar em emprego nenhum, até mostrar-se acomodado com isso. Sozinha, Marta teve que lidar com dois filhos adolescentes e garantir o sustento da casa, sempre se endividando e pedindo dinheiro emprestado a irmã e/ou ao cunhado.

                A filha Nanda almeja passar um tempo na Holanda estudando e Marta, mesmo tendo que se endividar ainda mais e vendo na filha a possibilidade de esta ter uma vida que sempre almejou e nunca teve, Marta decide financiar os estudos da filha. Uma vez em solo holandês, Nanda engravida do namorado, que não aceita a paternidade. Com isso, a jovem volta para casa e tem de enfrentar uma Marta furiosa. A ira de Marta se deve ao fato de tanto se esforçar para a filha estudar em outro país e ver no fim que seu resultado foi em vão. Não era este o plano da mãe de Nanda e a frustração se transformou em fúria. Aliás, tal situação chegou às vias de fato e Marta agrediu a filha, que estava em uma avançada gestação de gêmeos. A mãe expulsa a filha de casa e depois volta atrás, mas isso não significa que Marta se compadeceu de Nanda. Durante o período em que a filha estava viva e morando na casa dos pais, Marta foi implacável no tratamento com a moça, não demonstrando para a mesma e os demais nenhum afeto sequer. A progenitora chega até a dizer que a filha deveria ter uma filha mulher (Nanda só descobriu que uma das crianças era do sexo feminino na hora do parto) para que Nanda entendesse os sofrimentos que estava passando. Além disso, Marta defendeu a atitude do então namorado da filha de abandonar a amada quando soube que esta estava grávida. A mãe acusou a filha de ter dado o “golpe da barriga” e disse que o rapaz foi “esperto” em ter “pulado fora”. Em uma destas situações, Nanda sai de casa descontrolada e é atropelada por um carro desgovernado que invade a calçada. No oitavo mês de gestação, Nanda passa por uma cesariana e morre depois do nascimento dos bebês. O menino é acolhido por Marta, mas a menina, por ter Síndrome de Down, é rejeitada pela mesma. Francisco (Gabriel Kaufmann) é cuidado por Marta, que poucas vezes demonstrou afeto pelo menino. Já a Clara (Joana Mocarzel) é adota por Helena (Regina Duarte), a protagonista de Páginas da Vida (2006). Cinco anos depois, Leo (Thiago Rodrigues), o pai das crianças, reaparece e almeja a guarda de Francisco. Ele entra em um acordo com Marta, que “vende” o neto por R$1 milhão. Entretanto, o cunhado de Marta perde o dinheiro que esta lhe deu para ser investido porque Eliseu (Luciano Chirolli) estava se viciando em álcool e vendendo tudo o que tinha. Não demora muito para Marta saber que Clara, a neta rejeitada, estava com Helena e começa a ameaçar a mesma. O assunto é levado aos tribunais e Helena fica com a guarda de Clara e Alex, marido de Marta somente “no papel”, fica com a de Francisco. Por sua vez, os sinais de loucura em Marta são cada vez mais evidentes e esta termina a novela sendo cuidada pela irmã Verônica.

    Conclusão

                Se com as Helenas Manoel Carlos mostrou uma “maternidade ideal”, onde as mães são sempre amorosas com seus filhos e dispostas a se sacrificar por eles, este mesmo autor mostrou por meio de Branca, Inês e Marta a “maternidade real”, que é aquela onde a mãe se frustra, se sente cansada com frequência, procura se realizar em cima de seus filhos, projeta uma determinada imagem em cima dos mesmos, procura obter vantagens financeiras em cima destes ou que simplesmente nunca desejaram ter aquele filho.

    Referências:

    MULHERES APAIXONADAS. Ricardo Waddington. Rio de Janeiro: Rede Globo de Televisão, 2003;

    PÁGINAS DA VIDA. Jayme Monjardim. Rio de Janeiro: Rede Globo de Televisão, 2006;

    POR AMOR. Ricardo Waddington. Rio de Janeiro: Rede Globo de Televisão, 1997.

    Como citar este artigo:

    – ALVES, Marllon. Branca, Inês e Marta: quando Manoel Carlos mostrou que nem sempre maternidade e amor incondicional são sinônimos. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2022/07/22/branca-ines-e-marta-quando-manoel-carlos-mostrou-que-nem-sempre-maternidade-e-amor-incondicional-sao-sinonimos/ publicado no dia 22/07/2022.

  • Marlene Mattos: a mulher essencial para que Xuxa Meneghel se tornasse Xuxa Meneghel

    Marlene Mattos e Xuxa Meneghel. Imagem: Reprodução.

    Por Marllon Alves

    Xuxa Meneghel é um nome que dispensa apresentações. Aliás, quando se fala em Xuxa, sem citar o sobrenome da mesma, todos sabem de quem se está falando. A consolidação do nome Xuxa Meneghel dentro e até mesmo fora da televisão teve a participação direta de Marlene Mattos, que tinha a fama de ser durona nos bastidores.

                Xuxa iniciou na televisão apresentando o Clube da Criança, na extinta Rede Manchete, no ano de 1983. Três anos depois, Xuxa vai para a TV Globo, onde permaneceu por quase trinta anos durante sua primeira passagem pela principal emissora de televisão do Brasil. Dentre os programas que a loira apresentou por esta emissora, destaque para o Xou da Xuxa, o maior programa infantil da televisão brasileira. Apesar de o mesmo ter findado no ano de 1992, o “Xou” ainda mantém este posto. Dois anos depois do fim do programa em questão, Xuxa Park estreia na grade da TV Globo, permanecendo na mesma até 2001, quando um incêndio no fim de uma gravação antecipou o fim do mesmo. Entre os anos de 1997 até 2001 Xuxa era vista na televisão em dose dupla: de manhã apresentava o Xuxa Park e à tarde apresentava o Planeta Xuxa. Com o tempo, o segundo programa passa a ser exibido na grade dominical da emissora em questão. Este fato merece destaque porque nos dias de hoje, apesar de algumas mudanças, o horário dominical da televisão brasileira ainda é majoritariamente branco e masculino. Após o fim da parceria entre Xuxa e Marlene Mattos, a loira apresentaria os programas Xuxa no Mundo da Imaginação e TV Xuxa, antes de encerrar seu contrato com a TV Globo.

    Além de ter sua própria linha de bonecas, as paquitas, o dengue e o praga também foram reproduzidos em miniatura. Imagem: Reprodução.

                Além da bem sucedida carreira na televisão, Xuxa fez fortuna vendendo milhões de discos, apesar de não saber cantar. Dos dez discos mais vendidos da história da indústria fonográfica brasileira, quatro são de Xuxa. Ilariê é, sem dúvidas, a música mais conhecida de Xuxa. Lançado pela primeira vez no ano de 1986, Parabéns da Xuxa é até hoje a segunda música mais tocada em festas de aniversário por todo o Brasil. E até hoje também ninguém conseguiu criar um solo tão impactante de guitarra quanto o que está presente na introdução de Doce Mel. Além dos feitos incríveis na música, a loira teve seu nome ligado a bonecas, laptop, sapatos, televisão, macarrão instantâneo, biscoitos, maleta, iogurte, cremes para cabelo, sabonetes, álbum de figurinhas, revista em quadrinhos, vídeo game, pratos, potes e celular. Além de ser a Rainha dos Baixinhos, Xuxa também foi a rainha dos produtos licenciados.

                Conforme já dito neste texto, Xuxa Meneghel e Marlene Mattos se conheceram na saudosa Rede Manchete. Quando Xuxa foi para a TV Globo, Marlene foi junto. Além de dirigir os programas que Xuxa comandou na emissora da família Marinho, Marlene também supervisionava a equipe que trabalhava com sua pupila. A diretora e empresária participava do processo seletivo para a escolha das paquitas, por exemplo. Além disso, a mesma supervisionava constantemente se as mesmas estavam em dia com a balança e se estavam cuidando da aparência. Se o contrário estivesse acontecendo, levavam bronca da diretora. Aliás, não tardou para que a fama de durona de Marlene Mattos se tornasse conhecida dentro e fora dos bastidores. Há relatos que afirmam que algumas paquitas e até mesmo a própria Xuxa foram aos prantos após serem repreendidas com rigor pela diretora. Além disso, algumas paquitas teriam abandonado o grupo por conta deste rigor excessivo de Marlene.

    Marlene ao lado de parte das meninas que eram paquitas e de parte do grupo You Can Dance. Imagem: Reprodução Instagram.

                Além de cuidar da carreira de Xuxa e do grupo que trabalhava com a loira, Marlene Mattos interferia na vida pessoal dos mesmos. A diretora e empresária não recomendava os seus comandados a se relacionarem amorosamente para que isso não prejudicasse suas carreiras. Houve um episódio tragicômico no Aeroporto Internacional do Galeão, na cidade do Rio de Janeiro, onde o piloto Ayrton Senna e Marlene Mattos entraram em um “cabo de guerra”, onde cada um puxava para si as malas de Xuxa. A loira precisou intervir e disse que Marlene cuidava de sua vida profissional, não pessoal. No fim, Xuxa seguiu viagem com o então namorado. Marlene também proibia que os paquitos e paquitas se relacionassem entre si ou com outras pessoas. Entretanto, na prática a situação era bem diferente e Marlene sabia disso, embora os paquitos e paquitas acreditassem no contrário. Uma curiosidade: os casais formados no filme Sonho de Verão (1990) se relacionavam fora das telas. Além disso, quando Adriana Bombom e o grupo You Can Dance protagonizaram ensaios nus, estes receberam o apoio de Marlene e também da própria Xuxa.

                Inicialmente, Marlene Mattos era a diretora dos programas de Xuxa Meneghel, mas não demorou muito para que a mesma se tornasse empresária, manager e assistente pessoal, por exemplo. Quando Xuxa se deu conta, Marlene era mais do que onisciente em sua vida. A mesma averiguava se a loira estava com a aparência bem cuidada e recomendava o que ela podia ou não falar. A própria Marlene Mattos reconheceu a fama de durona e em sua defesa disse que não conhecia outra forma de obter o sucesso, a não ser agindo desta forma. E com relação a agir particularmente desta maneira com Xuxa, a diretora e empresária disse “que eu sempre quis que ela fosse a melhor de todas”.

    Momento em que a nave de Xuxa pega fogo ao fim de uma gravação do programa Xuxa Park. Esta tragédia antecipou o fim deste mesmo programa. Imagem: Reprodução Youtube.

                Além da gravidez de Xuxa, o ano de 1997 é marcado pela estreia do Planeta Xuxa. Neste período, a loira estava trabalhando com o público infantil há pouco mais de uma década e uma geração havia se passado. Para não perder o público que estava chegando na adolescência, foi criado o programa em questão. O Planeta Xuxa tinha o objetivo de fazer a transição do público de Xuxa Meneghel, a apresentadora iria gradativamente deixar o público infantil de lado e se aproximar dos adultos aos poucos. Tudo era feito com muito cuidado porque nas manhãs de sábado a loira estava no Xuxa Park e à tarde (o programa foi transferido para as tardes de domingo, onde permaneceu até o final) estava no Planeta Xuxa. Esta transição parecia ser muito tranquila, mas Xuxa não mostrou interesse em abandonar de vez o público infantil. Era o inicio do desentendimento entre Xuxa e Marlene. Não é atoa que o projeto Xuxa só para Baixinhos foi lançado sem o aval de Marlene e após muita insistência de Xuxa. No ar desde 1994, o Xuxa Park estava com a “fórmula esgotada” e era preciso pensar nos próximos passos de Xuxa na TV Globo. Embora traumático por si só, o incêndio no Xuxa Park, ocorrido em janeiro de 2001, não foi determinante para o fim do programa em questão. Ele apenas antecipou algo que já vinha sendo debatido nos bastidores. Com o fim deste mesmo programa, as discussões sobre a criação de um novo programa infantil se tornaram mais intensas entre Xuxa e Marlene. A primeira queria continuar trabalhando com este segmento e a segunda não. Quando o projeto do Xuxa no Mundo da Imaginação foi apresentado a alta cúpula da TV Globo, Marlene Mattos disse que não trabalharia neste projeto e a parceria entre as duas foi encerrada. Com o fim desta relação, ocorrida em 2002, chegou ao fim também o Planeta Xuxa.

    Conclusão

                A parceria entre Xuxa Meneghel e Marlene Mattos foi uma das mais bem sucedidas da televisão brasileira. O excessivo rigor da Marlene e a disciplina de Xuxa foram a tônica do sucesso por quase vinte anos. Curiosamente, depois que a relação profissional e também pessoal entre ambas chegou ao fim, tanto Xuxa quanto Marlene jamais encontraram novamente o sucesso de outrora.

    Referências:

    https://www.uol.com.br/splash/noticias/2021/11/28/xuxa-marlene-mattos.htm visualizado no dia 08/07/2022.

    https://jornaldebrasilia.com.br/entretenimento/katia-flavia/marlete-mattos-cooper/#:~:text=Durante%20duas%20d%C3%A9cadas%20Mattos%20empresariou,de%20Lima%20na%20Revista%20Veja. visualizado no dia 08/07/2022.

    https://istoe.com.br/esculachava-relembra-sergio-mallandro-sobre-bronca-de-marlene-mattos-em-xuxa/ visualizado no dia 08/07/2022.

    https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/celebridades/fofoca-nos-bastidores-irritou-marlene-mattos-e-causou-demissao-de-todas-paquitas-35618 visualizado no dia 08/07/2022.

    https://www.midianews.com.br/variedades/miuxa-lembra-pressao-por-beleza-e-magoa-com-xuxa/242864 visualizado no dia 08/07/2022.

    https://revistaquem.globo.com/Entrevista/noticia/2022/05/os-25-anos-do-planeta-xuxa-apresentadora-lembra-melhores-momentos-e-curiosidades-dos-bastidores.html visualizado no dia 08/07/2022.

    https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/xuxa-e-marlene-matos-uma-amizade-de-decadas-que-acabou-em-processo-na-justica.phtml visualizado no dia 08/07/2022.

    https://www.terra.com.br/istoegente/81/reportagem/capa_xuxa.htm visualizado no dia 08/07/2022.

    Como citar este artigo:

    – ALVES, Marllon. Marlene Mattos: a mulher essencial para que Xuxa Meneghel se tornasse Xuxa Meneghel. In: Gênero e História. Disponível em https://generoehistoriacom.wordpress.com/2022/07/08/marlene-mattos-a-mulher-essencial-para-que-xuxa-meneghel-se-tornasse-xuxa-meneghel/ publicado no dia 08/07/2022.

  • Quem vai suceder D. Pedro II no trono? Dilemas em torno da sucessão ao extinto trono imperial brasileiro

    Princesa Isabel em pose para foto. Imagem: Domínio público.

