Primeiras-damas do Brasil (Parte I): Mariana da Fonseca – uma monarquista em um espaço republicano

Mariana da Fonseca, esposa do Marechal Deodoro da Fonseca, é considerada hoje a primeira mulher a ocupar o posto de primeira-dama no Brasil. Imagem: Reprodução.

Por Marllon Alves

            Pelo fato de ter sido esposa de Deodoro da Fonseca, o primeiro presidente do Brasil republicano, Mariana da Fonseca é considerada hoje a primeira mulher a ocupar o posto de primeira-dama no Brasil. Curiosamente, apesar de a monarquia ter sido extinta no país, Mariana preferia ser tratada como baronesa, um título remetente aos tempos imperiais. Este fato não deve ser visto com estranheza, uma vez que a república brasileira demorou para se consolidar no Brasil.

            No dia 15 de novembro de 1889 um golpe militar republicano pôs fim a era imperial brasileira. D. Pedro II e sua família foram exilados. Desta forma, o cargo de primeiro presidente do Brasil foi entregue ao Marechal Deodoro da Fonseca. O marechal conheceu Mariana da Fonseca em 1860, quando era capitão do exército. Por sua vez, esta era filha de militar e solteira aos 34 anos de idade. A solteirice em idade avançada não era comum na época, especialmente para as mulheres. Por conta deste fato, Mariana foi vítima de comentários maldosos. Um ano mais velha que Deodoro, Mariana e o mesmo se casaram poucas semanas depois de se conhecerem.

            Uma vez casados, Deodoro e Mariana tiveram de viver separados um do outro por ocasião da Guerra do Paraguai, pois o futuro marechal e seus irmãos foram para o conflito representar o Brasil. Durante este período, Mariana conviveu com Rosa Paulina, sua sogra. Mariana acabou sendo um apoio fundamental para a mãe de seu marido porque três irmãos de Deodoro morreram no conflito em questão. Apesar da dor da perda, Rosa se orgulhava da trajetória dos três filhos falecidos.

Representação de Mariana da Fonseca (de costas) em pintura de Gustave Hastoy, em 1891. Imagem: Reprodução.

            Quando Deodoro da Fonseca tornou-se o primeiro presidente do Brasil, Mariana da Fonseca tinha 63 anos de idade. Especialistas a classificam como uma pessoa discreta e que gostava de ser chamada de baronesa. Este fato não deve ser visto com estranheza porque a república demorou para se consolidar no país. A monarquia deixou sua marca no país, que permaneceu mesmo após sua deposição. Tudo isso ajuda a entender os motivos de tantas revoltas no país durante os primeiros anos da república, além das censuras e perseguições a opositores que os primeiros presidentes orquestraram. Desta forma, não era raro no Brasil encontrar, mesmo nos primeiros anos do período republicano, brasileiros que tinham apreço pela monarquia e/ou pela figura do imperador D. Pedro II. Assim como a esposa, Deodoro era monarquista e tinha um profundo respeito pela figura do último monarca do Brasil.

            O primeiro presidente do Brasil proclamou a república contra a sua vontade. Em obra intitulada Cartas do Brasil, Max Leclerc disse que “a revolução está terminada e ninguém parece discuti-la, mas aconteceu que os que fizeram a revolução não tinham de modo algum a intenção de fazê-la e há atualmente na América um presidente da República à força. Deodoro desejava apenas derrubar um ministério hostil. Era contra Ouro Preto e não contra a Monarquia. A Monarquia caíra. Colheram-na sem esforço como um fruto maduro” (MAX LECLERC apud COSTA, 2010: p. 397). Baseado nesta mesma linha de pensamento, Elias (2012) diz que o desejo de Deodoro da Fonseca em destituir o gabinete do liberal Visconde de Ouro Preto originou-se quando republicanos que se aproximaram do marechal espalharam o falso boato de que o visconde em questão o prenderia. Entretanto, a decisão de Deodoro em por fim à monarquia decorreu da informação de que o político liberal Gaspar da Silveira Martins substituiria Ouro Preto. Por conta de um caso amoroso (Deodoro tinha por hábito trair a esposa), Gaspar era um inimigo pessoal do marechal. Com isso, o militar teria optado por derrubar a monarquia. A presença de monarquistas atuando nos primeiros anos do sistema republicano no país não era raro. Além do próprio Deodoro, Rodrigues Alves, Afonso Pena, barão do Rio Branco e Joaquim Nabuco, por exemplo, eram simpatizantes da monarquia.

            Tanto Deodoro quanto Mariana procuravam favorecer os amigos com indicações para altos cargos em bancos ou empregos bem remunerados de forma geral. Já com relação à intimidade, Mariana nutria carinho e admiração pela família imperial brasileira. Este fato ajuda a entender o motivo de ter ordenado a permanência dos retratos dos membros da antiga corte em um dos salões do Itamaraty. Um dos projetos públicos mais relevantes de Mariana da Fonseca foi a criação de uma escola para meninas pobres e órfãs. Além do ensino primário, a instituição ensinava habilidades úteis para uma dona de casa.

            O mandato do Marechal Deodoro da Fonseca durou dois anos, findando quando este cedeu às pressões de grupos militares. O também Marechal Floriano Peixoto o substituiu na cadeira presidencial. Problemas de saúde também contribuíram para a curta duração do governo de Deodoro. Médicos do primeiro presidente do país recomendaram a este procurar tratamento na França. Entretanto, Mariana da Fonseca não permitiu a viagem do marido quando soube que uma das amantes do mesmo estaria no mesmo navio. Deodoro ficou na cidade do Rio de Janeiro, então capital do país, onde veio a falecer, no ano de 1892. Já Mariana morreu no ano de 1905, 13 anos depois da morte do marido, aos 79 anos de idade e sem nunca ter tido um filho.

Conclusão

            Mariana da Fonseca foi a primeira mulher a assumir o posto de primeira-dama no Brasil. Tal termo não era muito comum em um país onde a república foi proclamada à força. Este fato ajuda a entender o motivo de Mariana gostar de ser chamada de baronesa. Se Mariana não tivesse sido a esposa do primeiro presidente do Brasil, tal fato não chamaria a atenção, mas como estamos falando da esposa de um presidente, a situação é outra. Mariana é apenas mais uma dentre os muitos monarquistas que aturam na consolidação da estrutura republicana em seus primeiros anos.

Referências:

– COSTA, Emília Viotti da. Da Monarquia à República: momentos decisivos. 9ª ed. São Paulo: Editora UNESP, 2010. 524p.;

– ELIAS, Rodrigo. Herança do Império. Revista de História da Biblioteca Nacional. Revista de História da Biblioteca Nacional, ano 8, nº 86, p. 24-26, novembro 2012;

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/almanaque/filha-de-militar-e-fa-da-monarquia-mariana-da-fonseca-a-primeira-a-assumir-o-posto-de-primeira-dama-no-pais.phtml visualizado no dia 07/09/2022.

Como citar este artigo:

– ALVES, Marllon. Primeiras-damas do Brasil (Parte I): Mariana da Fonseca – uma monarquista em um espaço republicano. In: Gênero e História. Disponível em https://generoehistoriacom.wordpress.com/2022/09/09/primeiras-damas-do-brasil-parte-i-mariana-da-fonseca-uma-monarquista-em-um-espaco-republicano/ publicado no dia 09/09/2022.