O problemático título de “Redentora” atribuído à princesa Isabel

Princesa Isabel posa para foto ao lado do pai, o imperador D. Pedro II. A princesa iria suceder o pai no trono, mas o regime monárquico brasileiro caiu antes disso acontecer. Imagem: Reprodução.

Por Marllon Alves

A princesa Isabel foi praticamente a única filha de D. Pedro II e D. Teresa Cristina a chegar à idade adulta. A primeira a suceder o pai no trono do extinto Império do Brasil, chegou a suceder o pai na cadeira imperial quando este precisou se ausentar de suas funções reais. Foi em uma destas ocasiões que assinou a Lei Áurea, em 1888, pondo fim a um regime que durou mais de três séculos: a escravidão. Por conta deste fato, recebeu a alcunha de “Redentora”, mas a mesma não resiste a uma aprofundada análise historiográfica.

            D. Pedro II e D. Teresa Cristina tiveram quatro filhos ao longo do casamento. Entretanto, somente D. Isabel permaneceu viva. D. Afonso Pedro de Bragança nasceu em 1845 e faleceu em 1847 por conta de um ataque epilético (D. Pedro I sofria do mesmo mal e D. Pedro II quase morreu por conta deste mesmo problema), D. Pedro Afonso de Bragança nasceu em 1848 e faleceu em 1850 por causa de uma febre cujas origens são pouco esclarecidas (contemporâneos ao imperador associaram a febre à encefalite ou uma doença congênita). D. Leopoldina de Bragança, a segunda filha mulher do casal imperial, nasceu em 1847 e faleceu em 1871 após contrair febre tifoide. A única filha a sobreviver em meio a tantas mortes foi a princesa Isabel, que nasceu em 1846 e veio a falecer em 1921.

            Além de ser a única filha a morrer depois dos pais, D. Isabel foi quem permaneceu no Brasil após contrair matrimônio. Isso porque a princesa era a filha mais velha após a morte do irmão primogênito. Após se casar, D. Leopoldina passou a viver com o marido entre o Brasil e a Europa, pois entre as cláusulas do casamento arranjado ficou decidido que a princesa em questão teria os filhos em território brasileiro enquanto a sucessão ao trono brasileiro não estivesse assegurada. Segundo Barman (2012), o relacionamento entre a princesa Isabel e o pai era complexo. Eles discutiam com bastante frequência e ela desafiava o imperador, que por sua vez estava acostumado a receber dos demais obediência e respeito. Entretanto, o monarca sabia que em uma situação em que estivesse pressionada, a filha acabaria cedendo. Apesar do espírito audacioso, D. Isabel não questionou o casamento arranjado pelo pai. Foi também sob as ordens do mesmo que a princesa voltou ao Brasil em 1873 para o nascimento de sua primeira filha, que nasceu morta no ano seguinte. Com o passar dos anos, a relação entre pai e filha se modificou, mas D. Isabel nunca afirmou uma presença pública independente de seu pai, nem mesmo quando substituiu o pai no trono quando este precisou se ausentar momentaneamente. “A postura de filha devota jamais foi abandonada” (BARMAN, 2012: p. 19).

Fotografia do casamento da princesa Isabel com o conde d’Eu. Imagem: Reprodução.

            Ainda segundo Barman (2012), a relação da princesa Isabel com o conde d’Eu, seu esposo, era completamente diferente. Ainda persiste o mito de que o casal escolhera um ao outro, mas cartas particulares datadas deste período mostram que o casamento foi arranjado de acordo com a vontade do então imperador do Brasil. A cerimônia ocorreu pouco mais de um mês após o primeiro encontro, mas ao que tudo indica, a paixão foi mútua e rápida, fazendo com o que a união durasse até a morte da princesa, em 1921. As personalidades de ambos eram complementares, garantindo o equilíbrio do casal. O conde d’Eu tratava a esposa com um carinho e um cuidado que não dedicava a mais ninguém. Por sua vez, a princesa nunca contestou a supremacia do esposo e aprendeu a lidar com ele, que passou a depender do apoio da esposa durante suas crises de depressão e doenças, “todas possivelmente causadas por sua dificuldade em lidar com o estresse” (BARMAN, 2012: p. 19).