    Por Marllon Alves

    Nas duas últimas décadas do Império brasileiro surgiram inúmeros fatores que contribuíram para o fim do mesmo. Uma destas razões era a incerteza com relação a quem sucederia D. Pedro II na cadeira imperial. Em tese, esta sucessão estava assegurada, uma vez que a princesa Isabel era viva e havia, depois de muita perseverança, gerado descendentes. Entretanto, haviam fortes resistências com relação à possibilidade de D. Isabel ser a futura imperatriz do Brasil e o único motivo existente para isso era o fato de a princesa ser do sexo feminino.

                Silvio Romero fez um registro interessante e que ajuda a entender o fim do período imperial brasileiro. Fazendo coro com as ideias de seu tempo, Silvio Romero também é lembrado por associar o “retardo” da sociedade brasileira às origens indígenas e africanas da mesma.  Além disso, o mesmo acreditava que com o fim do tráfico negreiro e o incentivo a vinda de imigrantes europeus, os brancos seriam maioria no Brasil. Com relação ao período analisado neste texto, o crítico literário em questão disse o seguinte:

    “O decênio que vai de 1868 a 1878 é o mais notável de quantos no século XIX constituíram a nossa vida espiritual. Quem não viveu neste tempo não conhece por não ter sentido diretamente em si as mais fundas comoções da alma nacional. Até 1868 o catolicismo reinante não tinha sofrido nessas plagas o mais profundo abalo; a filosofia espiritualista, católica e eclética, a mais insignificante oposição; a autoridade das instituições monárquicas o menor ataque sério por qualquer classe do povo; a instituição servil e os direitos tradicionais do feudalismo prático dos grandes proprietários a mais indireta opugnação; o romantismo, com seus doces, enganosos e encantadores cismares, a mais apagada desavença reatora. Tudo tinha adormecido à sombra do príncipe feliz que havia acabado com o caudilhismo nas províncias da América do Sul e preparado a engrenagem da peça política de centralização mais coesa que já uma vez houve na história de um grande país. De repente, por um movimento subterrâneo que vinha de longe, a instabilidade de todas as coisas se mostrou e o sofisma do império apareceu em toda a sua nudez. A Guerra do Paraguai estava a mostrar a todas as vistas os imensos defeitos de nossa organização militar e o acanhado de nossos progressos sociais, desvendando repugnantemente a chaga da escravidão; e então a questão dos cativos se agita e logo após é seguida a questão religiosa; tudo se põe em discussão (…) Nas regiões do pensamento teórico, o travamento da peleja foi ainda mais formidável, porque o atraso era horroroso. “Um bando de ideias novas” esvoaçou sobre nós de todos os pontos do horizonte. (…)”. (SILVIO ROMERO apud BARRETO, 1926: p. 23-24).

                No trecho acima, Silvio Romero explica os motivos que levaram ao fim o período imperial brasileiro. O mesmo analisa que nos primeiros anos do reinado de D. Pedro II houve a consolidação do território do Brasil e a organização da sociedade bem como o regime monárquico em si pareciam estáveis e até mesmo inabaláveis. Entretanto, por um movimento que se aproximava gradativamente e sem a percepção de muita gente, toda a fragilidade do Império bem como as contradições existentes na sociedade deste período foram expostos. A Guerra do Paraguai (1864-1870) expôs a fragilidade do exército brasileiro e os horrores do regime escravagista então em vigor no Brasil. Não é atoa que neste período o movimento abolicionista já mostrava a sua força e ganhava adeptos em todos os setores da sociedade. Com relação ao exército, os mesmos se sentiam desvalorizados pela sociedade e até mesmo pelo imperador. Isso ajuda a entender o motivo de os mesmos terem sido os protagonistas de um golpe que depôs a monarquia e implantou a república no país. Nem mesmo o catolicismo, a religião oficial do Império do Brasil, outrora acima de qualquer crítica, escapou de questionamentos e o “bando de ideias novas” foi fundamental na formulação de tantos questionamentos.

                Muitas foram as ideias que chegaram ao Brasil neste período e que mostraram a fragilidade da monarquia brasileira. Carvalho (2012) analisa que “a presença europeia fazia-se sentir no mundo das ideias filosóficas e políticas” (CARVALHO, 2012: p. 32). Quanto às ideias filosóficas, destaque para Victor Cousin. Já com relação às ideias políticas, intelectuais como François Guizot, Benjamin Constant, Alexis de Tocqueville, John Stuart Mill podem ser citados como exemplo. Destaque também para as filosofias deterministas que caracterizaram o período, como por exemplo o positivismo de Augusto Comte, o evolucionismo de Herbert Spencer, o biologismo de Ernest Haecked, a antropogeografia de Friedrich Ratzel e o racismo de Arthur de Gobineau. Carvalho (2012) salienta que o “único determinismo oitocentista que não chegou ao Brasil na época foi o econômico de Karl Marx (1818-1883)” (CARVALHO, 2012: p. 34). Vale ressaltar que todas estas ideias foram adaptadas à realidade brasileira, que nesta época era estruturada na escravidão. Zin (2019) afirma que os “racialistas encontraram uma maneira de combinar o conceito de evolução com a naturalização das diferenças biológicas. Os liberais conseguiram conviver sem maiores problemas com a escravidão” (ZIN, 2019: p. 103). Neste contexto, Alonso (2002) afirma que em função das ações de liberais radicais, positivistas, darwinistas sociais e evolucionistas, por exemplo, a monarquia em vigor no Brasil perdeu a “batalha ideológica” para os intelectuais e movimentos contrários ao regime monárquico.

                O regime escravagista estava em vigor neste período, estando presente em todo o território nacional e estruturando a sociedade brasileira nos mais diversos aspectos. Nas duas últimas décadas da escravidão e da própria monarquia, movimentos pela abolição da escravidão estavam presentes em todo o Brasil. Jornais, clubes, organizações, romances e peças de teatro eram dedicados parcial ou totalmente à causa da abolição. Fugas de escravizados recebiam o apoio de abolicionistas, associações compravam a alforria para cativos, sejam eles homens, mulheres ou crianças. A onda antiescravagista alcançou a monarquia, onde a princesa Isabel se envolveu particularmente nesta questão. Católica fervorosa e alinhada às orientações papais, que havia passado a condenar a escravidão, organizou campanhas para a compra de alforrias e abrigou cativos fugidos em seu palácio.  Em 1888, D. Pedro II precisou ausentar-se de suas funções reais para cuidar de sua saúde. D. Isabel o substituiu na cadeira real e foi neste momento que decidiu agir. O Barão de Cotegipe, então “primeiro-ministro” do Brasil, era contrário a abolição e não mostrava interesse no assunto. Percebendo este fato, a princesa Isabel demitiu o mesmo e chamou João Alfredo, igualmente conservador e também abolicionista, para que a ajudasse a aprovar a abolição da escravidão. Aprovada em tempo recorde, a Lei Áurea é a mais curta e mais importante da história do Brasil. A mesma consiste em apenas dois artigos: “É declarada extinta, desde a data desta lei, a escravidão no Brasil. Revogam-se as disposições em contrário”. D. Isabel foi ovacionada nas ruas e viu sua popularidade aumentar. Entretanto, estas mesmas vozes não tinham força política. Ressentidos com a abolição sem indenização, os grandes cafeicultores se uniram aos movimentos republicanos e ajudaram a derrubar a monarquia.

                Na esfera pública, a situação do Brasil no contexto da monarquia é esta descrita nos parágrafos anteriores. Na esfera privada (aliás, a concepção de vida privada começou a ser concebida neste período), a situação também não era estável. Teoricamente, o regulamente permitia a ascensão de mulheres ao trono. Desta forma, a mesma já estava garantida, uma vez que D. Isabel estava viva. Entretanto, na prática, haviam fortes resistências com relação a possibilidade de uma mulher reger o Império do Brasil. Independente da ordem de sucessão, a preferência era sempre por um infante e não por uma infanta. Se, depois de ter uma ou mais filhas, o monarca tivesse um filho, este ocupava o topo da lista na linha de sucessão. Este fato aconteceu duas vezes na história imperial brasileira. Antes de ter o filho que entraria para a história do Brasil como D. Pedro I (nascido em 1798), D. João VI teve as filhas D. Maria Teresa de Bragança (nascida em 1793) e D. Maria Isabel de Bragança (nascida em 1797). Entre as filhas D. Maria Teresa e D. Maria Isabel, D. João VI teve D. Francisco António (nascido em 1795), mas como este faleceu quando tinha somente seis anos de idade, D. Pedro I ocupou seu lugar na linha de sucessão. Por sua vez, antes de ter o filho D. Pedro II (nascido em 1825), D. Pedro I teve com D. Leopoldina as filhas D. Maria II (nascida em 1819), D. Januária do Brasil (nascida em 1822), D. Paula do Brasil (nascida em 1823 e falecida dez anos depois) e D. Francisca do Brasil (nascida em 1824). No caso específico de D. Pedro II, o imperador teve os filhos D. Afonso de Bragança (1845-1847) e D. Pedro Afonso de Bragança (1848-1850). D. Afonso era o primogênito de D. Pedro II e D. Teresa Cristina; e D. Afonso Pedro era o mais novo, nascendo depois de D. Isabel e D. Leopoldina de Bragança. Neste contexto, uma mulher só ascendia ao trono quando não houvesse nenhum homem na linha de sucessão.

    D. Pedro II ao lado do neto D. Pedro Augusto, que, caso a princesa Isabel não engravidasse, seria D. Pedro III. O jovem não aceito ser afastado da linha de sucessão ao trono e tentou, em vão, suceder o avô. Imagem: Reprodução.

                Uma vez que a princesa Isabel era a única filha vida de D. Pedro II e D. Teresa Cristina (D. Leopoldina faleceu em 1871 de febre tifoide), a sucessão ao trono imperial estava assegurada. Entretanto, D. Isabel, que se casou com o conde d’Eu, não conseguia engravidar. A principal função de uma princesa e/ou rainha era gerar descendentes e não governar. Desta forma, tal situação se tornou um grande problema. Vendo a dificuldade da filha em engravidar e temendo que a mesma não gerasse um descendente, D. Pedro II pediu que um neto viesse para o Brasil. D. Pedro de Bragança Saxe e Coburgo era filho de D. Leopoldina de Bragança e D. Luís Augusto de Saxe-Coburgo-Gota. O jovem chegou ao país quando tinha cinco anos de idade após a morte da mãe. O objetivo da vinda de um membro da família real era suceder D. Pedro II caso a princesa Isabel não gerasse descendentes. Não tardou para que D. Pedro de Bragança Saxe e Coburgo e D. Pedro II criassem laços de afeto e interesses comuns. Foi tratado na corte como herdeiro até os 11 anos de idade, ele seria D. Pedro III. Porém, tudo mudou em 1875, quando a princesa Isabel teve seu primeiro filho, o príncipe do Grão-Pará, após dez anos e muitas tentativas. O filho de D. Leopoldina começou a ser afastado do centro do poder e foi iniciada uma conspiração lenta e discreta, ao menos no início, cujo objetivo era colocar o jovem no trono brasileiro. Ainda na adolescência, D. Pedro Augusto tinha um grupo de simpatizantes que receberam a alcunha de “pedristas”: políticos insatisfeitos com as ideias liberais, republicanos convencidos de que a passagem para um novo regime deveria ser feita por meio de um imperador-presidente “no estilo” de Napoleão III, proprietários de terras aflitos com o movimento abolicionista, monarquistas que não queriam uma mulher no trono e pessoas que não simpatizavam com o casal D. Isabel e Gastão D’Eu.

                A resistência com relação a possibilidade de D. Isabel suceder D. Pedro II na cadeira imperial pode ser explicada pelo modo como o sexo feminino era visto neste período. Analisando o pensamento da época com relação a mulher, Perrot (1992) afirma que acreditavam que a mulher não deveria exercer cargos públicos. Por sua vez, Hegel acredita em “vocação natural” dos dois sexos. “O homem tem sua vida real e substancial no Estado, na ciência ou em qualquer outra atividade do mesmo tipo” (HEGEL apud PERROT, 1992: p. 177). Por sua vez, a mulher teria sido feita para o interior. “Se colocam as mulheres à frente do governo, o Estado se encontra em perigo. Pois elas não agem conforme as exigências da coletividade, mas segundo os caprichos de sua inclinação e seus pensamentos” (HEGEL apud PERROT, 1992: p. 178). Já Augusto Comte fala em “inaptidão radical do sexo feminino para o governo, mesmo que da simples família” (COMTE apud PERROT, 1992: p. 178) por conta da “espécie de estado infantil contínuo” que caracterizaria o sexo feminino. Desta forma, o espaço doméstico era o único que deveria ser confiado a mulher, mas até este mesmo espaço deveria ser dado de forma limitada, tendo sempre o controle masculino na prática. A família, a casa e núcleos da esfera privada eram os únicos em que a mulher poderia atuar, dentro de certos limites. Já Cesare Lombroso e Guglielmo Ferrero acreditavam que “a mulher tem numerosos traços comuns com a criança, que seu senso moral é deficiente, que ela é vingativa, ciumenta, levada a exercer vingança de uma crueldade refinada” (FERRERO e LOMBROSO apud SOIHET, 1989: p. 83). Estes mesmos intelectuais acreditavam que estes supostos instintos femininos eram “neutralizados pela piedade, a maternidade, o pouco ardor de suas paixões, sua frieza sexual, sua fraqueza e sua menor inteligência” (FERRERO e LOMBROSO apud SOIHT, 1989: p. 83).

                O século XIX acentua as visões sobre o homem e a mulher analisadas no parágrafo anterior. Cada sexo tem a sua função e seus espaços até mesmo nos mínimos detalhes. Neste contexto, a linguagem do trabalho era uma das mais sexuadas possíveis. “Ao homem, a madeira e os metais. À mulher, a família e os tecidos” (apud PERROT, 1992: 178). Vale destacar que durante o período que hoje é chamado de Idade Moderna e até mesmo durante o século XIX houve mulheres que ascenderam ao trono em diversas partes do mundo. Algumas destas são: Isabel I (Castela), Elizabeth I (Inglaterra), Catarina I (Rússia), Catarina, a Grande (Rússia), D. Maria I (Portugal), D. Maria II (Portugal) e a rainha Vitória (Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda, além de Imperatriz da Índia). Mesmo assim, a presença de uma mulher sentada em um trono imperial não era desejada.

    A princesa Isabel e o conde d’Eu ao posam para foto ao lado dos três filhos. O casal tinha de lidar constantemente com a baixa popularidade. Imagem: Reprodução.

