
Por Marllon Alves
A primeira-dama do Brasil tema deste texto foi alçada a este posto durante um período da história que ficou conhecido como “República da espada”. Foi uma fiel defensora do mandato de seu marido em um contexto onde a república ainda estava se consolidando no país e revoltas eclodiam de quase todas as partes do Brasil. Seu comportamento como primeira-dama e a sua atividade como caricaturista geraram inúmeras críticas por parte de seus contemporâneos, inclusive de adversários políticos do esposo.
Nair de Teffé nasceu em berço aristocrático no ano de 1886 em Petrópolis, três anos antes do golpe militar republicano que pôs fim ao período imperial brasileiro. Seu pai era o barão de Teffé, herói na Guerra do Paraguai (1864-1870), a quem o acompanhou em viagens pelo mundo quando este exercia os ofícios de cientista e diplomata. Desta forma, acompanhou de perto a belle époque [1]de Paris, onde começou a se dedicar à caricatura. Nair começou desenhando os narizes e rostos das freiras do colégio Sante Ursule e continuou aperfeiçoando sua prática com as pessoas que as visitava e os transeuntes das praças da cidade de Petrópolis. Porém, suas caricaturas geravam situações não muito agradáveis. Nair era elogiada por ser mulher e desenhar caricaturas, uma vez que na época esta atividade era vista como exclusivamente masculina. Mas a ironia que Rian (pseudônimo que a caricaturista adotou. Este é o seu nome escrito de trás para frente) expressava em seus traços trouxe advertências. Isso porque as caricaturas de Nair deixavam claro os afetos e desafetos da caricaturista.

Assim como as famílias cariocas tradicionais e detentoras de alto poder aquisitivo, os Teffé passavam os meses de verão em Petrópolis e tinham o hábito de andar a cavalo pela manhã. Nestes passeios, pessoas iam se juntando ao grupo pelo caminho e longas comitivas de cavaleiros eram formadas. Conhecido por todos, o barão de Teffé fazia estes passeios quase sempre acompanhado de sua filha Nair e também pelo então presidente e Marechal Hermes da Fonseca, sobrinho do também Marechal Deodoro da Fonseca. Hermes havia ficado viúvo recentemente e estes passeios a cavalo eram como uma terapia. Foi nestes passeios que o marechal acabou se apaixonando por Nair, que de inicio não levou o assunto a sério. A situação levou Nair a uma crise de risos quando em um destes passeios, no ano de 1913, o então presidente a pediu em casamento. Os risos não eram de arrogância, mas de surpresa porque o marechal havia ficado viúvo seis meses antes deste episódio, quando a tradição dizia que o luto fosse feito por pelo menos um ano. Além disso, os dois nunca haviam conversado intimamente e Hermes da Fonseca era 31 anos mais velho do que Nair. Apesar de tudo isso, o casamento entre ambos ocorreu em dezembro de 1913, quando muita gente criticava a atitude do presidente.
Não demorou muito para perceber que Nair de Teffé não era uma primeira-dama “convencional”. Antes de se casar, Nair pediu a Hermes para que este não a impedisse de continuar fazendo suas caricaturas. O pedido foi atendido. Em uma tarde, durante um páreo no Hipódromo da Gávea, Nair protagonizou um “quase flerte”. O ex-presidente da Argentina Julio Roca foi convidado a participar da festa no Derby Club, cuja programação incluía um páreo em sua homenagem. Julio Roca ganhou a aposta e, encantado com Nair, deu-lhe todo o prêmio conquistado. Sem nenhum pudor, a caricaturista e primeira-dama começou a pensar em como usaria o prêmio. Entretanto, seu pai, indignado, mandou a filha devolver o dinheiro, argumentando “que uma moça decente não recebia dinheiro acompanhado de elogios” (RODRIGUES, 2011: p. 64).
Entretanto, o episódio que trouxe de fato grande repercussão foi a festa que Nair deu no palácio do Catete, até então residência oficial do Presidente da República. O mandato de Hermes da Fonseca estava chegando ao fim e a primeira-dama desejou dar uma festa que seria como uma despedida do mandato de seu esposo. Cansada de assistir as cerimônias oficiais que não mostravam a cultura brasileira, Nair preparou uma surpresa que se tornou um escândalo nacional. A caricaturista chamou o compositor Catulo da Paixão Cearense para acompanhá-la, com seu violão, na apresentação da música que considerava a mais brasileira de todas, o maxixe Corta-Jaca, de Chiquinha Gonzaga. Era a junção de duas coisas explosivas: o violão, considerado até então instrumento da malandragem; e o maxixe, ritmo popular considerado sensual. A repercussão foi grande e negativa, fazendo com que Rui Barbosa registrasse no diário do Congresso Nacional um violento pronunciamento: “Uma das folhas de ontem estampou em fac-símile o programa da recepção presidencial em que diante do corpo diplomático, da mais fina sociedade do Rio de Janeiro, aqueles que deviam dar ao país o exemplo das maneiras mais distintas e dos costumes mais reservados elevaram o Corta-Jaca à altura de uma instituição social. Mas o Corta-Jaca de que eu ouvira falar há muito tempo, que vem a ser ele, Sr. Presidente? A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba. Mas nas recepções presidenciais o Corta-Jaca é executado com todas as honras da música de Wagner (…)” Tal pronunciamento era uma mistura de critica política e aquilo que nos dias atuais é chamado de racismo cultural. Curiosamente, Hermes da Fonseca e Rui Barbosa foram adversários nas eleições em que o primeiro foi eleito o novo Presidente da República. A eleição de Hermes da Fonseca significou a volta dos militares ao poder, ao passo que “a candidatura de Rui representava o incentivo ao funcionamento regular das instituições republicanas e a sustentação das lideranças civis no exercício do governo – era a campanha “civilista”” (SCHWARCZ e STARLING, 2015: p. 330).
Nair de Teffé dedicou sua vida ao marechal, acompanhando de perto todas as situações que o mesmo enfrentou em sua vida pública, desde a construção do bairro de Marechal Hermes, no Rio de Janeiro, até as crises políticas enfrentadas pelo então presidente durante a Revolução de 1922. E quando alguém duvidada da inteligência de Hermes da Fonseca, Nair contra-argumentava, exaltando a dedicação do marido aos livros e especialmente aos clássicos gregos. Nair foi a principal fonte de segurança para o marido até a morte deste, no ano de 1923.
Com a morte do Marido, Nair tornou-se melancólica, mas tentou reagir. A agora ex-primeira-dama produziu eventos em Petrópolis, especialmente peças teatrais, onde participou como atriz, diretora e autora. Após criar a Trupe Rian, escreveu e dirigiu O futurismo na caricatura, onde a renda em Petrópolis foi aplicada em obras sociais. De volta ao Rio de Janeiro, na década de 1930, Nair fixou-se em Copacabana e com a herança do pai, morto em 1931, comprou um terreno e nele construiu um cinema em homenagem ao barão. Porém, a tristeza por ter que ir morar no Hotel Glória em 1946 e não ter conseguido o desejado apartamento na Rua Paissandu, que ela adorava, levou a mesma à depressão e, segundo seus amigos, aos jogos de azar. O vicio fez Nair perder uma ilha em Angra dos Reis chamada Francisca, que havia sido um presente de Hermes da Fonseca.

