Branca, Inês e Marta: quando Manoel Carlos mostrou que nem sempre maternidade e amor incondicional são sinônimos

Branca, Inês e Marta, personagens de Por Amor (1997), Mulheres Apaixonadas (2003) e Páginas da Vida (2006), respectivamente. Através destas personagens, ‘Maneco’ abordou uma maternidade “não idealizada”. Imagem: Reprodução.

Por Marllon Alves

Manoel Carlos é um dos grandes nomes da teledramaturgia brasileira, o mesmo escreveu cenas que entraram para a história da televisão no Brasil. A principal característica de seus folhetins é o batismo de suas protagonistas como o nome Helena. Por sua vez, estas demonstram de forma direta e indireta o amor incondicional por seus filhos. Entretanto, este mesmo autor escreveu personagens que fogem a este perfil e que até hoje são lembrados por muitos.

            Maneco, apelido carinhoso de Manoel Carlos, deixou uma grande contribuição para a televisão brasileira. Apesar de terem sido escritos há muitas décadas, seus textos sensíveis e bem escritos ainda geram discussões na contemporaneidade e sensibilizam o telespectador. Até hoje é lembrada a sequência em que a Helena (Regina Duarte) troca o seu filho saudável pelo natimorto de Maria Eduarda (Gabriela Duarte) em Por Amor (1997), impossível ouvir a canção Love by Grace da cantora Lara Fabian e não lembrar de Camila (Carolina Dieckmann) raspando seus cabelos em Laços de Família (2000) por estar enfrentado uma leucemia. De tão conhecida, a cena em que a racista Marta (Vera Holtz) tem uma tórrida relação sexual com seu empregado negro André (Taiguara Nazareth) em Presença de Anita (2001) é facilmente encontrada em portais eróticos. Já a sequência relacionada a morte de Fernanda (Vanessa Gerbelly) em Mulheres Apaixonadas (2003) emocionou o Brasil. Outro personagem de Manoel Carlos que emocionou o país foi Nanda (Fernanda Vasconcellos), que passou muitos dissabores em Páginas da Vida (2006) ao se ver grávida de gêmeos, tendo que lidar com a ausência de um namorado que não quis ir adiante com a relação e nem assumir a paternidade das crianças. Além disso, a coitada teve que lidar com uma mãe insensível e amargurada.

            Por sua vez, as “Helenas” de Maneco são épicas. A de Por Amor (1997) não pensou duas vezes em trocar seu bebê vivo pelo bebê sem vida de sua filha Maria Eduarda. A mesma suportou todo tipo de sofrimento que esta atitude lhe trouxe: o desmoronamento de seu casamento, o fato de tratar o filho como neto e o sofrimento do marido Atílio por achar que o filho que esperou a vida toda para ter nasceu sem vida. Além de todo este sofrimento, a Helena da novela em questão teve de lidar com os sofrimentos de César (Marcelo Serrado), médico e amigo da família que a auxiliou nesta troca. O rapaz ficou à beira de um colapso mental. Já a Helena (Vera Fisher) de Laços de Família (2000) se envolve com Edu (Reynaldo Gianecchini), um rapaz mais jovem, e por conta disso enfrenta o preconceito dentro de sua própria família e também na da família do namorado. Percebendo que o mesmo e a filha Camila (Carolina Dieckmann) estão apaixonados, sai de cena para que ambos possam viver este amor, mesmo estando muito apaixonada por ele. Quando, enfim, ela encontra em Miguel (Tony Ramos) um novo amor, esta Helena se vê mais uma vez na obrigação de abdicar do mesmo. Isso porque a filha descobre que tem leucemia e a única forma de ser curada é receber a medula de uma pessoa compatível. Como o filho Fred (Luigi Baricelli) era de outro homem (ninguém sabia disso), não havia como este salvar a irmã. Desta forma, Helena decide se relacionar com Pedro (José Mayer) (um homem do passado, seu primo e pai de sua filha) a fim de ter um filho com este e salvar Camila. A Helena (Regina Duarte) de Páginas da Vida (2006) perdeu sua única filha biológica quando esta ainda era uma criança. Seu destino se cruza com o da jovem Nanda (Fernanda Vasconcellos), que deu entrada no hospital em que trabalha após ser atropelada e estar prestes a entrar em trabalho de parto. A moça morre após o nascimento dos gêmeos e exames feitos ainda na maternidade indicam que Clara (Joana Mocarzel) (o bebê tem o mesmo nome que o de sua falecida filha) tem Síndrome de Down. Helena decide adotar a menina e não demora muito para perceber que tem que lutar a todo instante pelos direitos de sua filha adotiva quando percebe que grande parte da sociedade tem preconceito com pessoas com Síndrome de Down e, por conta deste mesmo preconceito, tendem a deixar estas pessoas de lado. O calvário de Helena aumenta quando a avó biológica de Clara aparece, bem como o pai biológico e ambos vão parar nos tribunais para disputar a guarda da menina.