                D. Isabel não era uma figura popular, embora a abolição da escravidão tenha aumentado sua popularidade, mas não a ponto de mudar a mentalidade de muitas pessoas dentro da sociedade a seu favor. Além disso, conde d’Eu, o marido da monarca, também não era uma pessoa que gozava da simpatia popular. Desde o episódio que ficou conhecido como Questão Religiosa, o Diário do Rio de Janeiro se referia a D. Isabel como “fanática, fraca, dona de ideias retrógadas, incompetente para governar”. Durante a segunda regência da princesa, ocorrida entre os anos de 1876 e 1877, as ofensas foram estendidas ao príncipe. O jornal O Mequetrefe se referia ao consorte como “cabeça-oca”, “estalajadeiro” (dono de estalagem. Parte da imprensa associou o monarca a exploração de cortiços na cidade do Rio de Janeiro) e “negociante de secos e molhados”. No ano de 1888, a Semana Ilustrada se referiu a D. Isabel como “criatura histérica, fanática e pouco inteligente”. Já a Gazeta da Tarde se referiu ao marido da princesa como alguém que só “se deixava conduzir e arrastar pelo valor real que agrada e satisfaz sua cobiça”. Por sua vez, o jornal O Paiz denunciava o “conhecido e jesuítico fanatismo religioso e mundano da futura imperante”, “a submissão da princesa ao chefe da Igreja”, além de classificar a futura imperatriz como “a princesa católica”, “Isabel, a perjura” e defini-la como uma pessoa de “espirito fraco, fanatizada pela educação, mal preparada cientificamente para corrigir os vícios dessa educação e antes predisposta a ser o instrumento consciente nas mãos do jesuitismo”.

                A disputa pela cadeira imperial brasileira acabou gerando uma disputa entre os pedristas, já citados neste texto, e os legitimistas, aqueles que apoiavam um Terceiro Reinado com D. Isabel e o conde d’Eu. D. Pedro II não assumia uma posição com relação ao assunto e ambos os grupos pareciam indiferentes às manifestações republicanas. Esta trama se tornou ainda mais complexa depois da assinatura da Lei Áurea, fazendo com que as peças deste jogo fossem reposicionadas. É interessante notar que todas as opções para substituir a princesa e aqueles que governariam “na prática”, já que se acreditava que mulher não tinha capacidade para governar, eram do sexo masculino. Havia o temor de a futura imperatriz ser submissa incondicional às orientações papais; e o conde d’Eu não era popular e a possibilidade de o mesmo ser um príncipe consorte era apavorante. Desta forma, alguns acreditavam que o mais preparado para ser o futuro imperador do Brasil era D. Pedro Augusto, o futuro D. Pedro III. Quando o golpe militar republicano foi dado no país e a família real brasileira se encontrava em um exílio forçado, foi cogitado um plano de restauração monárquica onde D. Pedro II e D. Isabel abdicariam de suas posições reais em prol de D. Pedro de Alcântara de Orléans e Bragança, o primogênito da princesa Isabel. O plano consistia em levar o rapaz, que neste período tinha 15 anos de idade, ao Brasil sem a presença dos demais membros da família real. A chefia do Estado seria entregue a um governo provisório até que o jovem atingisse a maioridade. D. Pedro II aceitou a ideia, mas D. Isabel, motivada por suas convicções católicas, refutou a ideia porque temia que, sob a tutela de políticos, o filho não fosse ensinado dentro do catolicismo. O primogênito de D. Isabel e conde d’Eu abdicou de um possível trono para si e seus descendentes para se casar com uma mulher oriunda de uma família considerada não nobre. Já D. Pedro Augusto começou a apresentar transtornos mentais quando ainda estava no Brasil e estes se tornaram mais intensos com o golpe militar republicano. Foi internado em um hospício no exterior, saindo do mesmo depois de sua morte, ocorrida 41 anos depois de sua internação.

    Conclusão

                Além de citar a perda na “batalha ideológica”, Alonso (2002) cita como motivos para o fim do período imperial brasileiro a interrupção da agenda de modernização e a acessibilidade dos meios de expressão de opinião, bem como o ingresso no ensino superior. Neste contexto, houve a contestação de elementos como a escravidão e a própria monarquia. Por sua vez, Max Leclerc, viajante francês que estava no Brasil por ocasião do golpe militar republicano, deixou suas impressões sobre o ocorrido no livro Cartas do Brasil: “A revolução está terminada e ninguém parece discuti-la, mas aconteceu que os que fizeram a revolução não tinham de modo algum a intenção de fazê-la e há atualmente na América um presidente da República à força. Deodoro desejava apenas derrubar um ministério hostil. Era contra Ouro Preto e não contra a Monarquia. A monarquia caíra. Colheram-na sem esforço como um fruto maduro” (LECLERC apud COSTA, 2010: p. 397). Além de tudo isso, parte das classes dirigentes rejeitavam veementemente a possibilidade de o Brasil ser regido por uma imperatriz. Insatisfeitos com os rumos da política imperial, uma parte destes optaram por engrossar as manifestações republicanas. Estes, bastante influentes, preferiram dar um golpe militar e proclamar a república do que verem uma mulher chefiando o Estado.

    Referências:

    – ALONSO, Angela. Ideias em movimento: a geração de 1870 na crise do Brasil-Império. São Paulo: Paz e Terra, 2002. 392p.;

    – BARMAN, Roderick J. Redentora e prisioneira. Revista de História da Biblioteca Nacional, ano 7, nº 80, p. 18-21, maio 2012;

    – BARRETO, Tobias. Vários escritos. Aracaju: Editora do Estado de Sergipe, 1926. 246p.;

    – CARVALHO, José Murilo de. As marcas do período. In: CARVALHO, José Murilo de (org.). A construção nacional, 1830-1889. Vol. II. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012, p. 19-35;

    – ___________________. D. Pedro II. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 276p.;

    – COSTA, Emília Viotti da. Da Monarquia à República: momentos decisivos. 9ª ed. São Paulo: Editora UNESP, 2010. 524p.;

    – DEL PRIORE, Mary. O Castelo de Papel: uma história de Isabel de Bragança, princesa imperial do Brasil, e Gastão de Orléans, conde d’Eu. Rio de Janeiro: Rocco, 2013. 315p.;

    – ____________. Pedro III – o imperador que não foi. Aventuras na História, edição 127, p. 64-65, fevereiro 2014;

    – JÚNIOR, Robert Daibert. Entre o trono e o altar. Revista de História da Biblioteca Nacional, ano 7, nº 80, p. 22-25, maio 2012;

    – PEREIRA, Cibele Camargos. Gênero e crise: a expectativa do Terceiro Reinado em meio à linguagem republicana. In: XIV Semana de História Política/XI Seminário Nacional de História Política, Cultura e Sociedade: Res publica: caminhos e descaminhos da cidadania brasileira, 2019, Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2019, p. 199-212;

    – PERROT, Michelle. Os excluídos da história: operários, mulheres e priosioneiros. Tradução de Denise Bottmann. 2ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. 332p.;

    – SOIHET, Rachel. Condição feminina e formas de violência: mulheres pobres e ordem urbana, 1890-1920. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1989. 394p.;

    – ZIN, Rafael Balseiro. Maria Firmina dos Reis: a trajetória intelectual de uma escritora afrodescendente no Brasil oitocentista. São Paulo: Aetia Editorial, 2019. 144p.

    Como citar este artigo:

    – ALVES, Marllon. Quem vai suceder D. Pedro II no trono? Dilemas em torno da sucessão ao extinto trono imperial brasileiro. In: Gênero e História. Disponível em https://generoehistoriacom.wordpress.com/2022/07/01/quem-vai-suceder-d-pedro-ii-no-trono-dilemas-em-torno-da-sucessao-ao-extinto-trono-imperial-brasileiro/ publicado no dia 01/07/2022.

  • As humilhações públicas e privadas que a família de Ayrton Senna fez Adriane Galisteu passar

    Amigos próximos de Ayrton Senna garantem que nunca tinham visto o piloto tão feliz como ele estava com a Adriane Galisteu. Entretanto, esta mesma felicidade não era compartilhada pela família do piloto. Imagem: Reprodução/Instagram.

    Por Marllon Alves

                Ayrton Senna é um nome que dispensa apresentações, ele fez história na Fórmula-1 e continua a inspirar pilotos até hoje, apesar de sua morte ter ocorrido há quase três décadas atrás. Discreto com relação à vida pessoal, alguns relacionamentos de Senna se tornaram midiáticos e são lembrados até hoje. A última namorada do piloto foi Adriane Galisteu, outro nome que dispensa apresentações. Amigos próximos de Senna garantem que nunca tinham visto o piloto tão feliz e até mesmo mais leve. Entretanto, esta era uma relação que a família de Ayrton reprovava e não se deram ao trabalho de esconder tal descontentamento, principalmente depois que o membro mais famoso da família faleceu.

                Não se sabe ao certo o número exato de mulheres com quem Ayrton Senna se relacionou e o fato de o atleta ter sido muito discreto com relação a sua vida pessoal faz com que esta questão seja um mistério ainda maior. Entretanto, algumas relações de Senna vieram a público, tornando-se midiática em alguns casos. Muitos talvez não saibam, mas Ayrton Senna já foi casado “oficialmente”. Lilian de Vasconcelos Souza e Ayrton foram casados por aproximadamente dois anos. O casamento chegou ao fim por conta da imaturidade de ambos. Outra mulher de destaque na vida de Ayrton foi Adriane Yamin e a relação é até hoje lembrada porque na época Adriane tinha somente 15 anos de idade e o piloto 24. Adriane confessou que foi com Ayrton que aprendeu a beijar e disse também que o piloto era brincalhão, divertido, amoroso e uma pessoa que passava confiança. Eles começaram a namorar em 1984, ano em que a carreira de Senna dá “uma virada”, uma vez que este é o ano em que o mesmo assina com a Lotus. Com isso, o convívio entre ambos foi se tornando cada vez mais raro, contribuindo para o fim da relação. Adriane Yamin lançou o livro Minha Garota, onde conta como foi namorar Ayrton Senna por quatro anos. A obra leva este título porque era desta forma que o atleta se referia a então namorada.

    Ayrton Senna ao lado da então esposa Lilian Vasconcellos. Créditos na imagem.

                Quando Ayrton Senna conheceu Xuxa Meneghel, ambos estavam no auge de suas carreiras. O piloto havia se consagrado de vez na categoria principal do automobilismo e Xuxa fazia sucesso em todas as áreas em que atuava: cinema, música, televisão e brinquedos para crianças. Desta forma, conciliar as agendas era um verdadeiro desafio e a comunicação entre ambos ocorria por telefone. A relação durou pouco mais de um ano e, mesmo após o fim, Ayrton e Xuxa ficaram mais de um ano se relacionando ocasionalmente sem o conhecimento da mídia. Esta situação só findou quando o piloto começou a namorar sério. Ao que tudo indica, esta relação parece ter sido bem resolvida por parte do Ayrton, mas o mesmo não se pode dizer da parte de Xuxa. Isso porque a apresentadora disse em mais de uma ocasião que pretendia procurar o piloto na semana de sua morte, em 1994. Além disso, ela deu a entender várias vezes que ele era o grande amor de sua vida. Não é exagero dizer que este é um assunto que até hoje mexe com a Xuxa.

                Nos primeiros anos da década de 1990, quando conheceu Ayrton Senna, Adriane Galisteu buscava seu lugar ao sol. Em 1984, aos 11 anos, fez parte do grupo infantil Chispitas. No ano de 1987 entra para a girl band Meia Soquete, permanecendo no grupo até 1989. No mesmo ano em que sai do grupo em questão assina com a agência Ford Models, permanecendo até 1993. Desta forma, quando Adriane Galisteu conhece Ayrton Senna, esta trabalhava como modelo. Por conta de experiências passadas, o piloto queria alguém que o acompanhasse em seu cotidiano e não alguém a quem ele veria ocasionalmente e/ou com quem tivesse de conversar a distância. E foi exatamente isso o que Adriane fez: largou seu trabalho como modelo e foi viver ao lado de Ayrton Senna. Ciente de que a amada estava abrindo mão de sua carreira e também de que a mesma era o “arrimo” de sua família, o piloto abriu uma conta conjunta em um banco com Adriane. Conforme dito no início deste texto, amigos próximos de Ayrton e pessoas que trabalhavam com o piloto disseram que nunca haviam visto o piloto tão feliz e leve como ele estava com a Adriane Galisteu. No especial Ayrton Senna do Brasil, série de quatro episódios realizada pelo Esporte Espetacular, da TV Globo no ano de 2014 em homenagem aos 20 anos da morte do atleta, Betise Assumpção, que foi assessora de imprensa de Senna, disse que o mesmo faleceu em um momento onde o mesmo começava a equilibrar a vida pessoal e a profissional; e a Adriane Galisteu foi fundamental nesta questão. Na época em que faleceu, Ayrton Senna e Adriane Galisteu viviam em uma bela mansão em Portugal e tudo levava a crer que eles dariam mais um passo em uma relação que parecia sólida. Entretanto, nunca se saberá o que teria acontecido se Ayrton Senna não tivesse batido em alta velocidade na curva Tamburello no dia 01 de maio de 1994.

    Adriane Galisteu ao lado de Betise Assumpção, então assessora de imprensa de Ayrton Senna. Além de organizar parte do funeral, Betise acolheu Adriane em um momento em que a família do piloto fazia exatamente o contrário. Imagem: Reprodução.

                A relação de Adriane Galisteu com a família Senna “era ótima, porém distante”. Os poucos encontros de Adriane com a família do então amado foram rápidos, mas a mesma destaca que a família dele sempre a tratou muito bem. A vida de Senna estava concentrada entre Portugal, Mônaco e Inglaterra. O tratamento da família Senna dado a Adriane era mera formalidade e a mesma se desfez quando o piloto faleceu. O velório e o sepultamento de Ayrton Senna levaram milhões de pessoas às ruas e outros milhões para a frente da TV, dentro e fora do Brasil. Foi neste cenário que a família do piloto tratou Xuxa Meneghel como a viúva de Ayrton e ignorou a presença de Adriane Galisteu. A jovem teve de acompanhar o funeral longe da família do amado e teria sido convidada a se retirar do carro que levou a família até o Cemitério do Morumbi, onde Ayrton está enterrado, para dar espaço a Xuxa Meneghel. Este fato foi bastante comentado na época e até hoje é lembrado. Biógrafos de Ayrton Senna, dentro e fora do Brasil, já se debruçaram sobre este fato. Além disso, muitos foram os programas de rádio, TV e sites onde Adriane Galisteu falou sobre o assunto nestes 28 anos de morte de Ayrton Senna. Entretanto, Adriane passou por muitas humilhações por parte da família Senna onde o grande público só veio saber um tempo depois.