Nos anos seguintes, Nair adotou três crianças e foi morar na região rural de Pendotiba, em Niterói, optando por viver uma vida reclusa. Vivendo sob condições econômicas difíceis, lutando por todos os meios para ter uma velhice tranquila. Em 1970 o então presidente Emílio Garrastazu Médici reconheceu que Nair deveria receber integralmente a pensão de Hermes da Fonseca, luta na qual se dedicava desde a morte do marido. Após ter conquistado este direito, voltou a residir em área urbana, no bairro de Icaraí, em Niterói. Nair de Teffé morreu em 10 de junho de 1981, mesmo dia em que completou 95 anos de idade.
Conclusão
Nair de Teffé não foi uma primeira-dama “tradicional” porque não se comportou da forma que a sociedade de então dizia que a esposa de um presidente deveria se comportar. Apesar do contexto em que se casaram, Nair e Hermes da Fonseca se amaram genuinamente e esta foi uma companheira incondicional para seu esposo. Além de se dedicar à caricatura, contribuindo para que outras mulheres ingressassem neste ramo, Nair exerceu muitas atividades culturais, que iam desde a produção de peças teatrais a criação de um cinema. Quando morreu, Nair quase nada lembrava a primeira-dama que foi no passado, mas seu legado continua intacto até os dias atuais.
Notas:
[1] Ao contrário do que alguns podem pensar, este não foi um movimento, mas sim o espírito de uma época. Nascido em Paris, capital da França, é caracterizado por um conjunto de hábitos (principalmente culturais), individuais e coletivos, de pessoas e famílias com alto poder aquisitivo. A belle époque chegou ao Brasil, especialmente, no Rio de Janeiro, capital do país, no século XIX. Os mais abastados do país gostavam de se divertir e vestir “à francesa”. Além disso, ruas do centro da cidade, como por exemplo a Rua do Ouvidor, foram inspiradas nas ruas parisienses.
Referências:
– JÚNIOR, Walcler de Lima; PECHMAN, Robert M. Flirts no footing da Avenida Central. Revista de História da Biblioteca Nacional, ano 1, nº 5, p. 34-37, novembro 2005;
– RODRIGUES, Antonio Edmilson Martins. Ironias da vida. Revista de História da Biblioteca Nacional, ano 6, nº 65, p. 62-65, fevereiro 2011;
– SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: uma biografia. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. 694p.;
– https://www.bbc.com/portuguese/geral-56926480 visualizado no dia 12/09/2022.
Como citar este artigo:
– ALVES, Marllon. Primeiras-damas do Brasil (Parte II): Nair de Teffé – uma pioneira no ingresso de mulheres no mundo da caricatura no Brasil. In: Gênero e História. Disponível em https://generoehistoriacom.wordpress.com/2022/09/16/primeiras-damas-do-brasil-parte-ii-nair-de-teffe-uma-pioneira-no-ingresso-de-mulheres-no-mundo-da-caricatura-no-brasil/ publicado no dia 16/09/2022.

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