
Por Marllon Alves
A vida profissional de Graça Foster pode ser considerada exemplar, sendo reconhecida dentro e fora do Brasil. Foram muitos anos se preparando até chegar à presidência da Petrobras, o auge de sua carreira. Entretanto, foi neste momento que um grande esquema de corrupção dentro da maior empresa do Brasil e uma das maiores do mundo vem à tona. Mesmo não tendo participado deste esquema e tendo sua inocência provada, a carreira de Graça Foster foi manchada, fazendo com que o período em que foi presidente da Petrobras fosse encurtado.
A trajetória de vida de Graça Foster em muito se assemelha com as das protagonistas de novelas, onde estas enfrentam inúmeros percalços até serem sorte no jogo e principalmente no amor, o foco da maioria destas novelas. Nascida em 1953, na cidade de Caratinga, no estado Minas Gerais, mudou-se para o estado do Rio de Janeiro aos dois anos de idade, acompanhada da mãe e da irmã mais velha. Em uma infância marcada por violência familiar, cresceu no Morro do Adeus, uma favela da zona norte da cidade do Rio de Janeiro e que integra o Complexo do Alemão, catando papelão e latinhas para ajudar no comprometido orçamento familiar. Aos 12 anos de idade passou a morar com a família na Ilha do Governador, tomando gosto pelo carnaval e desfilando pela escola de samba União da Ilha. Com muito esforço, estudou Engenharia Química na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, cidade metropolitana do estado do Rio de Janeiro. Em 1978, com o diploma em mãos e tendo uma filha na época com dois anos de vida, conseguiu uma vaga como estagiária na Petrobras. Era o início de uma linda trajetória.
O primeiro emprego com carteira assinada foi na Nuclebrás, estatal extinta. Em 1981, Graça Foster passou em um concurso da Petrobras. Fez mestrado em engenharia de fluídos, pós-graduação em energia nuclear e cursou MBA em economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Conheceu a futura Presidente da República Dilma Rousseff no ano de 1999. Dilma foi essencial na vida profissional de Graça Foster. Nesta época, Graça era uma das gerentes da Petrobras responsáveis pela implantação do gasoduto entre a Bolívia e o Brasil. Por sua vez, Dilma Rousseff chefiava a Secretaria de Minas e Energia do Rio Grande do Sul. Com personalidades semelhantes, Dilma e Graça criaram uma relação de cumplicidade. Em 2003, Dilma nomeou a amiga como secretária de Petróleo e Gás da pasta de Minas e Energia. Em 2007, após presidir a Petroquisa (braço da Petrobras na área de petroquímica) e a BR Distribuidora, tornou-se a primeira mulher a assumir uma diretoria da empresa, a de Gás e Energia. Três anos mais tarde, foi eleita a executiva mais poderosa da América Latina.
Graça Foster engajou-se na campanha presidencial de Dilma Rousseff, em 2010. Dois anos depois e já eleita Presidente da República, Dilma nomeou Graça Foster como presidente da Petrobras no lugar de José Sérgio Gabrielli. A nomeação foi histórica, pois Graça era a primeira mulher na história a presidir a Petrobras, sendo também a primeira mulher no mundo a estar a frente de uma petroleira. A então presidente do Brasil a chamava de “graciosa”, mas nos corredores da empresa em questão Graça recebia apelidos como “Maria Caveirão” e “Dama de Ferro do petróleo” por conta de seu modo austero de presidir a Petrobras, espaço majoritariamente masculino, assim como a maioria das petroleiras. Apesar de sua incontestável competência, colecionou inimizades por não saber (ou não se sujeitar) jogar o jogo do xadrez eleitoral. Quando presidia a Petrobras, Graça Foster foi eleita pela revista Fortune como a executiva mais poderosa fora dos Estados Unidos e a quarta mais poderosa do mundo. Já a Forbes a classificou como 18ª mulher mais influente do planeta.

“Venho aqui, na qualidade de primeira presidenta eleita no Brasil, para assistir a posse da primeira mulher presidenta de uma petroleira no mundo”, foi o que disse Dilma Rousseff em fevereiro de 2012 ao nomear Graça Foster como presidente da Petrobras. Foi um dia de muita alegria, mas naquele momento analistas do mercado de energia alertavam que José Sérgio Gabrielli, antecessor de Graça, havia deixado um “campo minado” para sua sucessora. Em seu rápido discurso, Graça prometeu “disciplina de capital”. Não se sabe ao certo o que a então recém-nomeada presidente da Petrobras quis dizer, mas o fato é que o Petrolão abreviou seu mandato de apenas três anos (José Sérgio Gabrielli, por exemplo, foi presidente da Petrobras por sete anos), onde a maior empresa pública da América Latina bateu recordes de produção, mas perdeu quase a metade de seu valor de mercado. A Petrobras enfrentou investigações judiciais em vários países e chegou a ser considerada a petroleira mais endividada e menos rentável do mundo.
As medidas de Graça para aplacar o golpe do Petrolão (contratação de dois escritórios para investigações internas independentes, criação de uma Diretoria de Governança e a proibição de novos contratos com as 23 empresas citadas até então) se mostraram ineficazes diante de um caso que crescia a cada dia. Apesar da acusação contundente de uma ex-funcionária, Foster assegura que nunca soube dos crimes praticados por diretores da Petrobras, grandes empreiteiras e uma grande quantidade de políticos do governo e da oposição, até que o escândalo veio a público. Em novembro de 2014, quando 24 pessoas foram presas, Foster prometeu apurar as responsabilidades a fundo e enviou três mensagens centrais: “melhorar a produção e a transparência da Petrobras”, recuperar “o respeito” e “elevar o moral” de 85.000 trabalhadores acostumados a trabalharem no “orgulho do Brasil”. Uma onda de corrupção que parecia não ter fim e a crescente queda no preço do petróleo frustraram seus desejos.
Apesar de não ser a solução para o problema, Graça Foster e cinco diretores renunciaram a seus cargos na Petrobras. Durante e após a sua saída da petroleira, Graça prestou depoimento em diversas situações, sempre reforçando a sua inocência e desconhecimento para com o esquema de corrupção revelado. Além disso, aquela que chegou a ser eleita uma das mulheres mais poderosa do mundo em mais de uma ocasião passou a adotar um estilo de vida mais recluso, chegando a se matricular no curso de Direito e sendo flagrada no metrô, assim como qualquer pessoa.
Conclusão
Graça Foster fez uma trajetória profissional de respeito e que sem dúvidas abriu caminho para outras mulheres. Entretanto, o escândalo de corrupção revelado na Petrobras durante seu mandato constitui uma mancha nesta mesma trajetória. Apesar de alegar inocência, colaborar com a justiça em mais de uma ocasião e o esquema de corrupção revelado existir antes de Graça chegar na presidência da Petrobras, a executiva é estigmatizada por este episódio, como se tivesse participado de tal esquema; quando na verdade a justiça mostrou exatamente o contrário.
Referências:
https://www.sindmetalsjc.org.br/noticias/n/2174/petrobras-anuncia-renuncia-de-graca-foster-e-cinco-diretores visualizado no dia 29/04/2022.
https://brasil.elpais.com/brasil/2015/02/03/politica/1422994874_157198.html visualizado no dia 29/04/2022
https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2015/02/05/interna_politica,614989/de-menina-pobre-a-executiva-internacional.shtml visualizado no dia 29/04/2022
Como citar este artigo:
– ALVES, Marllon. Ascensão e queda de Graça Foster. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2022/04/29/ascensao-e-queda-de-graca-foster/ publicado no dia 29 de abril de 2022.

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