                Leonardo Senna esteve com o irmão Ayrton nos últimos dias de vida do mesmo em Portugal e depois na Itália. Ele estava lá a pedido do restante da família Senna para tentar convencer o Ayrton a dar um fim na relação que este tinha com Adriane Galisteu. Eles haviam tido discussões ásperas anteriormente e desta vez Leonardo tinha em mãos uma gravação que provaria a infidelidade de Galisteu. O suposto material teria sido obtido através do grampeamento de telefones de um dos imóveis do piloto. Não demorou muito para todos saberem que não havia indícios de que Adriane teria traído Ayrton. No mesmo do dia da morte de Senna Adriane Galisteu foi expulsa da mansão onde vivia com o amado em Portugal. Ainda na noite do fatídico 01 de maio de 1994, um membro da família Senna fez uma ligação internacional para se certificar de que Adriane havia sido expulsa da residência por ordens deles. Adriane Galisteu tentou sair de Portugal e para comprar a passagem aérea constatou que o cartão de crédito dado por Ayrton havia sido cancelado pela família do mesmo. Quem comprou a passagem de Adriane foi o banqueiro Braguinha e sua esposa. Vale destacar que Braguinha ajudou Adriane Galisteu a passar pelas dificuldades financeiras que esta enfrentou depois da morte de Senna. Quando Adriane foi pegar suas coisas que estavam em um apartamento de Ayrton em São Paulo, Viviane Senna, irmã do piloto e presidente do Instituto Ayrton Senna, ficou na porta do imóvel a espera de Adriane. Quando esta saiu, averiguou pessoalmente as malas e bolsas para se certificar de que ela não tinha levado algo do imóvel. Além disso, Adriane começou a perceber uma indisposição por parte da família Senna, eles nunca podiam falar com ela e nem retornavam os seus telefonemas.

                Após a morte de Senna, Adriane passou por muitas dificuldades financeiras e de uma forma inesperada. Em um dia, ela estava morando em Portugal e frequentando reuniões em lugares badalados ao lado de atletas e celebridades igualmente badalados. No outro dia, Adriane não tinha dinheiro para comprar um simples pastel de feira. Neste período, Adriane era modelo e as empresas não queriam trabalhar com ela porque o nome da mesma estava ligado a uma tragédia que abalou o Brasil e o mundo.  Além disso, a morte de Ayrton ocorreu em um contexto onde Adriane enfrentou muitas perdas familiares em um curto espaço de tempo. O pai morreu quando esta tinha somente 15 anos de idade por conta de complicações decorrentes do consumo excessivo de bebida alcoólica. Poucos dias depois do sepultamento de Ayrton, Adriane descobriu que Alberto Galisteu Filho, seu único irmão, era portador do HIV e viria a óbito dois anos depois por conta de complicações decorrentes deste mesmo vírus. A apresentadora conta que na época tinha receio de falar abertamente sobre o assunto porque o estigma social era muito forte.

    Adriane Galisteu na ocasião do lançamento de seu livro Caminho das Borboletas. O livro foi a forma que Adriane encontrou para driblar as dificuldades financeiras que enfrentava e recomeçar sua vida. Imagem: Andre Penner.

                Passando por graves dificuldades financeiras e procurando ajudar sua família, Adriane Galisteu decide publicar um livro onde conta como foi viver ao lado de Ayrton Senna. Lançado ainda em 1994, Caminho das Borboletas teve um alto índice de vendas dentro e fora do Brasil. Com o dinheiro obtido através dos livros vendidos, Adriane conseguiu pagar suas contas e recomeçar sua vida. O livro parou de ser publicado quando a apresentadora percebeu que não precisava do mesmo para pagar suas contas, era um momento onde Adriane Galisteu estava “recolocada” no mercado de trabalho. Vale dizer que outro motivo que levou Adriane a publicar o livro em questão foi as pessoas saberem uma outra versão dos fatos. Isso porque naquele momento o sobrenome Senna era muito forte e consequentemente a mídia estaria ao lado desta mesma família, tendendo a colocá-la como uma aproveitadora. Aliás, neste mesmo período alguns jornalistas colocaram Adriane Galisteu desta forma. Além disso, alguns blogs, páginas em redes sociais e canais no YouTube dedicados a Ayrton Senna insistem em representar Adriane Galisteu de forma pejorativa. Em 1995, um ano depois da morte de Ayrton Senna, Adriane Galisteu posa nua para a revista Playboy, uma das maiores revistas masculinas que o Brasil e o mundo já viram. Este ensaio reforçou o estigma de aproveitadora que parte do público enxergava em Adriane.Ao longo de todos estes anos, Adriane “fez” seu nome e hoje (na verdade há alguns anos) o mesmo dispensa apresentações. Adriane Galisteu já atuou, dançou e apresentou alguns programas de TV, além de ser empresária. Teve passagens pela Record, SBT, Band, TV Globo e tem um canal no YouTube. Atualmente, apresenta os reality A Fazenda e Power Couple Brasil, ambos na Record. Na vida pessoal, Adriane Galisteu é casada com Alexandre Iódice desde 2010, com quem teve Vittorio, seu único filho. Adriane se tornou conhecida por ser a última mulher com quem Ayrton Senna se relacionou, mas como disse a mesma em uma entrevista, “o resto todo que eu fiz não foi a sombra dele”.

                Mesmo tendo se passado muitos anos e Adriane Galisteu ter chegado onde chegou, há a impressão de que tentam diminuir ou até mesmo apagar aquilo que Adriane e Ayrton viveram, bem como a importância desta na vida do atleta. Fundado em novembro de 1994, o Instituto Ayrton Senna, que tem por presidente a irmã do piloto Viviane Senna, com frequência faz homenagens a Ayrton. Na maioria delas, Adriane Galisteu não está presente. Por outro lado, Xuxa Meneghel é presença constante nas mesmas e Viviane Senna faz questão de registrar os momentos em fotografias. Incontáveis e de diferentes épocas são os registros, que são facilmente encontrados no Google, onde ambas aparecem juntas. Entretanto, houve exceções. Em 2010, Viviane Senna convidou Adriane Galisteu para a estreia de um documentário sobre Ayrton Senna. Adriane se surpreendeu com o convite, mas não pôde ir porque havia dado à luz há pouco tempo.

                O que a família Senna fez com Adriane Galisteu teve uma grande e negativa repercussão na época. Com o tempo, isso tornou-se um espectro que aparece em tempos não muito regulares. Além das incontáveis entrevistas onde Adriane Galisteu falou sobre o assunto, houve algumas ocasiões a antipatia que a família de Ayrton sente por Adriane Galisteu veio à tona. No ano de 2013, a escola de samba Unidos da Tijuca, do Rio de Janeiro, escolheu para o ano seguinte um enredo sobre Ayrton Senna (a escola foi a campeã do carnaval carioca em 2014). Não demorou muito para que especulassem se Adriane e Xuxa participariam ou não do desfile. Perguntada sobre o assunto, Viviane Senna negou qualquer veto a Adriane e disse que não entende de carnaval e que quem tem o poder de veto são o carnavalesco e o presidente. Fernando Horta, presidente da Unidos da Tijuca, disse a questão surgiu porque Adriane havia sido rainha de bateria da escola, mas ela não participava mais por conta de seus compromissos profissionais. Horta ainda acrescentou que, se a mesma quisesse desfilar, seria muito bem-vinda. Entretanto, a questão parecia longe do fim e desta vez quem interviu foi Paulo Barros, então carnavalesco da escola. Ele classificou a questão como desnecessária, mas ressaltou que Adriane Galisteu era muito querida na escola. Em 2019, a página dedicada a Ayrton Senna no Instagram colocou uma foto do piloto ao lado da cantora Tina Turner em homenagem aos 25 anos da morte do mesmo. O registro em questão foi feito quando Ayrton e Adriane foram a um show de Tina na Austrália. No registro publicado na página dedicada ao piloto, Adriane não aparece e muitos internautas indagaram sobre a ausência de Galisteu. Foi neste mesmo ano em que houve o Senna Day Festival, uma homenagem a Ayrton Senna realizada no circuito de Interlagos, em São Paulo. Adriane não foi convidada, mas Xuxa estava lá. Em novembro de 2020, durante sua participação no programa global Altas Horas, Xuxa disse que cogitou procurar Ayrton Senna no dia seguinte ao GP de San Marino de 1994, caso o piloto não tivesse morrido. Muitos internautas criticaram Xuxa e saíram em defesa de Galisteu. Esta atitude foi bastante criticada porque houve a impressão de que a eterna Rainha dos Baixinhos quisesse aparecer como a viúva de Ayrton, uma vez que quando o atleta morreu ele estava comprometido com Adriane. Xuxa ainda reforçou que era de conhecimento público (menos dela) que o piloto estava comprometido e que a sua intenção não era intervir ou até mesmo findar o relacionamento de alguém. A apresentadora queria resolver algumas questões de sua vida sentimental, uma vez que ainda gostava do atleta, mesmo não estando namorando com ele há um tempo.

    Viviane Senna (no canto esquerdo da foto, com um colar de pérolas e de braços cruzados) e Adriane Galisteu em um encontro que reuniu as mulheres mais influentes do Brasil, realizado em 2009 no estado de São Paulo. Destaque para a presença da então ministra Dilma Rousseff e da então senadora Marta Suplicy. Os eventuais encontros entre Adriane e Viviane são sociais e formais. Imagem: Reprodução.

    Conclusão

                Apesar de ter passado tudo o que passou nas mãos da família de Ayrton Senna, Adriane Galisteu procura não guardar mágoas dos mesmos ou até os difamar. No dia em que ela fizer isso, talvez muita gente a apoie porque motivos para isso não faltam, mas Galisteu não optou por este caminho. Entretanto, isso não significa que Adriane não fale do que passou nas mãos da família em questão. Nas ocasiões em que falou sobre o assunto, a apresentadora foi contundente e ao mesmo tempo elegante, não maldizendo ninguém. Nos momentos em que encontrou Viviane Senna, Adriane e a irmã do piloto se cumprimentaram social e educadamente. Segundo Galisteu, Leonardo Senna, irmão de Ayrton, “é muito querido comigo” (ambos se seguem nas redes sociais). Mesmo assim, parece que há uma tentativa de reduzir ou apagar aquilo que Adriane Galisteu viveu ao lado de Ayrton Senna. Entretanto, em tempos de internet e redes sociais, deter o monopólio da narrativa dos acontecimentos é uma missão impossível. Atualmente, Adriane se tornou um nome forte da TV e do entretenimento e quando dizem que ela só se tornou famosa graças ao Ayrton, Galisteu responde que “nunca montei barraquinha pra vender coisa dele”.

    Referências:

    http://ayrtonsennavive.blogspot.com/2012/04/fotos-chocantes-de-adriane-galisteu.html visualizado no dia 24/06/2022.

    http://ayrtonsennavive.blogspot.com/2011/11/porque-familia-senna-nao-gostavam-de.html visualizado no dia 24/06/2022.

    http://ayrtonsennavive.blogspot.com/2011/12/as-humilhacoes-sofridas-por-adriane.html visualizado no dia 24/06/2022.

    https://www.uol.com.br/esporte/f1/ultimas-noticias/2014/05/02/galisteu-revela-tres-sonhos-de-senna-e-briga-no-dia-da-morte.htm visualizado no dia 24/06/2022.

    http://ayrtonsennavive.blogspot.com/2018/07/adriane-galisteu-e-viviane-senna-juntas.html visualizado no dia 24/06/2022.

    http://ego.globo.com/famosos/noticia/2013/05/nao-convidei-nem-desconvidei-diz-viviane-senna-sobre-galisteu.html visulizado no dia 24/06/2022.

    http://ayrtonsennavive.blogspot.com/2016/08/marido-de-viviane-senna-flavio-lalli.html visualizado no dia 24/06/2022.

    http://ayrtonsennavive.blogspot.com/2012/02/adriane-galisteu-confessa-que-foi.html visualizado no dia 24/06/2022.

    https://www.band.uol.com.br/entretenimento/faustao-na-band/noticias/galisteu-lembra-morte-do-irmao-com-hiv-nao-podia-falar-por-preconceito-16508234 visualizado no dia 24/06/2022.

    https://extra.globo.com/famosos/ex-fala-de-namoro-com-ayrton-senna-aos-15-anos-aprendi-beijar-com-ele-25331382.html visualizado o dia 24/06/2022.

    https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/celebridades/xuxa-reforca-posto-de-viuva-de-senna-na-globo-e-web-sai-em-defesa-de-galisteu-46289 visualizado no dia 24/06/2022.

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    Visualizado no dia 24/06/2022.

    Como citar este artigo:

    – ALVES, Marllon. As humilhações públicas e privadas que a família de Ayrton Senna fez Adriane Galisteu passar. In: Gênero e História. Disponível em https://generoehistoriacom.wordpress.com/2022/06/24/as-humilhacoes-publicas-e-privadas-que-a-familia-de-ayrton-senna-fez-adriane-galisteu-passar/ publicado no dia 24/06/2022.

  • A atuação de Betise Assumpção nos episódios relacionados à morte de Ayrton Senna

    Betise Assumpção ao lado de Ayrton Senna, a quem assessorava. Ela ajudou o piloto a ter uma relação mais tranquila com a imprensa. Imagem: Reprodução.

    Por Marllon Alves

                Betise Assumpção foi assessora de Ayrton Senna entre os anos de 1990 até a morte do piloto, em 1994. Ela era a primeira (e última) assessora daquele que foi o primeiro piloto de Fórmula-1 a ter uma exclusiva. Senna demorou um pouco para entender o trabalho da então funcionária, mas um sentimento de afeto mútuo nasceu entre ambos. Além de ter a missão de ajudar aquele que é até hoje considerado um dos melhores pilotos de todos os tempos a ter uma relação mais amigável com a imprensa, Betise teve a dura missão de ser a “ponte de comunicação” entre a família de Senna no Brasil e os médicos na Itália, que cuidavam de um Ayrton Senna praticamente morto. Uma vez em terras brasileiras, coube também a Betise Assumpção a tarefa de organizar o funeral de Ayrton Senna.

                Quando conheceu Ayrton Senna, Betise Assumpção era uma jornalista em início de carreira, ao passo que o piloto se destacava na F-Ford inglesa e foi neste contexto que ela havia entrevistado o atleta em mais de uma ocasião. Ela estava iniciando na seção de esportes do Estadão e notícias relacionadas ao que eles consideravam esporte amador eram passadas para estes mesmos iniciantes. No ano de 1986, Ayrton Senna foi eleito o esportista do ano, pela revista Placar, da editora Abril, e Betise foi quem fez o especial sobre o piloto. Era a primeira vez que um atleta não oriundo do futebol havia vencido na categoria e a matéria feita por Betise Assumpção incluiu depoimentos da família de Ayrton Senna. No ano seguinte, a jornalista vai para Londres, capital da Inglaterra, a fim de aperfeiçoar o seu inglês e buscar melhores oportunidades profissionais. Um dia, Betise Assumpção estava na casa da irmã na capital inglesa e um amigo em comum ligou e perguntou se o Ayrton Senna poderia estacionar o carro na vaga da casa dela para ir ao torneio de tênis de Wimbledon. Ayrton reconheceu a jornalista e a convidou para um jantar no dia seguinte. Era uma reunião que contava com a presença de aproximadamente seis japoneses e depois a futura assessora do piloto soube que o mesmo estava levando consigo a Honda para a McLaren. Em 1989, Seu Milton, pai de Ayrton Senna, ligou para Betise e perguntou se ela queria trabalhar com o filho. A jornalista não recusou o convite, permanecendo ao lado do piloto entre os anos de 1990 até 1994.