Branca em cena de Por Amor (1997). Imagem: Reprodução.

            Memoráveis são as maternais Helenas de Manoel Carlos, assim como aquelas que não foram tão maternais assim, apesar de terem filhos. Branca (Susana Vieira), a antagonista de Por Amor (1997), é mãe de três filhos: Marcelo (Fábio Assunção), Milena (Carolina Ferraz) e Leonardo (Murilo Benício; e ela lida com cada um de forma peculiar. Marcelo é, sem dúvidas, o filho predileto. A Branca conversa com ele, dá conselhos e dificilmente briga com o mesmo. A predileção por este filho se deve ao fato de Branca achar que o mesmo era filho de Atílio, o homem a quem sempre amou. Apesar de ser casada com Arnaldo, Branca nunca foi de fato apaixonada por este homem. A relação de Branca com Milena é tensa porque a filha se impõe diante da mãe e tem sempre uma ironia na ponta da língua para mandar a sua progenitora. Além disso, Milena e a mãe brigam tanto porque a filha é tudo aquilo que a mãe não queria que ela fosse. Milena usa cabelos curtos, roupas que destacam seu corpo e se envolve com vários homens ao mesmo tempo. Reprodutora do machismo, Branca reprova tais atitudes. Já com Leonardo, ou simplesmente Leo, Branca rejeita o mesmo. Em mais de uma ocasião, Branca deixou claro que não queria uma terceira gestação e nunca se preocupou em esconder o desprezo que sente pelo mesmo. Por um golpe do destino, o filho a quem ela sempre amou por julgar ser filho do Atílio não era Marcelo, mas sim o Leo, a quem ela rejeitou a vida toda. Não foi fácil para Branca aceitar este fato. No fim de Por Amor (1997), Branca termina sozinha e sem ser visitada pelos filhos. A exceção era o Leo, que telefonava quase que diariamente. Mesmo assim, Branca não demonstrou muito afeto para com este filho.

A Inês de Mulheres Apaixonadas (2003) não pensou duas vezes em usar a filha e os netos para conseguir dinheiro. Imagem: Reprodução.

            Inês (Manoelita Lustosa) é a mãe de Fernanda (Vanessa Gerbelli) em Mulheres Apaixonadas (2003), uma mulher que trabalhou como prostituta no passado e foi nesse contexto que ela teve um casal de filhos. Lucas (Victor Cugula), filho de Fernanda, foi criado com o pai e pela Helena (Christiane Torloni) e jamais soube que era adotado. Téo (Tony Ramos), pai biológico de Lucas, assim como a Helena, gozam de boas condições financeiras, podendo educar o Lucas com todo o conforto e luxo possíveis. Já a menina Salete (Bruna Marquezine) é educada por Fernanda e, apesar de Téo lhe ajudar financeiramente, não tem o mesmo padrão de vida que seu irmão Lucas. Inês, sabendo deste fato e depois de descobrir que Téo deixou uma excelente quantia para Salete usufruir no futuro, começa a pedir dinheiro para Fernanda, ameaçando contar tudo o que sabe caso a filha negue seu pedido. Depois que Fernanda vai para o hospital após ser baleada e durante um tempo após a morte desta, Salete passa a ser cuidada pela avó Inês. Julgando que a menina era mal acostumada pela mãe, a avó trata a neta da forma mais rude possível. Além disso, Inês obriga Salete a dizer onde a mãe guardava dinheiro dentro de casa e passa a gastar as economias da filha. Percebendo o interesse de Téo em cuidar de Salete, Inês passa a pedir dinheiro ao mesmo toda vez que este quiser ver a menina. Movido pela possibilidade de Salete ser sua filha, um exame de DNA é feito, comprovando a paternidade de Téo. Com isso, Salete passa a ser cuidada pelo pai biológico e junto do irmão, findando com as extorsões de Inês.

Em Páginas da Vida (2006), Marta despertou raiva e compaixão dos telespectadores. Imagem: Reprodução.

