A problemática Helena de Manoel Carlos

Taís Araújo deu vida a Helena em Viver a Vida (2009). Imagem: Rede Globo/Divulgação.

Por Marllon Alves

            Manoel Carlos foi um autor que fez história na teledramaturgia brasileira. Autor de novelas e minisséries, o novelista em questão tinha como marca registrada o batismo de suas protagonistas com o nome Helena. Entretanto, a Helena de Viver a Vida (2009) mostrou que Maneco não mais escrevia tão bem como outrora.

            Manoel Carlos tem no currículo novelas que são verdadeiros clássicos. Baila Comigo (1981), Felicidade (1991), História de Amor (1995), Por Amor (1997), Laços de Família (2000), Mulheres Apaixonadas (2003) e Páginas da Vida (2006) são apenas alguns exemplos. Independente de os laços serem de família ou não (me perdoem pelo trocadilho), o fato é que as Helenas do Maneco tinham como ponto alto as dores e as delícias da maternidade. Elas eram capazes de enfrentar o mundo caso tivessem uma filha especial, como a Helena de Páginas da Vida (2006), que adotou uma criança com Síndrome de Down. Elas também eram capazes de atitudes extremas para verem seus filhos felizes ou salvar a vida dos mesmos. Neste contexto, destaque para a Helena de Por Amor (1997), que trocou seu filho saudável pelo filho natimorto da filha para que esta não experimentasse a terrível dor de perder um filho, podendo ser ampliada pelo fato de ter seu útero retirado por complicações no parto. Já a Helena de Laços de Família (2000) abdicou de um amor quando percebeu que este e a filha estavam apaixonados. E quando esta mesma Helena havia encontrado um novo amor, se viu tendo que abandonar o mesmo porque a filha havia sido diagnosticada com leucemia. A solução que esta encontrou foi se relacionar com o pai biológico da mesma e gerar um bebê que viesse salvar a vida da filha.

            Além de serem capazes de atitudes extremas em prol de seus filhos, estas mesmas Helenas também eram capazes de mentirem e omitirem para proteger os mesmos. A Helena de Por Amor (1997) só queria que a verdade da troca dos bebês viesse à tona quando morresse e o diário que tinha fosse descoberto. Porém, em uma troca acidental de bolsas o diário de Helena acaba caindo nas mãos de Maria Eduarda, que descobre toda a verdade. Em Laços de Família (2000), Camila sempre achou que o pai de Fred era o mesmo que o seu. Entretanto, quando foi diagnosticada com leucemia, Camila descobre que na verdade seu pai é um primo de sua mãe. O pai da mesma estava vivo e foi com ele que Helena teve o bebê que iria curar Camila. A Helena de Páginas da Vida (2006), apesar de indignada, nada fez quando a avó de sua filha adotiva contou para todos que a criança havia morrido poucos dias após o parto, chegando a providenciar uma certidão de óbito falsa para a neta.

Taís Araújo e José Mayer formaram um par romântico em Viver a Vida (2009). Imagem: Divulgação/TV Globo.

            A Helena de Viver a Vida (2009) era mais jovem que as anteriores e não tinha filhos, tendo feito um aborto quando era mais jovem, sofrido um aborto no decorrer da trama e tendo um filho ao fim do folhetim. Este fato chamou a atenção, visto que a maternidade sempre foi bastante explorada por Manoel Carlos através de suas Helenas. Porém, atentando para o fato de que a vida da mulher não se resume a maternidade, a história desta Helena, interpretada por Taís Araújo, tem um ponto a favor da mesma. A protagonista desta mesma trama era a mais velha de uma família de três irmãos. A irmã do meio tinha problemas com drogas e o irmão caçula tinha dúvidas com relação ao seu futuro no mercado de trabalho. Os pais eram separados e a mãe estava no segundo casamento. A mãe de Helena era dona de uma pousada Búzios, município litorâneo no estado do Rio de Janeiro. Em Viver a Vida (2009), Helena é uma modelo no auge de sua carreira que abandona as passarelas a pedido de Marcos (José Mayer), um homem mais velho que havia saído de um casamento de muitos anos com Teresa (Lília Cabral), com quem teve as filhas Luciana (Alinne Moraes), Isabel (Adriana Birolli) e Mia (Paloma Bernardi). Luciana é uma aspirante a modela e não tem simpatia por Helena, Isabel observa as pessoas e seus defeitos para usar contra as mesmas no momento oportuno. Por uma vez, Mia, que é adotada, é uma menina muito gentil, educada e se sente insegura por ainda não ter tido relações sexuais.

            Helena, Luciana e um grupo de modelos viajam a trabalho para a Jordânia. Nesta viagem, Luciana provoca Helena constantemente. Helena perde a paciência com a enteada e a proíbe de a acompanhar em seu carro exclusivo. Como Helena era uma supermodelo, ela tinha este privilégio. Luciana viaja então na companhia de outras modelos e o ônibus em que as mesmas se encontravam se envolve em um grave acidente. A vida de Luciana e Helena passa por uma grande reviravolta após este episódio. Luciana fica tetraplégica e precisa aprender a lidar com sua própria condição. Embora não fosse ela quem estivesse dirigindo o ônibus em questão, Helena passa a conviver com o remorso, torna-se alvo do ódio de Teresa e vê o seu casamento com Marcos ruir. Helena se vê em um triângulo amoroso ao se envolver com Bruno (Thiago Lacerda), homem que o telespectador descobrirá no decorrer da trama ser filho de Marcos, cujo casamento com Helena chega ao fim.