    Betise Assumpção com Ayrton Senna. As entrevistas do piloto eram gravadas para evitar que jornalistas publicassem algo que o atleta não tivesse dito. Imagem: Reprodução.

                Betise Assumpção conta que o início do trabalho com Ayrton Senna era “uma locura”. Isso porque nenhum piloto até então tinha um assessor de imprensa. Ela começou acompanhando o piloto nos finais de semana em que haveriam corridas, chegando na quinta e indo embora na segunda-feira. Não havia a organização recente que todos conhecem e os repórteres perguntavam o que queriam. Além disso, eles chegavam até a publicar o que Ayrton Senna não tinha dito. Os jornalistas que trabalhavam na televisão se achavam mais importantes que os demais e em algumas situações houve até brigas. Betise chegou colocando “ordem na casa”, colocando em lados diferentes os jornalistas que trabalhavam na TV e os que atuavam na mídia impressa. Além disso, cada profissional tinha direito a duas perguntas e tudo era gravado. Se alguém publicasse algo que Ayrton não tivesse dito, nunca mais o entrevistaria novamente. O piloto nunca conseguia atender todo mundo, mas sua assessora anotava os nomes e depois retornava. Betise Assumpção não tinha noção disso, mas na verdade ela implantou um sistema que a Fórmula-1 adotou e utiliza até hoje.

                Betise conta que demorou um ano e meio ou dois para Ayrton entender que ela não estava ali para “bajulá-lo”, mas sim para ajuda-lo a ter uma relação melhor com a imprensa. A jornalista destaca que o piloto era tranquilo, tinha bom senso e sabia escutar. Entretanto, a relação de Senna com a mídia era péssima, que por sinal “o via como um mimado, um terceiro mundista e que podia fazer tudo o que queria”, recorda Betise. Ela também lembra que a primeira vez que Senna reclamou sobre a imprensa, dizendo que não tinha paciência e que não iria falar com os jornalistas, esta respondeu: “Você quer que eu fale o que quer ouvir ou o que me paga para ouvir?”. Ayrton não teria dado nenhuma resposta, mas suas expressões faciais denunciaram que ele não gostou da pergunta de sua assessora. Betise conta também que o piloto era cercado de pessoas que diziam sim a tudo o que este fazia, assim como acontece com muitas celebridades, inclusive com atletas. Entretanto, a assessora de Senna não só falava a realidade, como também procurava apontar uma saída. Embora em algumas situações Betise Assumpção falava aquilo que Ayrton Senna não queria ouvir, isso não impediu que uma amizade nascesse entre os dois. Uma vez o piloto pediu que sua assessora o chamasse de Beco, seu apelido de infância. Betise ficou honrada com o convite e também pelo fato de o atleta a considerar uma pessoa tão íntima, uma vez que só quem o chamava assim eram a mãe, os irmãos e os amigos de infância. Betise e Ayrton se tornaram amigos, mas nunca saíram para jantar ou passar as férias juntos, por exemplo. Isso porque a jornalista fez questão de não ser a “amiguinha” para não perder a capacidade de chegar e falar: “Não é assim que se faz”.

                Sempre presente ao lado de Ayrton Senna, Betise Assumpção esteve ao lado do piloto durante seus últimos dias de vida. Ela viu de perto a tensão pela qual Ayrton estava vivendo por conta do grave acidente que Rubinho Barrichello havia sofrido na sexta e da morte de Roland Ratzenberger no sábado. Era uma época onde a Fórmula-1 era um esporte extremamente perigoso e morrer durante uma corrida e até mesmo em um treino classificatório era corriqueiro. Quando Ayrton Senna morreu, ele e mais algumas pessoas estavam justamente reivindicando melhorias neste que era um esporte tão perigoso. Betise conta que no dia da morte de Ayrton, no dia 01 de maio de 1994, um domingo, o piloto deu “bom dia” e não falou com mais ninguém. Ela entrou no motor home e perguntou se poderia fazer alguma coisa e Senna deu uma resposta negativa. Ela estava sentada perto dele e aproveitou a ocasião para fazer carinho nos cabelos do atleta. “Ele estava péssimo e só levantou a cabeça, me olhou no olho e disse obrigado”, detalha Betise.

    Bernie ao lado da agora ex-esposa Slavica. O então chefão da Fórmula-1 queria que a morte de Senna fosse divulgada com o término da corrida para não comprometer o evento. Créditos na imagem.

                A então assessora de Senna não especifica o tempo exato, mas ela relatou em seu blog que naquele fatídico 01 de maio de 1994 saiu junto com Leonardo Senna, irmão de Ayrton, dos boxes da Williams e caminharam em direção a torre de comando do autódromo em busca de informações. Quando estavam se aproximando, Bernie estava saindo do local. Ele olhou para os dois e disse que queria falar com o irmão de Senna. A intenção do mesmo era falar a sós com o rapaz, mas como este não falava inglês, Bernie não teve outra saída, a não ser permitir a entrada de Betise. Slavica, então esposa de Bernie, estava dentro da torre de comando sozinha, muito abalada e chorava bastante. Bernie sentou-se no braço de um sofá enquanto Betise e Leonardo sentaram-se de frente para onde Bernie estava sentado ao lado da esposa. Bernie foi direto: “ele está morto” (he is dead, em inglês). Betise teve de pensar rápido antes de traduzir a informação para Leonardo Senna. Ela tentou escolher muito bem as palavras para dar uma notícia tão delicada. O desafio era ainda maior porque Bernie usou apenas duas palavras para dar tal informação. Foi quando Betise virou-se para Leonardo e disse: “Leo, eu sinto muito ter de te falar isto, mas ele está dizendo que o Ayrton está morto”. Leo olhou para a assessora e depois para Bernie sem dizer uma palavra. Não demorou muito para que este começasse a chorar, soluçar e gritar; “Mas nós só vamos anunciar mais tarde para não parar a corrida”, acrescentou Bernie. Antes de Betise terminar de falar, Leonardo chorava e tremia e a jornalista não sabia o que fazer. Slavica chorava e gritava ainda mais alto. Betise demorou alguns minutos para acalmar minimamente o Leonardo. Foi quando ela segurou nas mãos do irmão de Senna e disse: “Leo, eu realmente sinto muito. Nossa, de verdade. Nem sei mais o que dizer para você, mas uma coisa você tem que fazer. Você precisa se recompor e ligar para os seus pais no Brasil. Eles devem estar desesperados e não pode ser eu a lhes dar esta notícia. Eles precisam ouvir isso de você. Tenho certeza de que vai ser mais reconfortante para eles também”.

                Betise explicou para Bernie que Leonardo precisava se comunicar com a família, que estava no Brasil. Bernie assentiu e emprestou o telefone. Foi neste momento que entrou no recinto Martin Whitaker, assessor de imprensa da FIA na época, e disse que comunicou a imprensa que Ayrton não estava morto, mas que teve graves ferimentos na cabeça. Betise insistiu dizendo que já sabia de toda a verdade e que o Leonardo já estava comunicando o fato para a família. Martin fingiu não entender e foi categórico. Desta forma, o irmão caçula de Ayrton teve de telefonar mais uma vez para seus familiares e dizer que o irmão estava vivo. Betise Assumpção estava em uma situação complicada. Ela sabia de toda a verdade, mas nada podia dizer porque não era este o papel dela. Além disso, a situação em um todo era extremamente delicada e a própria Betise, no fundo, agarrou-se na possibilidade inexistente de que Ayrton poderia sobreviver. Betise passou as próximas horas traduzindo, organizando, passando recados e lidando com um Leonardo devastado pela morte do irmão e com a família em igual situação no Brasil. A situação só foi de fato esclarecida quando o Dr. Sid Watkins chegou ao hospital. Ele estava muito abalado, falou com os familiares de Ayrton por telefone e falou para a jornalista: “Betise, não há esperança nenhuma. Ele já estava morto na pista”.

                Além de lidar com os fatos citados nos parágrafos anteriores, Betise teve de lidar com um padre que trabalhava como capelão dando detalhes para toda a imprensa sobre o quão irreconhecível estava Ayrton Senna. Betise conta que estava lá quando um jornalista brasileiro que trabalhava em rádio veio avisá-la de que “o padre tá lá dando entrevista pra TV dizendo que a cabeça do Senna tá do tamanho de uma melancia!”. Betise foi logo averiguar o que estava acontecendo. O padre, sem nenhuma sensibilidade e respeito para com a memória do Ayrton e os familiares e amigos do mesmo, estava dando detalhes para quem quisesse ouvir de como se encontrava o piloto. Com relação ao translado do corpo de Ayrton Senna ao Brasil, Celso Melo ficou com a “parte burocrática”. Dona Neide, mãe de Ayrton, não queria que o corpo do filho fosse transladado para o Brasil na área de carga do avião. Desta forma, foi improvisado na área executiva do avião um espaço para acomodar o caixão com o corpo de Senna. Fazendo “companhia” ao falecido piloto estavam Betise, Galvão Bueno, Reginaldo Leme e mais algumas poucas pessoas. Os demais jornalistas estavam na área turística.

                Ayrton Senna iniciou na Fórmula-1 em 1984 e até sua morte foi o ídolo de milhões de brasileiros (foi e é até hoje e pessoas que nasceram depois da morte de Senna e/ou eram muito pequenas quando ele faleceu o tem por ídolo). Muita gente acordava cedo aos domingos para vê-lo correr. Os conselhos motivacionais de fé e esperança do piloto conquistaram milhões de pessoas ao redor do mundo, fazendo com quem não gostava de Fórmula-1 acompanhasse as corridas. E é bem verdade que o contexto histórico do Brasil ajudou na construção do mito Ayrton Senna. A década de 1980 foi quando o país saiu de uma ditadura civil-militar no qual esteve mergulhado por mais de 20 anos. A inflação atingia alturas astronômicas, fazendo com que o preço de alimentos básicos tivesse variantes consideráveis em um único dia. Por essas e outras razões, esta era considerada a “década perdida”. Desta forma, a figura de Ayrton, uma pessoa que constantemente falava de fé e esperança e que fazia questão de empunhar a bandeira do país em cada vitória, se tornou o referencial de muita gente. Com isso, quando o corpo do piloto chegou ao Brasil, milhões de brasileiros foram às ruas darem o último adeus a Senna. Além disso, diversos meios de comunicação nacionais e estrangeiros cobriram o evento. A morte de Ayrton Senna causou uma comoção poucas vezes vista na história do Brasil. Tamanha manifestação popular encontra precedentes semelhantes com o suicídio do então Presidente da República Getúlio Vargas, em 1954. O Brasil chorava e Betise Assumpção precisou entrar em ação mais uma vez.

    Pilotos e ex-pilotos de Fórmula-1 carregam o caixão com o corpo de Ayrton Senna no Cemitério do Morumbi. Esta organização teve a ação direta de Betise Assumpção. Imagem: Wilson Pedrosa/Agência Estado.

                Depois de fazer o trajeto da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, onde foi velado, até o Cemitério do Morumbi, onde foi enterrado, o carro do corpo de bombeiros com o corpo de Ayrton Senna, sempre cercado por milhares de pessoas, chegou ao seu destino final. Gerhard Berger, melhor amigo de Ayrton Senna na Fórmula-1, veio correndo até Betise com ar de indignação e falou: “Betise, você tem de fazer alguma coisa. Fulano/a (a jornalista não quis dizer quem era, mas fez questão de destacar que não foi ninguém da família de Senna) me disse que Alain (Prost) e Jackie (Stewart) serão os homens de frente carregando o caixão! Aparentemente, é por ondem de quem ganhou mais títulos mundiais!! Você tem que mudar isso. Eles são as duas pessoas que o Ayrton mais odiava, que mais complicaram a vida dele”. Foi o que escreveu Betise em seu blog.

                A assessora precisou articular uma maneira de impedir que Alain Prost e Jackie Stewart estivessem na primeira fila. Foi então que organizou uma nova distribuição de posições, colocando Berger e Fittipaldi em destaque, deixando Prost na segunda fila. A formação definitiva ficou da seguinte forma: Fittipaldi, Prost, Christian Fittipaldi, Jackie Stewart, Roberto Moreno, Johnny Herbert e Wilson Fittipaldi à esquerda; Gerhard Berger, Rubens Barrichello (que anos depois confessou não se lembrar de ter carregado o caixão com o corpo de Senna), Thierry Boutsen, Raul Boesel, Michele Alboreto, Pedro Lamy e Damon Hill à direita. Para Betise, não havia dúvidas de que Gerhard tinha de estar à frente, pois o mesmo tinha participado dos bons momentos de Senna dentro e fora das pistas. Se o critério fosse campeonato mundial, ela teria colocado Emerson Fittipaldi do outro lado. Atrás de Emerson um piloto estrangeiro; atrás de Gerhard um brasileiro. Boutsen, contemporâneo de Senna na Fórmula-1, foi também um bom amigo de Ayrton Senna. Por conta disso, Betise o colocou atrás de Barrichello, que por sua vez estava atrás de Gerhard.

    Conclusão

                Betise Assumpção foi a primeira e última assessora de Ayrton Senna. Apesar do carinho mútuo nascido por conta do convívio diário, Betise procurou manter certa distância do piloto para não comprometer seu trabalho. Ela ajudou Senna a ter uma relação mais amigável com a imprensa e estava presente no fatídico GP de San Marino, em 1994. Por ser a única a falar inglês fluentemente e ser uma pessoa de confiança, Betise foi a “ponte de comunicação” entre Leonardo Senna e Bernie justamente em um momento em que teve de dar ao irmão de Senna a pior notícia que ele poderia receber. Betise foi também a “ponte de comunicação” entre uma esperançosa e aflita Viviane Senna e os médicos que socorreram Senna. Em meio a este furacão, a assessora teve também de lidar com um padre que, na ausência de respeito e sensibilidade, estava detalhando para os jornalistas o quão irreconhecível estava o piloto. Já no Brasil, teve de organizar um funeral que era acompanhado por milhões de pessoas que foram às ruas dar o último adeus ao piloto e também por pessoas que acompanhavam pela televisão, dentro e fora do país. Além de tudo isso, Betise acolheu e consolou Adriane Galisteu, última namorada de Ayrton e que morava com o atleta em Portugal, quando a família Senna fazia exatamente o contrário. Mas esta é uma história que vai ser contada no próximo texto.

