
As atrizes Eva Todor, Tônia Carreiro, Eva Wilma, Leila Diniz, Odete Lara, Cacilda Becker e Norma Bengell marcham contra a censura imposta pela ditadura militar, em 1968. Foto: Gonçalves / Agência O Globo.
Por Marllon Alves
Imposto em fins de março de 1964, uma ditadura civil-militar fez com que os brasileiros não vissem a democracia por 21 anos. Além da censura política, o Golpe de 1964 foi também um golpe moral, onde assuntos que eram entendidos como uma “ofensa” a moral e os bons costumes eram censurados. Neste contexto, mulheres que ousaram sair da esfera doméstica para combater o regime imposto foram duramente torturadas por ousarem adentrar em uma esfera que era entendida como masculina.
Com o objetivo de “salvar o Brasil do comunismo”, militares com o apoio de parte da sociedade civil destituíram João Goulart do posto de Presidente da República. A promessa era de que a situação seria provisória, mas o que começou em 1964 findou em 1985. Jornais, revistas e emissoras de televisão que noticiassem fatos contra o regime imposto eram censurados. Aqueles que lutassem contra este mesmo regime eram barbaramente torturados, podendo ser mortos. Aliás, existem até hoje pessoas que desapareceram neste contexto e nunca foram encontradas. Além da censura política, havia também a censura moral. Desta forma, assuntos e movimentos que visavam combater o racismo, que defendiam outros modelos de família e que colocassem o homem e a mulher fora de seus “papéis tradicionais” eram censurados. Com isso, mulheres que lutaram contra a ditadura foram barbaramente torturadas.
A presença de mulheres na luta armada contra a ditadura, por exemplo, não foi insignificante. 18% dos guerrilheiros eram mulheres e no Araguaia este número é de 20%. Estas mesmas mulheres eram estudantes universitárias, frequentadoras de bares e lugares de debates organizados pelo movimento estudantil ou pela igreja que tinha ligações com a Teologia da Libertação. Ao colocar as mulheres que lutaram contra o regime como “desviantes”, a ditadura tentou reafirmar que o sexo feminino não teria capacidade de escolhas própria e nem de tomadas de decisões no âmbito político. A mulher deveria ser tutelada pelo homem. Nos registros de prisões, elas eram apresentadas como esposas, filhas, amantes e irmãs de homens procurados pela polícia. Dificilmente seus nomes eram destacados. A repressão tratou de construir em torno destas mulheres uma determinada imagem. As “loiras terroristas” eram constantes nos noticiários, sendo classificadas como “drogadas” ou “malucas”. Muitas foram internadas em manicômios “por se terem deixado seduzir pelo comunismo” (ROVAI, 2013: p. 117). Neste contexto, duas observações merecem ser feitas. A primeira é que o fato de serem considerado o “sexo frágil” intensificou ainda mais a violência sobre seus corpos. O objetivo era reprimir a escolha de terem agido “como homens” ao pegarem em armas. A “condição de comunistas” era relacionada à (imoral) socialização das mulheres como propriedade coletiva, legitimando a humilhação e a violação de seus corpos nos porões dos órgãos de repressão. Tais mulheres ousaram abandonar o espaço doméstico e deveriam ser rigidamente punidas por isso.
É importante destacar que algumas mulheres reforçaram a desigualdade de gênero para serem aceitas nos grupos de guerrilha. Para assumirem o posto de liderança nestas organizações (um feito raro), estas mulheres assumiram o discurso de que o lugar de comando no mundo político – inclusive nos movimentos de esquerda – era reservado aos homens e por conta disso passaram a agir como figuras sem “qualidades femininas”. Tais mulheres abriram mão de relações afetivas e de filhos para assumirem postos de liderança; agindo “como homens”, mostrando coragem e ousadia, qualidades consideradas masculinas. Elas se comportaram, em certa medida, como sujeitos assexuados ou masculinizados, apresentando postura séria e rígida. Esta era uma atitude paradoxal, pois “romperam com preconceitos com relação ao papel feminino na sociedade, porém, mantendo os preconceitos conservadores nos grupos armados” (ROVAI, 2013: p. 119).
Além de agirem de forma direta no combate a ditadura, elas também agiram de forma indireta no combate a tal regime, mesmo não sendo filiadas a nenhuma organização. Elas usaram suas casas para acolher desconhecidos, esconder armas, objetos e documentos; levaram mensagem para membros de grupos clandestinos ou circularam entre a cadeia e a família, atuando como intermediárias. Destaque para aquelas que ofereceram o que Maria Cláudia Badan Ribeiro (2011) chamou de “socorro vermelho”: ofereceram casas, remédios, informações e documentações falsas aos membros ALN (Ação Libertadora Nacional).