Luciana (Alinne Moraes) e Tereza (Lília Cabral) em cena de Viver a Vida (2009). Imagem: Reprodução.

            A sinopse de Viver a Vida (2009) é muito interessante, mas há uma grande diferença entre a teoria e a prática. A Helena vivida por Taís Araújo não conquistou a simpatia do público e um texto que parecia ter tudo para dar certo revelou-se vazio e superficial. Conforme dito neste texto, apresentar ao telespectador uma Helena não vinculada à maternidade é um fato que merece destaque, uma vez que a mulher não deve ter a maternidade como única opção. A questão é que tal protagonista não tinha na prática um texto forte o suficiente para prender a atenção do público. Enquanto Helena perdia espaço na trama em que era protagonista, a personagem Teresa crescia no folhetim. Este mesmo personagem havia sido uma grande modelo no passado quando largou a profissão para se casar com Marcos (assim como Helena, ele também pediu a primeira esposa para abandonar as passarelas). Quando Luciana fica tetraplégica, passa a viver em função da filha. Além disso, tem de conviver com as constantes brigas arrumadas por Isabel e apesar de ter sido traída inúmeras vezes, demorou para aceitar o divórcio.

            Além de Teresa, a personagem Luciana também cresce bastante em Viver a Vida (2009). Ela era comprometida com o arquiteto Jorge, mas no decorrer da trama se envolve com o médico Miguel, irmão gêmeo de Jorge (ambos os personagens foram interpretados por Mateus Solano). Ingrid (Natália do Vale), mãe dos gêmeos, aprovava a relação de Luciana com Jorge, mas após o acidente sofrido pela nora, ela passa a se opor a relação. Isso porque Ingrid achava inapropriado um arquiteto ter que empurrar uma cadeira de rodas o tempo todo. Quando Luciana e Jorge se envolvem em uma relação séria, Ingrid também irá se opor a este relacionamento porque julgará inadequado um médico ter uma esposa cadeirante. Por conta da nova condição da nora, a mãe de Jorge e Miguel achará que a mesma não poderá ter uma vida sexual plena e nem engravidar. Ingrid pedirá a Luciana para não se casar com Miguel. Este fato chegará aos ouvidos de Teresa, que terá uma forte discussão com Ingrid, sua então amiga. A mãe de Jorge e Miguel era extremamente controladora e achava que nenhuma mulher era digna de casar com seus filhos. Desta forma, Ingrid se intromete nas relações amorosas dos mesmos, gerando algumas situações desagradáveis. A história de Luciana cresce tanto que no fim da trama seu parto (ao contrário do que Ingrid acreditava, Luciana consegue engravidar e dar à luz a gêmeos) é exibido e o de Helena, que engravida de Bruno, não.

Taís Araújo como a Helena de Viver a Vida (2009). Imagem: Reprodução.

            A Helena de Viver a Vida (2009) decepcionou os fãs de Taís Araújo e também aqueles que gostam das novelas de Manoel Carlos. Isso porque de um lado havia um novelista que até então já havia feito história na teledramaturgia brasileira. Foi em Laços de Família (2000) que o Brasil chorou ao ver Camila raspando os cabelos por conta de uma leucemia e o Brasil acompanhou de perto o dia em que Fernanda (Vanessa Gerbelli) e Téo (Tony Ramos) foram baleados em Mulheres Apaixonadas (2003). Em Páginas da Vida (2006), novela anterior a Viver a Vida (2009), o drama de Nanda (Fernanda Vasconcellos) sensibilizou o público de uma tal forma que decidiram que ela ficaria até o fim da novela. Como ela morre e a sua morte é essencial para o desenrolar da trama, a solução encontrada foi “transformá-la” em um espirito, que sempre acompanhava os filhos e depois passou a acompanhar a mãe. E lembrando que os clássicos citados neste parágrafo são do ano 2000 em diante. Se todos os momentos memoráveis escritos por Maneco fossem acrescidos aqui, este parágrafo ficaria ainda maior. Do outro lado há Taís Araújo, nome que naquele momento já era forte na dramaturgia brasileira. Até 2009, Taís Araújo havia interpretado Xica da Silva em novela homônima produzida pela extinta Rede Manchete em 1996. Esta novela lançou Taís Araújo ao estrelato. Ela foi a segunda atriz negra a protagonizar uma novela na teledramaturgia brasileira. A primeira havia sido Ruth de Souza, que deu vida a Clóe em A Cabana do Pai Tomás (1969). Sim, demorou-se quase trinta anos para uma mulher negra protagonizar uma novela no Brasil pela segunda vez. Em 2004, Taís Araújo fez história ao ser a primeira atriz negra a protagonizar uma “novela das sete” da TV Globo. Ela deu vida a Preta em Da Cor do Pecado (2004) e dois anos depois interpretou a vilã cômica Ellen em Cobras & Lagartos (2006), um dos personagens mais populares de sua carreira. Quando foi confirmado que Taís Araújo viveria a próxima Helena de Manoel Carlos, muita gente se animou. Taís Araújo foi a primeira mulher negra a protagonizar uma novela do horário nobre e foi também a única Helena negra de Maneco. Vale lembrar também que nesta época muitas atrizes sonharam em interpretar uma Helena e um número reduzido de mulheres conseguiu este feito. Somente Regina Duarte realizou esta façanha em três ocasiões. Além disso, interpretar uma Helena era a consagração da carreira de uma atriz.