    Referências:

    http://ayrtonsennavive.blogspot.com/2017/09/patrick-head-e-betise-assumpcao.html visualizado no dia 03/06/2022

    http://ayrtonsennavive.blogspot.com/2018/05/betise-assumpcao-assessora-de-ayrton.html visualizado no dia 03/06/2022

    http://ayrtonsennavive.blogspot.com/2017/09/nao-gosto-da-f1-diz-em-entrevista.html visualizado no dia 03/06/2022

    http://ge.globo.com/motor/formula-1/noticia/2014/05/ex-assessora-revela-veto-alain-prost-na-primeira-fila-do-caixao-de-senna.html visualizado no dia 03/06/2022

    http://ge.globo.com/motor/formula-1/senna-para-sempre/noticia/2014/05/o-que-bernie-falou-para-leonardo-senna-assessora-relembra-conversa.html visualizado no dia 03/06/2022

    https://odia.ig.com.br/esporte/2013-12-01/assessora-conta-como-domou-senna-ele-demorou-mais-de-ano-para-entender.html visualizado no dia 03/06/2022

    Como citar este artigo:

    – ALVES, Marllon. A atuação de Betise Assumpção nos episódios relacionados à morte de Ayrton Senna. In: Gênero e História. Disponível em: a-atuacao-de-betise-assumpcao-nos-episodios-relacionados-a-morte-de-ayrton-senna publicado no dia 04/06/2022.

  • O problemático título de “Redentora” atribuído à princesa Isabel

    Princesa Isabel posa para foto ao lado do pai, o imperador D. Pedro II. A princesa iria suceder o pai no trono, mas o regime monárquico brasileiro caiu antes disso acontecer. Imagem: Reprodução.

    Por Marllon Alves

    A princesa Isabel foi praticamente a única filha de D. Pedro II e D. Teresa Cristina a chegar à idade adulta. A primeira a suceder o pai no trono do extinto Império do Brasil, chegou a suceder o pai na cadeira imperial quando este precisou se ausentar de suas funções reais. Foi em uma destas ocasiões que assinou a Lei Áurea, em 1888, pondo fim a um regime que durou mais de três séculos: a escravidão. Por conta deste fato, recebeu a alcunha de “Redentora”, mas a mesma não resiste a uma aprofundada análise historiográfica.

                D. Pedro II e D. Teresa Cristina tiveram quatro filhos ao longo do casamento. Entretanto, somente D. Isabel permaneceu viva. D. Afonso Pedro de Bragança nasceu em 1845 e faleceu em 1847 por conta de um ataque epilético (D. Pedro I sofria do mesmo mal e D. Pedro II quase morreu por conta deste mesmo problema), D. Pedro Afonso de Bragança nasceu em 1848 e faleceu em 1850 por causa de uma febre cujas origens são pouco esclarecidas (contemporâneos ao imperador associaram a febre à encefalite ou uma doença congênita). D. Leopoldina de Bragança, a segunda filha mulher do casal imperial, nasceu em 1847 e faleceu em 1871 após contrair febre tifoide. A única filha a sobreviver em meio a tantas mortes foi a princesa Isabel, que nasceu em 1846 e veio a falecer em 1921.

                Além de ser a única filha a morrer depois dos pais, D. Isabel foi quem permaneceu no Brasil após contrair matrimônio. Isso porque a princesa era a filha mais velha após a morte do irmão primogênito. Após se casar, D. Leopoldina passou a viver com o marido entre o Brasil e a Europa, pois entre as cláusulas do casamento arranjado ficou decidido que a princesa em questão teria os filhos em território brasileiro enquanto a sucessão ao trono brasileiro não estivesse assegurada. Segundo Barman (2012), o relacionamento entre a princesa Isabel e o pai era complexo. Eles discutiam com bastante frequência e ela desafiava o imperador, que por sua vez estava acostumado a receber dos demais obediência e respeito. Entretanto, o monarca sabia que em uma situação em que estivesse pressionada, a filha acabaria cedendo. Apesar do espírito audacioso, D. Isabel não questionou o casamento arranjado pelo pai. Foi também sob as ordens do mesmo que a princesa voltou ao Brasil em 1873 para o nascimento de sua primeira filha, que nasceu morta no ano seguinte. Com o passar dos anos, a relação entre pai e filha se modificou, mas D. Isabel nunca afirmou uma presença pública independente de seu pai, nem mesmo quando substituiu o pai no trono quando este precisou se ausentar momentaneamente. “A postura de filha devota jamais foi abandonada” (BARMAN, 2012: p. 19).

    Fotografia do casamento da princesa Isabel com o conde d’Eu. Imagem: Reprodução.

                Ainda segundo Barman (2012), a relação da princesa Isabel com o conde d’Eu, seu esposo, era completamente diferente. Ainda persiste o mito de que o casal escolhera um ao outro, mas cartas particulares datadas deste período mostram que o casamento foi arranjado de acordo com a vontade do então imperador do Brasil. A cerimônia ocorreu pouco mais de um mês após o primeiro encontro, mas ao que tudo indica, a paixão foi mútua e rápida, fazendo com o que a união durasse até a morte da princesa, em 1921. As personalidades de ambos eram complementares, garantindo o equilíbrio do casal. O conde d’Eu tratava a esposa com um carinho e um cuidado que não dedicava a mais ninguém. Por sua vez, a princesa nunca contestou a supremacia do esposo e aprendeu a lidar com ele, que passou a depender do apoio da esposa durante suas crises de depressão e doenças, “todas possivelmente causadas por sua dificuldade em lidar com o estresse” (BARMAN, 2012: p. 19).

                Para Barman (2012), a submissão da princesa ao pai e ao marido pode estar relacionada às crenças da princesa, que era católica. Para este mesmo autor, D. Isabel professava o catolicismo de forma convencional, mas trágicos acontecimentos fizeram da sua religião o centro de sua existência. A princesa estava presente quando D. Leopoldina, a única dos irmãos que ainda estava viva, morreu de febre tifoide, em 1871. Em 1874, após uma gravidez tranquila, um trabalho de parto que durou 50 horas resultou na morte do bebê. No ano seguinte, ao dar à luz ao seu segundo filho, os músculos do ombro esquerdo do bebê foram tão danificados durante o parto que a criança, que recebeu o nome de D. Pedro de Alcântara de Orleans e Bragança, perdeu os movimentos do braço esquerdo. D. Luís de Orleans e Bragança e D. Antônio Gastão de Orleans e Bragança, nascidos em 1878 e 1881 respectivamente, foram as duas últimas gestações da princesa Isabel e em ambas houve complicações.

                Segundo Júnior (2012), a princesa Isabel olhava o mundo a partir de uma ótica religiosa. Em certa ocasião, censurou D. Pedro II por este ter visitado uma sinagoga na Europa. Em outra situação, criticou uma visita que o pai fez a escritora George Sand, a quem considerava imoral. Sand foi uma precursora do feminismo, defensora de ideais socialistas, usava roupas masculinas e tinha muitos casos amorosos. Era uma figura bem diferente daquelas por quem Isabel demonstrava admiração e devoção, como por exemplo os monarcas canonizados pela Igreja Católica. São Luís de França e Santa Isabel, fosse a de Portugal ou a da Hungria, eram os seus exemplos de vida. Em Caxambu, no estado de Minas Gerais, a princesa iniciou uma edificação de uma igreja consagrada a Santa Isabel de Hungria. Em sua primeira viagem à Europa, beijou as mãos da Santa Isabel de Portugal, cujo corpo estava em ótimo estado de conservação. E, conforme a antiga tradição católica, além de comemorar seu aniversário de nascimento, a princesa também celebrava e recebia presentes nos dias dedicados às duas santas que levavam seu nome e de quem descendia.

                Júnior (2012) afirma que na visão de D. Isabel o Brasil fazia parte da cristandade, cuja autoridade máxima era o Papa, a quem os governantes deveriam respeitar e obedecer. Desta forma, o exercício da política deveria estar associado à obediência a este líder máximo do catolicismo. Este mesmo preceito determinava as práticas religiosas da princesa e também as suas atitudes como regente do Império do Brasil e herdeira do trono. Foram três as ocasiões em que a princesa Isabel regeu o império. A primeira ocasião foi durante os anos de 1871 a 1872, a segunda regência ocorreu entre os anos de 1876 a 1877 e a terceira e última regência foi entre os anos de 1887 a 1888. Foi nesta última regência que a princesa entrou para a história do país ao assinar a Lei Áurea em 1888, findando o regime escravocrata no país. A causa da abolição recebeu uma atenção especial de D. Isabel porque a escravidão neste período era vista como uma prática contrária às doutrinas da Igreja Católica.

                A escravidão dos negros oriundos da África foi instaurada no Brasil quando este ainda era uma colônia de Portugal, durante o século XVI. Foi também durante o período colonial brasileiro que se ouviram em terras brasileiras discursos pontuais que criticavam o regime escravista então em vigor no país. José Bonifácio, considerado o patriarca da Independência do Brasil, classificou a escravidão como “o cancro que roía as entranhas da sociedade brasileira” (CARVALHO, 2007: p. 130). Ainda discorrendo sobre José Bonifácio, este foi um dos poucos homens públicos, até a década de 1850, que teve a coragem de fazer críticas diretas e contundentes ao regime escravocrata. Em sua representação à Assembleia Geral Constituinte (escrita em 1823, mas publicada em Paris dois anos depois por conta da dissolução da Assembleia) argumenta que a escravidão era incompatível com o cristianismo, embora de praticada pelo clero católico. Para José Bonifácio, a escravidão também era incompatível com a justiça, o direito natural, a defesa nacional e com a construção de uma nação. O patriarca da independência salientou em especial a incompatibilidade entre escravidão e a formação de um exército poderoso.

                Ao longo do século XIX, vozes favoráveis e contrárias à escravidão serão ouvidas com uma frequência cada vez maior na medida em que este mesmo século avança, findando somente com o fim deste mesmo regime, em 1888. Neste contexto, a Inglaterra, que mantinha relações comerciais com Portugal e posteriormente com o Brasil quando este se tornar independente, fez grande pressão que resultou na criação de leis cuja finalidade era coibir o tráfico de escravizados. Neste contexto, as leis mais conhecidas são as leis Eusébio de Queirós (1850), do Ventre Livre (1871) e Lei dos Sexagenários (1885). Inicialmente discutida no Parlamento, as discussões em torno da escravidão ocorrerão para além da “política institucional”. Neste contexto, destacam-se os romances, poesias e peças de teatro cujo escravismo era uma das temáticas ou a temática central de seus respectivos enredos. Estes eram um dos principais meios que a população do período, em especial os membros da boa sociedade, se utilizavam para fins de entretenimento. Algumas destas obras são: O juiz de paz na roça (1838), A família e a festa na roça (1840) e Os dois ou o inglês maquinista (1845), de Martins Penna; A escrava (1846) e Meditação (obra descoberta postumamente), de Gonçalves Dias; O demônio familiar (1857) e Mãe (1860), de José de Alencar; Úrsula (1859) e A escrava (1887), de Maria Firmina dos Reis; História de uma moça rica (1861), de Pinheiro Guimarães; A luneta mágica (1868), de Joaquim Manoel de Macedo; O navio negreiro (1870), de Castro Alves; Os homens de sangue ou os Sofrimentos da escravidão (1873), de Vicente Félix de Castro; A escrava Isaura (1875), de Bernardo Guimarães; O mulato (1881), de Aluísio de Azevedo; O escravocrata (1884), de Artur Azevedo e Escravocratas (publicado décadas após a morte do autor), de Cruz e Souza.

                Além da vasta produção literária acima descrita, jornais deste mesmo período passarão a se dedicar parcial ou totalmente à causa da abolição (alguns nasceram justamente com esta finalidade). Este fenômeno se tornou mais intenso entre meados da década de 1870 e praticamente durante toda a década de 1880. Alguns destes jornais são: Ça Ira, Emancipadora Acadêmica, o Correio Paulistano, A província de São Paulo, Jornal do Comércio, A Onda, A Abolição, Oitenta e Nove, A Redenção, A Vida Semanária, Vila da Redenção, A Liberdade, O Alliot, O Abolicionista, a Gazeta da Tarde, A Terra da Redenção, O Amigo do Escravo, Confederação Abolicionista, O Governo e a Escravidão, a Revista Ilustrada, A Luta e O Federalista. Grande parte dos jornais e romances deste período denunciavam o regime escravista em vigor no país, conforme pode ser observado no parágrafo acima e neste mesmo parágrafo também. A questão não se limita somente às “discussões teóricas”: resulta também em ações práticas. Neste período surgiram também os grêmios, clubes e associações cuja finalidade era a libertação dos cativos. A Sociedade Redentora de Crianças Escravas, a Sociedade Emancipadora Fraternidade, o Centro Abolicionista, o Centro Abolicionista de São Paulo, a Sociedade de Libertação, a Sociedade Emancipadora do Elemento Servil, a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão, o Clube dos Libertos de Niterói, a Libertadora da Escola Militar, a Libertadora da Escola de Medicina, a Caixa Libertadora José do Patrocínio, o Centro Abolicionista Ferreira de Menezes, o Clube Abolicionista dos Empregados do Comércio e a Confederação Abolicionista são alguns exemplos. É importante destacar que, apesar das ações que visavam eliminar o regime escravista, os motins, as rebeliões e as fugas orquestrados pelos cativos continuaram acontecendo; e os quilombos não deixaram de existir. Além disso, as torturas e agressões físicas continuaram a ser executadas por aqueles que possuíam cativos.

    A princesa Isabel, o conde d’Eu e o escritor Machado de Assis durante a Missa Campal da Abolição da Escravatura, no dia 17 de maio de 1888. Imagem: Antonio Luiz Ferreira/IMS.

                A forte atuação dos movimentos abolicionistas e as altas vozes contrárias a escravidão tiveram os seus primeiros efeitos: no Ceará e no Amazonas a abolição da escravidão ocorreu em 1884, quatro anos antes de a princesa Isabel assinar a Lei Áurea. Além disso, segundo Júnior (2012), a monarca abraçou com fervor religioso a causa da abolição. A princesa acolheu e alimentou escravos fugitivos em seu palácio e fomentou campanhas de arrecadação para a compra de alforrias. O “engajamento” da princesa na causa em questão se tornou ainda maior quando, em 1887, o episcopado brasileiro, alinhado com as orientações papais, promoveu uma forte luta em favor dos escravizados. Por meio de cartas pastorais, os bispos convocaram os católicos do Brasil a promover a libertação dos escravos em honra ao jubileu sacerdotal do Papa. Como uma católica fervorosa e fiel às orientações das autoridades eclesiásticas, D. Isabel atendeu às suas súplicas. Após uma disputa que resultou na demissão do Gabinete Cotegipe, a Lei Áurea foi assinada no dia 13 de maio de 1888. Dias depois, ainda como princesa regente, D. Isabel ajudou a organizar uma grande missa campal em agradecimento pelo fim de um regime que vigorou no Brasil por mais de três séculos.

