O relacionamento secreto de Chiquinha Gonzaga

Chiquinha Gonzaga e João Batista Fernandes Lage. Ambos permaneceram juntos até a morte da maestrina, em 1935. Imagem: Reprodução.

Por Marllon Alves

            Chiquinha Gonzaga (1847-1935) foi uma respeitada musicista brasileira, entrando para a história por conta do seu pioneirismo em vários aspectos, que por sua vez contribuíram para o avanço de pautas relacionadas aos direitos das mulheres. Chiquinha Gonzaga também foi ousada em sua vida pessoal, quando resolveu se relacionar com um homem muito mais novo em uma sociedade onde o comum era acontecer exatamente o oposto.

            Chiquinha Gonzaga nasceu no Rio de Janeiro em 1847, quando o Brasil era uma monarquia. O pai era um militar de respeito e a mãe uma mulher negra descendente de negros escravizados. Por conta deste fato, a família paterna demorou a aceitar Chiquinha Gonzaga, que até então era uma criança, por conta da origem da mãe. A futura musicista cresceu em um ambiente refinado, tendo aulas de escrita, leitura, catolicismo, matemática, “prendas tradicionais femininas” e música. Vale destacar que a família de Chiquinha Gonzaga tinha pretensões aristocráticas, uma das muitas evidências disso é o fato de o padrinho da mesma ser o militar e político monarquista brasileiro Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias (1803-1880).

            A primeira de muitas composições de Chiquinha Gonzaga foi concebida quando a mesma tinha apenas 11 anos de idade. Neste período, apenas os familiares tinham o privilégio de ver Chiquinha se apresentando. Casou-se pela primeira vez aos 16 anos de idade, mas decidiu findar seu casamento porque o marido não gostava do fato de a esposa dedicar-se à música. Apesar da reputação abalada, consegue compor uma primeira música de sucesso, intitulada Atraente. O sucesso foi imediato. Ao longo de sua vida, Chiquinha Gonzaga compôs mais de 2 mil músicas em gêneros variados, como por exemplo a valsa, a polca, o tango, o choro e a serenata. Muitas das composições de Chiquinha Gonzaga levam nomes indígenas. É o caso de Tupã, Tupi, Aguará, Caobimpará, Ary, Aracê, Timbira, Tamoio e Tupiniquins. Sem dúvidas, a canção mais conhecida da musicista em questão é Ó abre alas (1899), considerada hoje a primeira canção carnavalesca brasileira e um hino do carnaval. Com o respeito conquistado, a imprensa nacional não sabia como se referir a Chiquinha Gonzaga, uma vez que até então não existia o feminino para a palavra maestro. Por conta deste fato, inventou-se o termo “maestrina”. 

Registro do casamento de Nair de Teffé com o então Presidente da República Hermes da Fonseca. A primeira-dama causou polêmica ao colocar no repertório de uma festa na residência oficial uma música de Chiquinha Gonzaga. Imagem: Reprodução.

            O sucesso desta mesma maestrina chegou até o Palácio do Catete, até então residência oficial do Presidente da República e atualmente conhecido como o Museu da República (foi neste local que o então presidente Getúlio Vargas se suicidou, em 1954). Era 1914 e Hermes da Fonseca (1855-1923) estava no fim de seu mandato presidencial. A então primeira-dama Nair de Teffé (1886-1981), uma das primeiras mulheres a adentrar no universo da caricatura no Brasil, queria fazer uma festa de despedida de fim de mandato do então marido e presidente. Cansada das cerimônias oficiais que não exaltavam a cultura brasileira, Nair de Teffé convocou o compositor Catulo da Paixão Cearense para acompanhá-la com seu violão na apresentação da música que considerava a mais brasileira de todas: o maxixe Corta-Jaca, de Chiquinha Gonzaga. Era a união de duas coisas explosivas para uma recepção diplomática: o violão, até então visto como um instrumento da malandragem; e o maxixe, ritmo popular considerado sensual. Foi um escândalo nacional.

            Conforme dito na introdução deste texto, Chiquinha Gonzaga foi também uma transgressora em sua vida pessoal em uma época onde as noções de vida pública e vida privada começavam a serem definidas; e onde problemas na vida pessoal significavam também problemas na esfera pública da vida de uma pessoa. Chiquinha Gonzaga contraiu matrimônio pela primeira vez quando tinha 16 anos de idade. O casamento foi arranjado pelo pai e o cônjuge era um membro da boa sociedade. Jacinto Ribeiro do Amaral era quase 10 anos mais velho que a maestrina e não gostava do fato de a esposa tocar piano. Ao fim de dois anos de casamento e mãe de três filhos, a musicista opta pela separação, algo incomum para a época, principalmente para uma mulher. Aos 18 anos e com vontade de viver da música, Chiquinha Gonzaga teve que lidar com a fúria da conservadora sociedade carioca. Pelo fato de ter abandonado o primeiro marido e por estar apaixonada pelo engenheiro João Batista de Carvalho, foi levada ao Tribunal Eclesiástico em um processo por abandono de lar e adultério. Ficou somente com a guarda de João Gualberto, o filho mais velho, uma vez que o agora ex-marido a proibiu de ficar com a guarda dos filhos Maria do Patrocínio e Hilário.