            Para Barman (2012), a submissão da princesa ao pai e ao marido pode estar relacionada às crenças da princesa, que era católica. Para este mesmo autor, D. Isabel professava o catolicismo de forma convencional, mas trágicos acontecimentos fizeram da sua religião o centro de sua existência. A princesa estava presente quando D. Leopoldina, a única dos irmãos que ainda estava viva, morreu de febre tifoide, em 1871. Em 1874, após uma gravidez tranquila, um trabalho de parto que durou 50 horas resultou na morte do bebê. No ano seguinte, ao dar à luz ao seu segundo filho, os músculos do ombro esquerdo do bebê foram tão danificados durante o parto que a criança, que recebeu o nome de D. Pedro de Alcântara de Orleans e Bragança, perdeu os movimentos do braço esquerdo. D. Luís de Orleans e Bragança e D. Antônio Gastão de Orleans e Bragança, nascidos em 1878 e 1881 respectivamente, foram as duas últimas gestações da princesa Isabel e em ambas houve complicações.

            Segundo Júnior (2012), a princesa Isabel olhava o mundo a partir de uma ótica religiosa. Em certa ocasião, censurou D. Pedro II por este ter visitado uma sinagoga na Europa. Em outra situação, criticou uma visita que o pai fez a escritora George Sand, a quem considerava imoral. Sand foi uma precursora do feminismo, defensora de ideais socialistas, usava roupas masculinas e tinha muitos casos amorosos. Era uma figura bem diferente daquelas por quem Isabel demonstrava admiração e devoção, como por exemplo os monarcas canonizados pela Igreja Católica. São Luís de França e Santa Isabel, fosse a de Portugal ou a da Hungria, eram os seus exemplos de vida. Em Caxambu, no estado de Minas Gerais, a princesa iniciou uma edificação de uma igreja consagrada a Santa Isabel de Hungria. Em sua primeira viagem à Europa, beijou as mãos da Santa Isabel de Portugal, cujo corpo estava em ótimo estado de conservação. E, conforme a antiga tradição católica, além de comemorar seu aniversário de nascimento, a princesa também celebrava e recebia presentes nos dias dedicados às duas santas que levavam seu nome e de quem descendia.

            Júnior (2012) afirma que na visão de D. Isabel o Brasil fazia parte da cristandade, cuja autoridade máxima era o Papa, a quem os governantes deveriam respeitar e obedecer. Desta forma, o exercício da política deveria estar associado à obediência a este líder máximo do catolicismo. Este mesmo preceito determinava as práticas religiosas da princesa e também as suas atitudes como regente do Império do Brasil e herdeira do trono. Foram três as ocasiões em que a princesa Isabel regeu o império. A primeira ocasião foi durante os anos de 1871 a 1872, a segunda regência ocorreu entre os anos de 1876 a 1877 e a terceira e última regência foi entre os anos de 1887 a 1888. Foi nesta última regência que a princesa entrou para a história do país ao assinar a Lei Áurea em 1888, findando o regime escravocrata no país. A causa da abolição recebeu uma atenção especial de D. Isabel porque a escravidão neste período era vista como uma prática contrária às doutrinas da Igreja Católica.

            A escravidão dos negros oriundos da África foi instaurada no Brasil quando este ainda era uma colônia de Portugal, durante o século XVI. Foi também durante o período colonial brasileiro que se ouviram em terras brasileiras discursos pontuais que criticavam o regime escravista então em vigor no país. José Bonifácio, considerado o patriarca da Independência do Brasil, classificou a escravidão como “o cancro que roía as entranhas da sociedade brasileira” (CARVALHO, 2007: p. 130). Ainda discorrendo sobre José Bonifácio, este foi um dos poucos homens públicos, até a década de 1850, que teve a coragem de fazer críticas diretas e contundentes ao regime escravocrata. Em sua representação à Assembleia Geral Constituinte (escrita em 1823, mas publicada em Paris dois anos depois por conta da dissolução da Assembleia) argumenta que a escravidão era incompatível com o cristianismo, embora de praticada pelo clero católico. Para José Bonifácio, a escravidão também era incompatível com a justiça, o direito natural, a defesa nacional e com a construção de uma nação. O patriarca da independência salientou em especial a incompatibilidade entre escravidão e a formação de um exército poderoso.