Recrutadas por movimentos estudantis, as mulheres que atuaram em ações descritas no parágrafo anterior não tinham como objetivo, pelo menos no primeiro momento, de derrubar a ditadura e, em alguns casos, elas não tinham ciência do que acontecia de fato. O que as moviam era o afeto que sentiam por seus maridos, irmãos e filhos, por exemplo, que estavam encarcerados. Entretanto, esta atuação aumentou a oposição ao regime imposto, contribuindo para seu fim a médio e longo prazo. Estas mulheres também ofereceram suas casas para os militantes se reunirem e promoveram festas de aniversários em presídios, inventaram histórias para os militares, passaram-se por namoradas ou parentes dos presos políticos nas visitas às prisões, mobilizaram a vizinhança para arrecadar roupas e obter informações e usaram seus corpos para levar bilhetes aos presos e membros de organização. Por vezes, estas mulheres iam acompanhadas pelos filhos, sendo levados pela mão ou no colo até as delegacias. Esta imagem passava a ideia de mães protetoras, zelosas e alheias ao mundo exterior. Esta visão colocava-as acima de qualquer suspeita e assim conseguiram informações, visitas, notícias e até mesmo relaxamento de pena. Além disso, a prática de oferecer café aos soldados e tratar amigavelmente aqueles que vigiavam suas casas conseguiram impedir em muitas situações que suas residências fossem invadidas, poupando a vida das pessoas que lá estavam. Estas mulheres se arriscaram.

Dilma Rousseff durante audiência em um tribunal militar, em 1970. Imagem: Arquivo Nacional da Comissão da Verdade.
Por conta da atuação contra a ditadura, algumas mulheres foram barbaramente torturadas, bulinadas e até mesmo estupradas. Dilma Rousseff, a primeira mulher a chegar à Presidência da República no Brasil, pagou o preço por lutar contra o regime em vigor. Com 22 anos na época, Dilma integrava o grupo VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária – Palmares), uma organização de cunho marxista-leninista que participava da luta armada contra o regime autoritário imposto no Brasil. Dilma Rousseff, junto com outros dois militantes, eram responsáveis pelo arsenal da VAR-Palmares, que ficava armazenado na capital paulista. Sendo torturada no Rio de Janeiro e em São Paulo, Dilma também foi torturada em Minas Gerais após os militares interceptarem bilhetes de Ângelo Pezzuti, uma das lideranças do grupo que Dilma participava, que tinham a ex-presidente como destinatária. Ela foi colocada no pau de arara, levou choques elétricos e um soco na mandíbula, arrancando-lhe um dente e tendo sequelas até hoje por conta deste fato. Em São Paulo, Dilma também experimentou a palmatória e emagreceu bastante porque não se alimentava bem. Ela também apresentou uma hemorragia no útero pela primeira vez, tomou uma injeção e não foi agredida neste dia. Em Minas Gerais, Dilma apresentou mais uma vez uma hemorragia interna. Ela tomou um comprimido e uma injeção. Entretanto, lhe davam choques elétricos e depois paravam. Dilma precisou fazer um tratamento no Hospital das Clínicas. As agressões foram tantas e sempre tão violentas que Dilma Rousseff achou que não sobreviveria.
Outra pessoa conhecida nacionalmente e que foi torturada por militares é a jornalista Miriam Leitão. Morando no Espírito Santo no começo dos anos 1970 e vivendo com um estudante de Medicina, Miriam chegou a ser presa. Neste período, foram jogados sobre ela cães raivosos que ficavam ainda mais enfurecidos quando os soldados gritavam: “Terrorista, terrorista!”. De repente, os policiais que a cercavam começaram a cantar: “Amélia não tinha a menor vaidade/Amélia que era mulher de verdade”. Foi neste momento que a jornalista entendeu o motivo de sua prisão: Amélia era o codinome que o chefe de Miriam de ala no PCdoB (Partido Comunista do Brasil) havia escolhido para ela.