            O segundo casamento também trouxe muito sofrimento para Chiquinha Gonzaga. João Batista de Carvalho, o segundo esposo da musicista, a traía com frequência. Apesar de ter uma filha com ele, chamada Alice, a artista escolhe se separar mais uma vez. Novamente, foi proibida de ter a guarda da criança. Desta forma, apenas o primogênito continuou morando com a mãe. Chiquinha Gonzaga encontra o amor em seu terceiro casamento, mas para evitar novas condenações sociais, escolhe dizer para a sociedade que o novo marido é um filho adotivo. Isso porque a musicista era 36 mais velha que seu novo cônjuge, o português João Batista Fernandes Lage.

            Aos 52 anos de vida, Chiquinha Gonzaga era uma maestrina consagrada, apesar dos estigmas e reprovações sociais. Foi com esta mesma idade que conheceu João Batista Fernandes Lage, que por sua vez tinha apenas 16 anos de vida. João Batista nasceu em Portugal, mas vivia no Rio de Janeiro desde pequeno com um irmão mais velho. Músico amador, frequentava o Clube Euterpe, do qual Chiquinha Gonzaga era sócia honorária. Entre muitas atividades culturais, o Clube “agrupava rapazes interessados em música, organizava concertos e soirées literomusicais” (DINIZ apud CESAR, 2015: p. 355). Os dois encontram-se em 1899 e não demora muito para um flerte contido resultar em uma paixão mútua. Em 1901, após voltar de uma viagem a Portugal, Chiquinha Gonzaga declara-se publicamente mãe de João Batista, tendo supostamente adotado o mesmo.  

            É importante dizer que Chiquinha Gonzaga não adotou de fato João Batista Fernandes Lage. A adoção enquanto procedimento jurídico foi instituída no Código Civil brasileiro em 1917, 18 anos depois do inicio do relacionamento em questão. Entretanto, este fato não impediu a prática de adotar informalmente crianças as quais não teriam gerado. E isso não significa também que a partir de 1917 todas as adoções passaram pelas autoridades oficiais. A “adoção à brasileira” (FONSECA apud CESAR, 2015: p. 352) foi uma medida amplamente usada onde era preciso apenas duas testemunhas para atestar diante de um tabelião a legitimidade biológica existente entre um adulto e uma criança.

            Chiquinha Gonzaga “adotou” seu último “esposo” por temer reprovações sociais, além de temer também possíveis ridicularizações. Isso porque ter 52 anos de vida no século XIX não é a mesma coisa que ter 52 anos no século XXI. A grosso modo, ter mais de 50 anos naquele período era como ter 80 anos hoje, dependendo da qualidade de vida da pessoa. A melhoria da qualidade de vida e o avanço da medicina fazem com que a vida seja prolongada. Além disso, temas como vida social e vida sexual entre pessoas idosas têm sido cada vez mais discutidos nos últimos anos, algo que não acontecia no século XIX.

            A opção de Chiquinha Gonzaga em se relacionar com homens mais novos era incomum para as mulheres, mas era bastante comum homens mais velhos se relacionarem com mulheres mais novas. O primeiro marido da maestrina era quase 10 anos mais velho do que ela. Hermes da Fonseca, por exemplo, era 31 anos mais velho que a esposa Nair de Teffé. Em alguns casos, houve casamentos no passado em que as moças eram tão jovens que era necessário esperar um tempo para que o casal pudesse ter relações sexuais. A união de homens mais velhos com mulheres mais novas é aceitável porque o mesmo é fértil por toda sua vida, ao contrário da mulher, que a partir de certa idade não consegue mais gerar uma criança. Este fator fazia toda a diferença quando um homem e uma mulher se casavam, uma vez que o matrimônio tinha por função máxima gerar descendentes. Companheirismo, compartilhamento de projetos em comum, amor e assim como demais temas tão discutidos hoje e que muitos acreditam que devem estar presentes em um casamento, são discussões muito recentes, não estando presentes em outras épocas.

            Chiquinha Gonzaga não deve ser vista como uma “pedófila”. Isso porque a infância, a adolescência, a vida adulta e a velhice enquanto fases da vida são concepções recentes da sociedade. Por muito tempo, acreditava-se que a criança era um adulto em “miniatura”. Este fato ajuda a entender o motivo de alguns clássicos infantis que foram adaptados pela Disney serem extremamente “pesados” em suas versões originais.

Conclusão

            Chiquinha Gonzaga optou por manter em segredo seu relacionamento com um homem muito mais novo por temer repressões sociais. Pelo fato de a relação ser “estável”, foi decidido que Chiquinha Gonzaga e João Batista seriam apresentados a sociedade como mãe e filho. Foi a solução encontrada para que pudessem viver juntos em uma sociedade que reprovava a união de mulheres mais velhas com homens mais novos.

Referências:

https://www.ebiografia.com/abre_alas_curiosidades_vida_polemica_chiquinha_gonzaga/ visualizado no dia 12/05/2022

CESAR, Rafael do Nascimento. O amante adotado: Chiquinha e Joãozinho, composição além da música. Cadernos Pagu (UNICAMP), p. 341-365, 2015.

DEL PRIORE, Mary. Histórias e conversas de mulher. 2ª ed. São Paulo, 2014. 303p.;

RODRIGUES, Antonio Edmilson Martins. Ironias da vida. Revista de História da Biblioteca Nacional, ano 6, nº 65, p. 62-65, fevereiro 2011.

Como citar este artigo:

– ALVES, Marllon. O relacionamento secreto de Chiquinha Gonzaga. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2022/05/12/o-relacionamento-secreto-de-chiquinha-gonzaga/ Publicado no dia 13 de maio de 2022.

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