    Conclusão

                O título de “Redentora”, que alguns ainda insistem em atribuir à princesa Isabel, sugere que a monarca, por compaixão dos escravizados, decidiu libertar de uma só vez todos os cativos até então existentes no Brasil, ignorando o fato de que a engrenagem da escravidão existia no Brasil há muitos séculos e a sua derrubada poderia trazer grandes impactos econômicos. Entretanto, esta visão não sobrevive a uma minuciosa análise histórica. Quando a Lei Áurea foi assinada, em 1888, muitos setores da sociedade discutiam o fim do regime em questão. Na verdade, este era um assunto que foi se tornando cada vez mais constante ao longo do século XIX. Em várias regiões do país, especialmente na cidade do Rio de Janeiro, então capital do Império do Brasil, romances, poesias, peças teatrais e jornais se dedicavam parcial ou totalmente à causa da abolição; e isso sem contar com os clubes abolicionistas, que eram muitos também. Além disso, quatro anos antes de D. Isabel ter abolido a escravidão, o Ceará e o Amazonas já haviam feito isso em suas respectivas regiões. Desta forma, não é difícil constatar que nos anos finais da escravidão no Brasil era evidente que o regime ia findar. A questão era como e quando isso iria acontecer, uma vez que o fim da mesma não era surpresa para ninguém. O fim da abolição resultou no golpe militar republicano de 1889, dando fim ao período imperial brasileiro, uma vez que os cafeicultores (o café era o principal produto de exportação neste momento), ainda dependentes do trabalho cativo, eram praticamente os últimos defensores da monarquia; mas é um assunto para os próximos textos.

    Referências:

    – BARMAN, Roderick J. Redentora e prisioneira. Revista de História da Biblioteca Nacional, ano 7, nº 80, p. 18-21, maio 2012;

    – CARVALHO, José Murilo de. D. Pedro II. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 276p.;

    – COSTA, Emília Viotti da. Da Senzala à Colônia. 5ª ed. São Paulo: Editora UNESP, 2010. 552p.;

    – JÚNIOR, Robert Daibert. Entre o trono e o altar. Revista de História da Biblioteca Nacional, ano 7, nº 80, p. 22-25, maio 2012.

    Como citar este artigo:

    – ALVES, Marllon. O problemático título de “Redentora” atribuído à princesa Isabel. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2022/05/20/o-problematico-titulo-de-redentora-atribuido-a-princesa-isabel/ publicado no dia 20 de maio de 2022.

  • O relacionamento secreto de Chiquinha Gonzaga

    Chiquinha Gonzaga e João Batista Fernandes Lage. Ambos permaneceram juntos até a morte da maestrina, em 1935. Imagem: Reprodução.

    Por Marllon Alves

                Chiquinha Gonzaga (1847-1935) foi uma respeitada musicista brasileira, entrando para a história por conta do seu pioneirismo em vários aspectos, que por sua vez contribuíram para o avanço de pautas relacionadas aos direitos das mulheres. Chiquinha Gonzaga também foi ousada em sua vida pessoal, quando resolveu se relacionar com um homem muito mais novo em uma sociedade onde o comum era acontecer exatamente o oposto.

                Chiquinha Gonzaga nasceu no Rio de Janeiro em 1847, quando o Brasil era uma monarquia. O pai era um militar de respeito e a mãe uma mulher negra descendente de negros escravizados. Por conta deste fato, a família paterna demorou a aceitar Chiquinha Gonzaga, que até então era uma criança, por conta da origem da mãe. A futura musicista cresceu em um ambiente refinado, tendo aulas de escrita, leitura, catolicismo, matemática, “prendas tradicionais femininas” e música. Vale destacar que a família de Chiquinha Gonzaga tinha pretensões aristocráticas, uma das muitas evidências disso é o fato de o padrinho da mesma ser o militar e político monarquista brasileiro Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias (1803-1880).

                A primeira de muitas composições de Chiquinha Gonzaga foi concebida quando a mesma tinha apenas 11 anos de idade. Neste período, apenas os familiares tinham o privilégio de ver Chiquinha se apresentando. Casou-se pela primeira vez aos 16 anos de idade, mas decidiu findar seu casamento porque o marido não gostava do fato de a esposa dedicar-se à música. Apesar da reputação abalada, consegue compor uma primeira música de sucesso, intitulada Atraente. O sucesso foi imediato. Ao longo de sua vida, Chiquinha Gonzaga compôs mais de 2 mil músicas em gêneros variados, como por exemplo a valsa, a polca, o tango, o choro e a serenata. Muitas das composições de Chiquinha Gonzaga levam nomes indígenas. É o caso de Tupã, Tupi, Aguará, Caobimpará, Ary, Aracê, Timbira, Tamoio e Tupiniquins. Sem dúvidas, a canção mais conhecida da musicista em questão é Ó abre alas (1899), considerada hoje a primeira canção carnavalesca brasileira e um hino do carnaval. Com o respeito conquistado, a imprensa nacional não sabia como se referir a Chiquinha Gonzaga, uma vez que até então não existia o feminino para a palavra maestro. Por conta deste fato, inventou-se o termo “maestrina”. 

    Registro do casamento de Nair de Teffé com o então Presidente da República Hermes da Fonseca. A primeira-dama causou polêmica ao colocar no repertório de uma festa na residência oficial uma música de Chiquinha Gonzaga. Imagem: Reprodução.

                O sucesso desta mesma maestrina chegou até o Palácio do Catete, até então residência oficial do Presidente da República e atualmente conhecido como o Museu da República (foi neste local que o então presidente Getúlio Vargas se suicidou, em 1954). Era 1914 e Hermes da Fonseca (1855-1923) estava no fim de seu mandato presidencial. A então primeira-dama Nair de Teffé (1886-1981), uma das primeiras mulheres a adentrar no universo da caricatura no Brasil, queria fazer uma festa de despedida de fim de mandato do então marido e presidente. Cansada das cerimônias oficiais que não exaltavam a cultura brasileira, Nair de Teffé convocou o compositor Catulo da Paixão Cearense para acompanhá-la com seu violão na apresentação da música que considerava a mais brasileira de todas: o maxixe Corta-Jaca, de Chiquinha Gonzaga. Era a união de duas coisas explosivas para uma recepção diplomática: o violão, até então visto como um instrumento da malandragem; e o maxixe, ritmo popular considerado sensual. Foi um escândalo nacional.

                Conforme dito na introdução deste texto, Chiquinha Gonzaga foi também uma transgressora em sua vida pessoal em uma época onde as noções de vida pública e vida privada começavam a serem definidas; e onde problemas na vida pessoal significavam também problemas na esfera pública da vida de uma pessoa. Chiquinha Gonzaga contraiu matrimônio pela primeira vez quando tinha 16 anos de idade. O casamento foi arranjado pelo pai e o cônjuge era um membro da boa sociedade. Jacinto Ribeiro do Amaral era quase 10 anos mais velho que a maestrina e não gostava do fato de a esposa tocar piano. Ao fim de dois anos de casamento e mãe de três filhos, a musicista opta pela separação, algo incomum para a época, principalmente para uma mulher. Aos 18 anos e com vontade de viver da música, Chiquinha Gonzaga teve que lidar com a fúria da conservadora sociedade carioca. Pelo fato de ter abandonado o primeiro marido e por estar apaixonada pelo engenheiro João Batista de Carvalho, foi levada ao Tribunal Eclesiástico em um processo por abandono de lar e adultério. Ficou somente com a guarda de João Gualberto, o filho mais velho, uma vez que o agora ex-marido a proibiu de ficar com a guarda dos filhos Maria do Patrocínio e Hilário.

                O segundo casamento também trouxe muito sofrimento para Chiquinha Gonzaga. João Batista de Carvalho, o segundo esposo da musicista, a traía com frequência. Apesar de ter uma filha com ele, chamada Alice, a artista escolhe se separar mais uma vez. Novamente, foi proibida de ter a guarda da criança. Desta forma, apenas o primogênito continuou morando com a mãe. Chiquinha Gonzaga encontra o amor em seu terceiro casamento, mas para evitar novas condenações sociais, escolhe dizer para a sociedade que o novo marido é um filho adotivo. Isso porque a musicista era 36 mais velha que seu novo cônjuge, o português João Batista Fernandes Lage.

                Aos 52 anos de vida, Chiquinha Gonzaga era uma maestrina consagrada, apesar dos estigmas e reprovações sociais. Foi com esta mesma idade que conheceu João Batista Fernandes Lage, que por sua vez tinha apenas 16 anos de vida. João Batista nasceu em Portugal, mas vivia no Rio de Janeiro desde pequeno com um irmão mais velho. Músico amador, frequentava o Clube Euterpe, do qual Chiquinha Gonzaga era sócia honorária. Entre muitas atividades culturais, o Clube “agrupava rapazes interessados em música, organizava concertos e soirées literomusicais” (DINIZ apud CESAR, 2015: p. 355). Os dois encontram-se em 1899 e não demora muito para um flerte contido resultar em uma paixão mútua. Em 1901, após voltar de uma viagem a Portugal, Chiquinha Gonzaga declara-se publicamente mãe de João Batista, tendo supostamente adotado o mesmo.  

                É importante dizer que Chiquinha Gonzaga não adotou de fato João Batista Fernandes Lage. A adoção enquanto procedimento jurídico foi instituída no Código Civil brasileiro em 1917, 18 anos depois do inicio do relacionamento em questão. Entretanto, este fato não impediu a prática de adotar informalmente crianças as quais não teriam gerado. E isso não significa também que a partir de 1917 todas as adoções passaram pelas autoridades oficiais. A “adoção à brasileira” (FONSECA apud CESAR, 2015: p. 352) foi uma medida amplamente usada onde era preciso apenas duas testemunhas para atestar diante de um tabelião a legitimidade biológica existente entre um adulto e uma criança.

                Chiquinha Gonzaga “adotou” seu último “esposo” por temer reprovações sociais, além de temer também possíveis ridicularizações. Isso porque ter 52 anos de vida no século XIX não é a mesma coisa que ter 52 anos no século XXI. A grosso modo, ter mais de 50 anos naquele período era como ter 80 anos hoje, dependendo da qualidade de vida da pessoa. A melhoria da qualidade de vida e o avanço da medicina fazem com que a vida seja prolongada. Além disso, temas como vida social e vida sexual entre pessoas idosas têm sido cada vez mais discutidos nos últimos anos, algo que não acontecia no século XIX.

                A opção de Chiquinha Gonzaga em se relacionar com homens mais novos era incomum para as mulheres, mas era bastante comum homens mais velhos se relacionarem com mulheres mais novas. O primeiro marido da maestrina era quase 10 anos mais velho do que ela. Hermes da Fonseca, por exemplo, era 31 anos mais velho que a esposa Nair de Teffé. Em alguns casos, houve casamentos no passado em que as moças eram tão jovens que era necessário esperar um tempo para que o casal pudesse ter relações sexuais. A união de homens mais velhos com mulheres mais novas é aceitável porque o mesmo é fértil por toda sua vida, ao contrário da mulher, que a partir de certa idade não consegue mais gerar uma criança. Este fator fazia toda a diferença quando um homem e uma mulher se casavam, uma vez que o matrimônio tinha por função máxima gerar descendentes. Companheirismo, compartilhamento de projetos em comum, amor e assim como demais temas tão discutidos hoje e que muitos acreditam que devem estar presentes em um casamento, são discussões muito recentes, não estando presentes em outras épocas.

                Chiquinha Gonzaga não deve ser vista como uma “pedófila”. Isso porque a infância, a adolescência, a vida adulta e a velhice enquanto fases da vida são concepções recentes da sociedade. Por muito tempo, acreditava-se que a criança era um adulto em “miniatura”. Este fato ajuda a entender o motivo de alguns clássicos infantis que foram adaptados pela Disney serem extremamente “pesados” em suas versões originais.

    Conclusão

                Chiquinha Gonzaga optou por manter em segredo seu relacionamento com um homem muito mais novo por temer repressões sociais. Pelo fato de a relação ser “estável”, foi decidido que Chiquinha Gonzaga e João Batista seriam apresentados a sociedade como mãe e filho. Foi a solução encontrada para que pudessem viver juntos em uma sociedade que reprovava a união de mulheres mais velhas com homens mais novos.

    Referências:

    https://www.ebiografia.com/abre_alas_curiosidades_vida_polemica_chiquinha_gonzaga/ visualizado no dia 12/05/2022

    CESAR, Rafael do Nascimento. O amante adotado: Chiquinha e Joãozinho, composição além da música. Cadernos Pagu (UNICAMP), p. 341-365, 2015.

    DEL PRIORE, Mary. Histórias e conversas de mulher. 2ª ed. São Paulo, 2014. 303p.;

    RODRIGUES, Antonio Edmilson Martins. Ironias da vida. Revista de História da Biblioteca Nacional, ano 6, nº 65, p. 62-65, fevereiro 2011.

    Como citar este artigo:

    – ALVES, Marllon. O relacionamento secreto de Chiquinha Gonzaga. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2022/05/12/o-relacionamento-secreto-de-chiquinha-gonzaga/ Publicado no dia 13 de maio de 2022.

  • Ascensão e queda de Graça Foster

    Graça Foster foi a primeira mulher a chegar a presidência da Petrobras. Imagem: Reprodução.

               

    Por Marllon Alves

    A vida profissional de Graça Foster pode ser considerada exemplar, sendo reconhecida dentro e fora do Brasil. Foram muitos anos se preparando até chegar à presidência da Petrobras, o auge de sua carreira. Entretanto, foi neste momento que um grande esquema de corrupção dentro da maior empresa do Brasil e uma das maiores do mundo vem à tona. Mesmo não tendo participado deste esquema e tendo sua inocência provada, a carreira de Graça Foster foi manchada, fazendo com que o período em que foi presidente da Petrobras fosse encurtado.

                A trajetória de vida de Graça Foster em muito se assemelha com as das protagonistas de novelas, onde estas enfrentam inúmeros percalços até serem sorte no jogo e principalmente no amor, o foco da maioria destas novelas. Nascida em 1953, na cidade de Caratinga, no estado Minas Gerais, mudou-se para o estado do Rio de Janeiro aos dois anos de idade, acompanhada da mãe e da irmã mais velha. Em uma infância marcada por violência familiar, cresceu no Morro do Adeus, uma favela da zona norte da cidade do Rio de Janeiro e que integra o Complexo do Alemão, catando papelão e latinhas para ajudar no comprometido orçamento familiar. Aos 12 anos de idade passou a morar com a família na Ilha do Governador, tomando gosto pelo carnaval e desfilando pela escola de samba União da Ilha. Com muito esforço, estudou Engenharia Química na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, cidade metropolitana do estado do Rio de Janeiro. Em 1978, com o diploma em mãos e tendo uma filha na época com dois anos de vida, conseguiu uma vaga como estagiária na Petrobras. Era o início de uma linda trajetória.