            Os telespectadores e a própria Taís Araújo ficaram descontentes com a Helena de Viver a Vida (2009). Aliás, a atriz em questão nunca fez questão de esconder sua imensa frustração com tal personagem. Em recente entrevista para a revista Piauí, Taís afirmou que a Helena deveria ter sido a personagem da Lília Cabral por conta de sua relação com as filhas. Para piorar a situação, Taís Araújo recebeu muitas críticas por conta de sua personagem. Algumas destas vieram de grandes jornais e da crítica especializada. Na medida em que lia os capítulos, a protagonista de Viver a Vida (2009) não encontrava sua personagem, levando-a ao desespero. Taís não tinha um texto para explorar sua Helena. Alinne Moraes e Marcelo Valle, que estavam no elenco da novela em questão, foram os únicos que se solidarizaram com Taís. Além disso, a mesma recebeu a ajuda de Aracy Balabanian, que não estava no elenco da dita novela, com quem repassava diariamente os textos na casa de Aracy na Gávea, bairro nobre da cidade do Rio de Janeiro. Apesar de ter ficado extremamente frustrada, Taís Araújo entende que o fracasso de sua Helena não foi culpa sua. Ela acredita que o erro foi tratar uma Helena negra como branca, como se o Brasil vivesse uma democracia racial. Taís acredita que pode ter sido ingenuidade sua, do Maneco e também do diretor Jayme Monjardim achar que o negro passeia livremente por todos os lugares como o branco faz, o que não é verdade.

            Em entrevista ao programa Roda Viva, Taís Araújo confessou que o fracasso de sua Helena lhe trouxe uma grande frustração e tristeza que duraram aproximadamente dois anos. Ela também achou que depois dela viriam outras atrizes negras, algo que de fato aconteceu, mas que demorou bastante. Taís Araújo só viria a se recuperar profissional e pessoalmente com a personagem Maria da Penha de Cheias de Charme (2012). Em participação no programa global Encontro, até então apresentado por Fátima Bernardes, Taís disse que a frustração com sua Helena a fez refletir acerca do tipo de atriz que queria ser.

            Apesar de ter muitas críticas, Taís Araújo reconhece os pontos positivos de sua Helena. Ela sempre realça o pioneirismo de sua personagem em questão, sendo a primeira negra a protagonizar uma novela do horário nobre global e também a primeira e única Helena negra de Manoel Carlos. Durante o processo de construção de sua personagem, Taís quis que sua Helena tivesse cabelos crespos e a ideia foi aprovada pelo autor. Desta forma, este foi o primeiro papel de Taís Araújo em que ela não tinha os cabelos alisados ou trançados. Este fato trouxe representatividade para as mulheres negras brasileiras, que se reconheceram na Helena do Maneco. Além disso, em conversa com o autor de Viver a Vida (2009), Taís Araújo não viu necessidade de sua personagem, uma mulher negra, explicar a sua origem e a forma como se tornou uma supermodelo. A ideia era mostrar uma mulher negra que não estivesse vinculada a violência ou até mesmo a miséria. Entretanto, ambos caíram no mito da democracia racial. Isso porque o racismo atravessa a vida dos negros brasileiros, e no caso de mulheres negras, estas são atravessadas pelo racismo e também pelo machismo.

Conclusão

            A Helena interpretado por Taís Araújo não teve o sucesso esperado porque seu texto não era forte o suficiente para prender a atenção do telespectador. Este fato fez com que a personagem Helena perdesse espaço na novela em que era protagonista. Apesar disso, Viver a Vida (2009) tem seus méritos ao escalar uma atriz negra para o papel principal cuja família era composta inteiramente por pessoas negras. Entretanto, o fato de o racismo não ser abordado no folhetim contribuiu para o enfraquecimento da personagem principal.

Referências:

https://hugogloss.uol.com.br/tv/novelas/tais-araujo-relembra-desespero-em-viver-a-vida-e-bastidores-traumaticos-com-diretor-de-xica-da-silva-era-abusivo/ visualizado no dia 15/03/2023;

Visualizado no dia 15/03/2023;
Visualizado no dia 15/03/2023.

Como citar este texto:

ALVES, Marllon. A problemática Helena do Manoel Carlos. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2023/03/24/a-problematica-helena-de-manoel-carlos/ publicado no dia 24/03/2023.

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