            Marta (Lília Cabral), a principal antagonista de Páginas da Vida (2006), teve uma infância rígida, difícil e com muitas privações. Sempre teve inveja de sua irmã Verônica (Silvia Salgado) pelo fato desta ser rica (mas fica pobre no fim da trama por conta do consumo excessivo de bebida alcoólica por parte do marido). Verônica era tudo aquilo que Marta tentou ser a vida inteira. Além disso, a inveja de Marta para com sua irmã era maior porque a mesma julgava que Verônica teve tudo o que quis sem ter que fazer esforço. Casada com Alex (Marcos Caruso), com quem teve o casal de filhos Nanda (Fernanda Vasconcellos) e Sérgio (Max Fercondini), Marta vivia feliz, apesar das constantes dificuldades financeiras. O casamento começou a entrar em crise quando Alex passou a não se fixar em emprego nenhum, até mostrar-se acomodado com isso. Sozinha, Marta teve que lidar com dois filhos adolescentes e garantir o sustento da casa, sempre se endividando e pedindo dinheiro emprestado a irmã e/ou ao cunhado.

            A filha Nanda almeja passar um tempo na Holanda estudando e Marta, mesmo tendo que se endividar ainda mais e vendo na filha a possibilidade de esta ter uma vida que sempre almejou e nunca teve, Marta decide financiar os estudos da filha. Uma vez em solo holandês, Nanda engravida do namorado, que não aceita a paternidade. Com isso, a jovem volta para casa e tem de enfrentar uma Marta furiosa. A ira de Marta se deve ao fato de tanto se esforçar para a filha estudar em outro país e ver no fim que seu resultado foi em vão. Não era este o plano da mãe de Nanda e a frustração se transformou em fúria. Aliás, tal situação chegou às vias de fato e Marta agrediu a filha, que estava em uma avançada gestação de gêmeos. A mãe expulsa a filha de casa e depois volta atrás, mas isso não significa que Marta se compadeceu de Nanda. Durante o período em que a filha estava viva e morando na casa dos pais, Marta foi implacável no tratamento com a moça, não demonstrando para a mesma e os demais nenhum afeto sequer. A progenitora chega até a dizer que a filha deveria ter uma filha mulher (Nanda só descobriu que uma das crianças era do sexo feminino na hora do parto) para que Nanda entendesse os sofrimentos que estava passando. Além disso, Marta defendeu a atitude do então namorado da filha de abandonar a amada quando soube que esta estava grávida. A mãe acusou a filha de ter dado o “golpe da barriga” e disse que o rapaz foi “esperto” em ter “pulado fora”. Em uma destas situações, Nanda sai de casa descontrolada e é atropelada por um carro desgovernado que invade a calçada. No oitavo mês de gestação, Nanda passa por uma cesariana e morre depois do nascimento dos bebês. O menino é acolhido por Marta, mas a menina, por ter Síndrome de Down, é rejeitada pela mesma. Francisco (Gabriel Kaufmann) é cuidado por Marta, que poucas vezes demonstrou afeto pelo menino. Já a Clara (Joana Mocarzel) é adota por Helena (Regina Duarte), a protagonista de Páginas da Vida (2006). Cinco anos depois, Leo (Thiago Rodrigues), o pai das crianças, reaparece e almeja a guarda de Francisco. Ele entra em um acordo com Marta, que “vende” o neto por R$1 milhão. Entretanto, o cunhado de Marta perde o dinheiro que esta lhe deu para ser investido porque Eliseu (Luciano Chirolli) estava se viciando em álcool e vendendo tudo o que tinha. Não demora muito para Marta saber que Clara, a neta rejeitada, estava com Helena e começa a ameaçar a mesma. O assunto é levado aos tribunais e Helena fica com a guarda de Clara e Alex, marido de Marta somente “no papel”, fica com a de Francisco. Por sua vez, os sinais de loucura em Marta são cada vez mais evidentes e esta termina a novela sendo cuidada pela irmã Verônica.

Conclusão

            Se com as Helenas Manoel Carlos mostrou uma “maternidade ideal”, onde as mães são sempre amorosas com seus filhos e dispostas a se sacrificar por eles, este mesmo autor mostrou por meio de Branca, Inês e Marta a “maternidade real”, que é aquela onde a mãe se frustra, se sente cansada com frequência, procura se realizar em cima de seus filhos, projeta uma determinada imagem em cima dos mesmos, procura obter vantagens financeiras em cima destes ou que simplesmente nunca desejaram ter aquele filho.

Referências:

MULHERES APAIXONADAS. Ricardo Waddington. Rio de Janeiro: Rede Globo de Televisão, 2003;

PÁGINAS DA VIDA. Jayme Monjardim. Rio de Janeiro: Rede Globo de Televisão, 2006;

POR AMOR. Ricardo Waddington. Rio de Janeiro: Rede Globo de Televisão, 1997.

Como citar este artigo:

– ALVES, Marllon. Branca, Inês e Marta: quando Manoel Carlos mostrou que nem sempre maternidade e amor incondicional são sinônimos. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2022/07/22/branca-ines-e-marta-quando-manoel-carlos-mostrou-que-nem-sempre-maternidade-e-amor-incondicional-sao-sinonimos/ publicado no dia 22/07/2022.

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