                O primeiro emprego com carteira assinada foi na Nuclebrás, estatal extinta. Em 1981, Graça Foster passou em um concurso da Petrobras. Fez mestrado em engenharia de fluídos, pós-graduação em energia nuclear e cursou MBA em economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Conheceu a futura Presidente da República Dilma Rousseff no ano de 1999. Dilma foi essencial na vida profissional de Graça Foster. Nesta época, Graça era uma das gerentes da Petrobras responsáveis pela implantação do gasoduto entre a Bolívia e o Brasil. Por sua vez, Dilma Rousseff chefiava a Secretaria de Minas e Energia do Rio Grande do Sul. Com personalidades semelhantes, Dilma e Graça criaram uma relação de cumplicidade. Em 2003, Dilma nomeou a amiga como secretária de Petróleo e Gás da pasta de Minas e Energia. Em 2007, após presidir a Petroquisa (braço da Petrobras na área de petroquímica) e a BR Distribuidora, tornou-se a primeira mulher a assumir uma diretoria da empresa, a de Gás e Energia. Três anos mais tarde, foi eleita a executiva mais poderosa da América Latina.

                Graça Foster engajou-se na campanha presidencial de Dilma Rousseff, em 2010. Dois anos depois e já eleita Presidente da República, Dilma nomeou Graça Foster como presidente da Petrobras no lugar de José Sérgio Gabrielli. A nomeação foi histórica, pois Graça era a primeira mulher na história a presidir a Petrobras, sendo também a primeira mulher no mundo a estar a frente de uma petroleira. A então presidente do Brasil a chamava de “graciosa”, mas nos corredores da empresa em questão Graça recebia apelidos como “Maria Caveirão” e “Dama de Ferro do petróleo” por conta de seu modo austero de presidir a Petrobras, espaço majoritariamente masculino, assim como a maioria das petroleiras. Apesar de sua incontestável competência, colecionou inimizades por não saber (ou não se sujeitar) jogar o jogo do xadrez eleitoral. Quando presidia a Petrobras, Graça Foster foi eleita pela revista Fortune como a executiva mais poderosa fora dos Estados Unidos e a quarta mais poderosa do mundo. Já a Forbes a classificou como 18ª mulher mais influente do planeta.

    Graça Foster com Dilma Rousseff: a relação entre ambas é de longa data. Imagem: Diego Nigro/JC Imagem.

                “Venho aqui, na qualidade de primeira presidenta eleita no Brasil, para assistir a posse da primeira mulher presidenta de uma petroleira no mundo”, foi o que disse Dilma Rousseff em fevereiro de 2012 ao nomear Graça Foster como presidente da Petrobras. Foi um dia de muita alegria, mas naquele momento analistas do mercado de energia alertavam que José Sérgio Gabrielli, antecessor de Graça, havia deixado um “campo minado” para sua sucessora. Em seu rápido discurso, Graça prometeu “disciplina de capital”. Não se sabe ao certo o que a então recém-nomeada presidente da Petrobras quis dizer, mas o fato é que o Petrolão abreviou seu mandato de apenas três anos (José Sérgio Gabrielli, por exemplo, foi presidente da Petrobras por sete anos), onde a maior empresa pública da América Latina bateu recordes de produção, mas perdeu quase a metade de seu valor de mercado. A Petrobras enfrentou investigações judiciais em vários países e chegou a ser considerada a petroleira mais endividada e menos rentável do mundo.

                As medidas de Graça para aplacar o golpe do Petrolão (contratação de dois escritórios para investigações internas independentes, criação de uma Diretoria de Governança e a proibição de novos contratos com as 23 empresas citadas até então) se mostraram ineficazes diante de um caso que crescia a cada dia. Apesar da acusação contundente de uma ex-funcionária, Foster assegura que nunca soube dos crimes praticados por diretores da Petrobras, grandes empreiteiras e uma grande quantidade de políticos do governo e da oposição, até que o escândalo veio a público. Em novembro de 2014, quando 24 pessoas foram presas, Foster prometeu apurar as responsabilidades a fundo e enviou três mensagens centrais: “melhorar a produção e a transparência da Petrobras”, recuperar “o respeito” e “elevar o moral” de 85.000 trabalhadores acostumados a trabalharem no “orgulho do Brasil”. Uma onda de corrupção que parecia não ter fim e a crescente queda no preço do petróleo frustraram seus desejos.

                Apesar de não ser a solução para o problema, Graça Foster e cinco diretores renunciaram a seus cargos na Petrobras. Durante e após a sua saída da petroleira, Graça prestou depoimento em diversas situações, sempre reforçando a sua inocência e desconhecimento para com o esquema de corrupção revelado. Além disso, aquela que chegou a ser eleita uma das mulheres mais poderosa do mundo em mais de uma ocasião passou a adotar um estilo de vida mais recluso, chegando a se matricular no curso de Direito e sendo flagrada no metrô, assim como qualquer pessoa.

    Conclusão

                Graça Foster fez uma trajetória profissional de respeito e que sem dúvidas abriu caminho para outras mulheres. Entretanto, o escândalo de corrupção revelado na Petrobras durante seu mandato constitui uma mancha nesta mesma trajetória. Apesar de alegar inocência, colaborar com a justiça em mais de uma ocasião e o esquema de corrupção revelado existir antes de Graça chegar na presidência da Petrobras, a executiva é estigmatizada por este episódio, como se tivesse participado de tal esquema; quando na verdade a justiça mostrou exatamente o contrário.

    Referências:

    https://www.sindmetalsjc.org.br/noticias/n/2174/petrobras-anuncia-renuncia-de-graca-foster-e-cinco-diretores visualizado no dia 29/04/2022.

    https://brasil.elpais.com/brasil/2015/02/03/politica/1422994874_157198.html visualizado no dia 29/04/2022

    https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2015/02/05/interna_politica,614989/de-menina-pobre-a-executiva-internacional.shtml visualizado no dia 29/04/2022

    Como citar este artigo:

    – ALVES, Marllon. Ascensão e queda de Graça Foster. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2022/04/29/ascensao-e-queda-de-graca-foster/ publicado no dia 29 de abril de 2022.

  • O embate público entre Xuxa Meneghel e José Serra

    Registro de Xuxa no início de sua gestação. O Brasil acompanhou de perto a gestação da eterna rainha dos baixinhos. Imagem: Reprodução.

               

    Por Marllon Alves

    Era dezembro de 1997. Ao lado do então namorado Luciano Szafir, Xuxa anuncia para todo o Brasil que está grávida. A partir deste momento, o Brasil passou a acompanhar de perto a gestação da eterna Rainha dos Baixinhos. Entretanto, não foi todo mundo que aprovou o fato. Porém, Xuxa respondeu a altura e a gravidez da apresentadora foi celebrada com direito a uma reportagem de dez minutos no principal telejornal da principal emissora de televisão do Brasil.

                O dia 07 de dezembro de 1997 caiu em um domingo, mesmo dia em que houve um amistoso entre as seleções de futebol do Brasil e da África do Sul. Durante a transmissão deste mesmo jogo, a TV Globo anunciava a todo instante que apresentaria uma grande novidade envolvendo Xuxa. O jogo em questão terminou em 2 a 1 para o Brasil e em seguida entrou no ar na grade dominical o Domingão do Faustão, apresentado por Fausto Silva, atualmente na Band. Xuxa Meneghel surge no palco do Domingão trajando roupas brancas que deixavam sua barriga a mostra e ao lado do então namorado Luciano Szafir. A novidade que a TV Globo anunciava horas antes relacionada a Xuxa foi revelada: a Rainha dos Baixinhos estava grávida. “A partir de ontem, quando recebi a notícia, não sou mais uma pessoa sozinha. Aconteça o que acontecer com a gente, eu vou ter sempre uma pessoa que vai ser minha. Eu tô grávida”, disse Xuxa, cuja fala foi seguida de comemorações efusivas por parte da plateia. A partir deste momento, o Brasil acompanhou a gravidez de Xuxa, que por sua vez não fazia questão alguma de tratar a questão com discrição. Nos programas Xuxa Park e Planeta Xuxa, a apresentadora fazia questão de usar figurinos que destacavam a barriga que crescia a olhos vistos.

    Xuxa e Luciano Szafir ao lado de Fausto Silva, no Domingão do Faustão, em 1997. Imagem: Reprodução.

                Ficou para a posteridade na memória coletiva o anúncio da gravidez de Xuxa pela própria no então programa de Fausto Silva. O que talvez muita gente não saiba é que Gugu Liberato (1959-2019), por meio de um furo de reportagem, anunciou a gravidez de Xuxa horas antes de Faustão fazer o mesmo. “Furando todos os veículos de comunicação: Xuxa vai ser mamãe”, disse Gugu no Domingo Legal. Quando o apresentador fazia o anúncio em questão, o SBT ficou com 19 pontos no ibope, contra 16 da TV Globo. Por conta deste furo jornalístico, a GloboNews teve de se adiantar ao Domingão do Faustão e fazer uma entrevista com Xuxa, que estava em êxtase com sua gravidez.

                Outro fato que muita gente acredita ser verdade é que Luciano Szafir e Xuxa se conheceram no ano de 1996. Na verdade, eles haviam se conhecido e se relacionado pela primeira vez dez anos antes. Nesta ocasião, Szafir tinha 18 anos e Xuxa 23. Eles se conheceram durante um ensaio que era para ser com a Luma de Oliveira, mas como esta não pôde ir, Xuxa a substituiu. Ambos se deram muito bem e iniciaram um romance. Entretanto, ambos tinham vivências muito diferentes. Se Szafir nesta época morava com os pais, Xuxa nesta época já tinha uma trajetória de vida e independência financeira que o Szafir não tinha. Desta forma, a relação acabou não indo adiante. Dez anos depois, eles se reencontraram e tiveram a Sasha, única filha desta união. Xuxa e Luciano Szafir tiveram uma relação de idas e vindas entre os anos de 1998 e 2009.

                A gravidez de Xuxa foi celebrada por muita gente, mas não por todos. José Serra, então ministro da saúde na época, condenou a gravidez de Xuxa pelo fato desta não estar casada oficialmente, servindo de mau exemplo para crianças e adolescentes, público alvo de Xuxa até então. “a produção independente, por exemplo, ela estimula muitas crianças, meninas pequenas de 12, 13 anos a terem filhos. Eu fico imaginando essa experiência de produção independente da Xuxa com a Sasha quantas mães adolescentes, precoces, prematuras, quantas mães terá estimulado no Brasil”, disse o então ministro na época. A fala em questão de José Serra remete ao estigma que durante muitos séculos perseguiu (e ainda persegue) mães solteiras em todo o país. Estas mulheres eram vistas como incapazes de criarem seus filhos, classificadas como prostitutas e sendo classificadas também com incontáveis adjetivos cuja única função é atacar a honra destas mesmas mulheres. Houve uma época no Brasil em que mães solteiras tinham dificuldade de arrumar emprego e encontrar um novo par (na verdade, atualmente a situação não mudou muito. Há diversos textos na internet onde as mulheres foram rejeitadas por possíveis parceiros quando contaram que eram mães. Além disso, não são poucos os relatos por aqui de empresas que demitiram as mulheres quando estas voltaram da licença maternidade e/ou quando foram questionadas se tinham e/ou queriam ter filhos em uma entrevista de emprego).

    Xuxa não deixou o fato passar despercebido e logo tratou de responder a fala de José Serra. “Alô, ministro (…) eu acho que a declaração, ministro José Serra, é injusta e demagógica. Mau exemplo é o que eu vejo todo dia no noticiário (…) plano de saúde que não respeita o cidadão, hospitais sem médicos. Olha, eu não me casei, viu? Mas eu tenho condições de criar e educar minha filha, o que não acontece com a maioria do nosso povo, sabe por quê? Porque eles são vítimas de políticos que preferem dar entrevistas de impacto, invés de tomar decisões que melhoram a vida das pessoas (…) Tchau hein, ministro”. Para Xuxa, a fala de José Serra era uma “cortina de fumaça” cuja finalidade era encobrir questões de fato relevantes para a população. Aliás, hospitais sem médicos e/ou com falta de estruturas para seu devido funcionamento ainda são uma realidade em muitas cidades brasileiras.

    Sasha, então recém-nascida, no colo de Xuxa. Imagem: Xicão Jones/Divulgação.

                Talvez nunca na história o Jornal Nacional dedicou tanto tempo de sua grade para noticiar o nascimento de um bebê. Em 1998, ano do nascimento de Sasha Meneghel, o nome de Xuxa era mais do que consolidado. A apresentadora era líder de audiência em seu programa matinal semanal (o Xuxa Park) e estava se consolidando nas tardes de domingo com o Planeta Xuxa. Além disso, Xuxa era recordista em vendas de álbuns musicais e seus filmes eram sucesso de bilheteria. A apresentadora emprestava sua imagem para diversas campanhas publicitárias, era capa de inúmeras revistas e tinha brinquedos e peças de roupas com seu nome. Xuxa era o maior nome da TV Globo (que por sua vez ainda é a principal emissora de televisão do Brasil e uma das maiores do mundo) na ocasião e a maior artista brasileira até então.

    Conclusão

                A resposta de Xuxa a José Serra revela que a mesma estava atenta ao que acontecia na sociedade ao seu redor. Neste período, Xuxa não costumava falar de política, o que não significa que ela era uma pessoa alienada com relação a esta questão. Nos últimos tempos se tem visto uma Xuxa que tem se posicionado mais. Ela defende pautas relacionadas ao Meio Ambiente, a população LGBTQIA+ e faz constantes críticas a Jair Bolsonaro, atual presidente do Brasil.

    Referências:

    https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/televisao/em-1997-gugu-furou-faustao-e-anunciou-gravidez-de-xuxa-com-exclusividade-22360 visualizado no dia 13/04/22.

    https://revistaquem.globo.com/Entrevista/noticia/2020/11/luciano-szafir-relembra-primeiro-namoro-com-xuxa-nao-tinha-nada-ver.html#:~:text=Luciano%20lembra%20que%20conheceu%20Xuxa,porquem%20tinha%20um%20forte%20crush. visualizado no dia 13/04/2022.

    Visualizado no dia visualizado no dia 13/04/2022.

    Visualizado no dia 13/04/2022.

    Como citar este artigo:

    – ALVES, Marllon. O embate público entre Xuxa Meneghel e José Serra. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2022/04/14/o-embate-publico-entre-xuxa-meneghel-e-jose-serra/ publicado no dia 14 de abril de 2022.