            Ao longo do século XIX, vozes favoráveis e contrárias à escravidão serão ouvidas com uma frequência cada vez maior na medida em que este mesmo século avança, findando somente com o fim deste mesmo regime, em 1888. Neste contexto, a Inglaterra, que mantinha relações comerciais com Portugal e posteriormente com o Brasil quando este se tornar independente, fez grande pressão que resultou na criação de leis cuja finalidade era coibir o tráfico de escravizados. Neste contexto, as leis mais conhecidas são as leis Eusébio de Queirós (1850), do Ventre Livre (1871) e Lei dos Sexagenários (1885). Inicialmente discutida no Parlamento, as discussões em torno da escravidão ocorrerão para além da “política institucional”. Neste contexto, destacam-se os romances, poesias e peças de teatro cujo escravismo era uma das temáticas ou a temática central de seus respectivos enredos. Estes eram um dos principais meios que a população do período, em especial os membros da boa sociedade, se utilizavam para fins de entretenimento. Algumas destas obras são: O juiz de paz na roça (1838), A família e a festa na roça (1840) e Os dois ou o inglês maquinista (1845), de Martins Penna; A escrava (1846) e Meditação (obra descoberta postumamente), de Gonçalves Dias; O demônio familiar (1857) e Mãe (1860), de José de Alencar; Úrsula (1859) e A escrava (1887), de Maria Firmina dos Reis; História de uma moça rica (1861), de Pinheiro Guimarães; A luneta mágica (1868), de Joaquim Manoel de Macedo; O navio negreiro (1870), de Castro Alves; Os homens de sangue ou os Sofrimentos da escravidão (1873), de Vicente Félix de Castro; A escrava Isaura (1875), de Bernardo Guimarães; O mulato (1881), de Aluísio de Azevedo; O escravocrata (1884), de Artur Azevedo e Escravocratas (publicado décadas após a morte do autor), de Cruz e Souza.

            Além da vasta produção literária acima descrita, jornais deste mesmo período passarão a se dedicar parcial ou totalmente à causa da abolição (alguns nasceram justamente com esta finalidade). Este fenômeno se tornou mais intenso entre meados da década de 1870 e praticamente durante toda a década de 1880. Alguns destes jornais são: Ça Ira, Emancipadora Acadêmica, o Correio Paulistano, A província de São Paulo, Jornal do Comércio, A Onda, A Abolição, Oitenta e Nove, A Redenção, A Vida Semanária, Vila da Redenção, A Liberdade, O Alliot, O Abolicionista, a Gazeta da Tarde, A Terra da Redenção, O Amigo do Escravo, Confederação Abolicionista, O Governo e a Escravidão, a Revista Ilustrada, A Luta e O Federalista. Grande parte dos jornais e romances deste período denunciavam o regime escravista em vigor no país, conforme pode ser observado no parágrafo acima e neste mesmo parágrafo também. A questão não se limita somente às “discussões teóricas”: resulta também em ações práticas. Neste período surgiram também os grêmios, clubes e associações cuja finalidade era a libertação dos cativos. A Sociedade Redentora de Crianças Escravas, a Sociedade Emancipadora Fraternidade, o Centro Abolicionista, o Centro Abolicionista de São Paulo, a Sociedade de Libertação, a Sociedade Emancipadora do Elemento Servil, a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão, o Clube dos Libertos de Niterói, a Libertadora da Escola Militar, a Libertadora da Escola de Medicina, a Caixa Libertadora José do Patrocínio, o Centro Abolicionista Ferreira de Menezes, o Clube Abolicionista dos Empregados do Comércio e a Confederação Abolicionista são alguns exemplos. É importante destacar que, apesar das ações que visavam eliminar o regime escravista, os motins, as rebeliões e as fugas orquestrados pelos cativos continuaram acontecendo; e os quilombos não deixaram de existir. Além disso, as torturas e agressões físicas continuaram a ser executadas por aqueles que possuíam cativos.