Miriam Leitão foi levada para uma sala sem móveis e com as janelas cobertas, onde lhe ordenaram que tirasse a roupa. Miriam conta que um “clima de estupro iminente” se instalou. Os homens gritavam e ameaçavam atacá-la. Antes disso, um outro homem disse: “Posso dizer a todos eles para irem pra cima de você, menina. E aqui não tem volta. Quando começamos, vamos até o fim”. A jornalista não sabe quanto tempo essa situação durou e quando os homens saíram, um destes em seguida voltou com uma enorme serpente e antes que Miriam visualizasse a mesma, as luzes se apagaram. Foram momentos de pavor que pareciam não terminar. A jornalista levou tapas, chutes, puxões de cabelo e pancadas na cabeça. Ficou dois dias sem comer e como não se alimentava bem e regularmente, foi de 50 kg para 39 kg em três meses. Miriam Leitão estava com um mês de gestação quando foi presa e tinha grandes chances de perder o bebê e se o mesmo sobrevivesse, poderia ter algumas sequelas. Isso porque a mesma estava deprimida, mal alimentada, nervosa, anêmica e com “carência aguda de vitamina D por falta de sol”. Em uma noite, antes de sair da prisão, foi obrigada a tirar a roupa mais uma vez. Ela foi apalpada, alisada e viu seu corpo ser tratado como um brinquedo. Um dos militares ordenou que ela se deitasse com ele, que não consumou nada, “mas estavam no limite do estupro”. Miriam sobreviveu, seu filho nasceu saudável e Marcelo, seu marido, foi expulso do curso de Medicina. Ele se tornou jornalista, assim como Miriam Leitão.
Muitos são os relatos de mulheres que foram violadas ou foram ameaçadas de violência sexual nos porões da ditadura. Lylia Guedes, ex-militante do Partido Comunista Revolucionário (PCR), conta que as ameaças de estupro eram constantes. Em uma ocasião, foi interrogada pelo Miranda, “o chefão dos torturadores”. Ela apanhou de palmatória nas mãos, nos pés e em uma das ameaças de violência sexual, o delegado a chamou, afirmou que ela estava muito magra e perguntou se ela estava tendo relações sexuais porque esta seria a melhor maneira de emagrecer. O delegado disse também que poderia alimentá-la bem, lhe engordar e depois a “faria emagrecer com a dieta do sexo”.
Há casos em que as ameaças de estupro ocorridas nos porões da ditadura se concretizaram. Foi o que aconteceu com Inês Etienne Romeu, ex-militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Inês foi barbaramente espancada, levou choques elétricos em várias partes do corpo (inclusive em regiões íntimas) e os militares lhe ofereceram a possibilidade de suicídio. Como se negou a tirar a própria vida, foi ainda mais castigada. O ‘Márcio’ invadia a cela onde Inês estava para “examinar” seu ânus e saber se o ‘Camarão’ havia tido relações com ela. Este mesmo ‘Márcio’ obrigou Inês a segurar seu pênis, enquanto se contorcia de forma obscena. Neste período, foi estuprada duas vezes por ‘Camarão’ e era obrigada a limpar a cozinha completamente nua, tendo que ouvir gracejos e obscenidades.
Conclusão
As mulheres aturam no combate a ditadura de diversas maneiras. Em alguns casos, este combate foi de forma direta e em outros não. Além disso, estas mulheres romperam com a ordem vigente ao adentrar espaços que não lhes eram destinados. Entretanto, elas não romperam com a mentalidade vigente de que alguns espaços eram masculinos. Há também aquelas que combateram o regime de forma indireta, usando das “características do sexo frágil” para obter informações, levar bilhetes com informações sigilosas aos encarcerados e impedir que militares vasculhassem suas casas, por exemplo. As mulheres que caíram nas mãos dos torturadores sofreram severas agressões físicas e psicológicas. O fato de serem mulheres não atenuaram a tortura, ainda que estivessem grávidas. Além das agressões, as mulheres tiveram seus corpos violados de diversas formas. Elas estavam sendo punidas por saírem da esfera privada do lar e adentrarem um ambiente que era entendido como masculino.
Referências:
https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/os-relatos-de-dilma-rousseff-sobre-tortura-na-ditadura-dor-que-nao-deixa-rastro.phtml visualizado no dia 29/03/2023;
https://congressoemfoco.uol.com.br/projeto-bula/nota/miriam-leitao-fala-sobre-tortura-vivida-na-ditadura-militar/ visualizado no dia 29/03/2023;
ROVAI, Marta Gouveia de Oliveira. O direito à memória: a história oral de mulheres que lutaram contra a ditadura militar (1964-84). Revista Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 5, n. 10, jul./dez. 2013. p. 108-132;
WASZAK, Aline Isabel. O Brazil não conhece o Brasil: a violência sexual na ditadura militar brasileira. 2019. Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização em Literatura Brasileira e História Nacional) – Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Curitiba, 2019.
Como citar este texto:
ALVES, Marllon. O modo como as mulheres foram tratadas nos Anos de Chumbo. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2023/03/31/o-modo-como-as-mulheres-foram-tratadas-nos-anos-de-chumbo/ publicado no dia 31/03/2023.

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