A princesa Isabel, o conde d’Eu e o escritor Machado de Assis durante a Missa Campal da Abolição da Escravatura, no dia 17 de maio de 1888. Imagem: Antonio Luiz Ferreira/IMS.

            A forte atuação dos movimentos abolicionistas e as altas vozes contrárias a escravidão tiveram os seus primeiros efeitos: no Ceará e no Amazonas a abolição da escravidão ocorreu em 1884, quatro anos antes de a princesa Isabel assinar a Lei Áurea. Além disso, segundo Júnior (2012), a monarca abraçou com fervor religioso a causa da abolição. A princesa acolheu e alimentou escravos fugitivos em seu palácio e fomentou campanhas de arrecadação para a compra de alforrias. O “engajamento” da princesa na causa em questão se tornou ainda maior quando, em 1887, o episcopado brasileiro, alinhado com as orientações papais, promoveu uma forte luta em favor dos escravizados. Por meio de cartas pastorais, os bispos convocaram os católicos do Brasil a promover a libertação dos escravos em honra ao jubileu sacerdotal do Papa. Como uma católica fervorosa e fiel às orientações das autoridades eclesiásticas, D. Isabel atendeu às suas súplicas. Após uma disputa que resultou na demissão do Gabinete Cotegipe, a Lei Áurea foi assinada no dia 13 de maio de 1888. Dias depois, ainda como princesa regente, D. Isabel ajudou a organizar uma grande missa campal em agradecimento pelo fim de um regime que vigorou no Brasil por mais de três séculos.

Conclusão

            O título de “Redentora”, que alguns ainda insistem em atribuir à princesa Isabel, sugere que a monarca, por compaixão dos escravizados, decidiu libertar de uma só vez todos os cativos até então existentes no Brasil, ignorando o fato de que a engrenagem da escravidão existia no Brasil há muitos séculos e a sua derrubada poderia trazer grandes impactos econômicos. Entretanto, esta visão não sobrevive a uma minuciosa análise histórica. Quando a Lei Áurea foi assinada, em 1888, muitos setores da sociedade discutiam o fim do regime em questão. Na verdade, este era um assunto que foi se tornando cada vez mais constante ao longo do século XIX. Em várias regiões do país, especialmente na cidade do Rio de Janeiro, então capital do Império do Brasil, romances, poesias, peças teatrais e jornais se dedicavam parcial ou totalmente à causa da abolição; e isso sem contar com os clubes abolicionistas, que eram muitos também. Além disso, quatro anos antes de D. Isabel ter abolido a escravidão, o Ceará e o Amazonas já haviam feito isso em suas respectivas regiões. Desta forma, não é difícil constatar que nos anos finais da escravidão no Brasil era evidente que o regime ia findar. A questão era como e quando isso iria acontecer, uma vez que o fim da mesma não era surpresa para ninguém. O fim da abolição resultou no golpe militar republicano de 1889, dando fim ao período imperial brasileiro, uma vez que os cafeicultores (o café era o principal produto de exportação neste momento), ainda dependentes do trabalho cativo, eram praticamente os últimos defensores da monarquia; mas é um assunto para os próximos textos.

Referências:

– BARMAN, Roderick J. Redentora e prisioneira. Revista de História da Biblioteca Nacional, ano 7, nº 80, p. 18-21, maio 2012;

– CARVALHO, José Murilo de. D. Pedro II. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 276p.;

– COSTA, Emília Viotti da. Da Senzala à Colônia. 5ª ed. São Paulo: Editora UNESP, 2010. 552p.;

– JÚNIOR, Robert Daibert. Entre o trono e o altar. Revista de História da Biblioteca Nacional, ano 7, nº 80, p. 22-25, maio 2012.

Como citar este artigo:

– ALVES, Marllon. O problemático título de “Redentora” atribuído à princesa Isabel. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2022/05/20/o-problematico-titulo-de-redentora-atribuido-a-princesa-isabel/ publicado no dia 20 de maio de 2022.

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