A mulher que omitiu ser trans para poder trabalhar na TV

Cláudia Celeste em pose para foto. Imagem: Reprodução.

Por Marllon Alves

Cláudia Celeste é considerada a primeira mulher transexual a trabalhar na televisão brasileira. Entretanto, em um primeiro momento, justamente para poder trabalhar na TV, fingiu ser uma mulher cis gênero. Porém, o segredo teve vida curta e Cláudia não teve outra saída, a não ser sair da novela da qual integrava parte do elenco.

            Cláudia Celeste nasceu Claudinor Alves e passou a aplicar hormônios femininos a partir dos 15 anos de idade. Ainda sob a identidade masculina de gênero, Cláudia Celeste passou pelo serviço militar obrigatório. Embora sua passagem pelas Forças Armadas tenha sido exemplar, Cláudia Celeste causou escândalo em um ambiente majoritariamente masculino. “E sempre ganhei prêmio, melhor praça da parada, minhas roupas todas engomadinhas, passava pó de arroz pra tirar o brilho, manteiga de cacau na boca, um escândalo (risos)! Eu tinha uma foto que me roubaram: eu de cabo do exército, em posição de sentido… E com a sobrancelha feita!”, relembrou em entrevista.

Cláudia Celeste em pose para foto. Imagem: Reprodução.

            Não se sabe ao certo quanto tempo durou a passagem de Cláudia Celeste pelas Forças Armadas e nem quando começou a trabalhar em salões de beleza. O fato é que esta carioca de Vila Isabel, bairro da zona norte da cidade do Rio de Janeiro, trabalhava em um salão de beleza da região quando estreou como dançarina no Beco das Garrafas em 1973, quando tinha 21 anos. Neste mesmo período, integrou o elenco da peça teatral O mundo é das Bonecas no Teatro Rival. Três anos depois, foi a vencedora do concurso Miss Brasil Pop. O sucesso de Cláudia Celeste como dançarina a levou para diferentes regiões do Brasil. Tamanho talento chamou a atenção do diretor de televisão Daniel Filho, que a convidou para atuar na novela Espelho Mágico (1977).

            Daniel Filho gravou algumas cenas com Cláudia Celeste, que chegou a atuar com Sônia Braga. Entretanto, no dia seguinte a primeira aparição de Cláudia na televisão, os jornais da época descobriram que a atriz era uma mulher trans (durante um tempo, foi feita uma distinção entre travesti e transexual. Há um tempo que se entende que não há diferença entre os termos. A expressão travesti é pouco usada na atualidade) e logo trataram de estampar este fato na primeira capa de seus respectivos jornais. “Antes, ninguém sabia que eu era travesti, nem Daniel Filho. Ninguém nunca me perguntou! E, como ficou muito ti-ti-ti, tiraram os capítulos que eu já tinha feito”. Devido à grande repercussão do fato, os capítulos que Cláudia Celeste já tinha gravado não foram ao ar. Além disso, a atriz foi tirada do elenco da novela em questão.

            A atitude da TV Globo em tirar Cláudia Celeste de Espelho Mágico (1977) pode ser encaixada naquilo que é chamado de “censura prévia”. Neste período, o Brasil vivia uma ditadura civil-militar desde 1964 e que findaria no ano de 1985. Além disso, o golpe que deu origem a esta mesma ditadura não foi somente político, mas também moral. Assuntos relacionados aos direitos das mulheres, dos homossexuais e a temática do divórcio, por exemplo, eram terminantemente proibidos. Para evitar ter seus materiais censurados e/ou ter que reformulá-los, a prática da “censura prévia” passou a ser utilizada. Produtores, diretores e jornalistas, por exemplo, autopoliciavam a si e as empresas para a qual trabalhavam, caso tivessem um cargo de liderança, quanto a abordagem de assuntos que desagradavam aqueles que estavam no poder. No caso, os militares, com o apoio de parte da sociedade civil.

Ziembinski como Stanislava em O Bofe (1972). Esta foi a primeira vez em que um homem atuou na televisão brasileira usando roupas do sexo oposto. Imagem: Reprodução/Memória Globo.

            Assuntos que fugiam ao padrão heteronormativo eram censurados e Cláudia Celeste não foi uma exceção. Na novela Assim na Terra Como no Céu (1970), Ary Fontoura deu vida a Rodolfo Augusto, um costureiro afeminado e caricato. Era o máximo que a ditadura permitia. E é curioso notar que durante muitos anos na televisão brasileira, mesmo com o fim da ditadura, os homossexuais foram retratados como figuras caricatas e afeminadas. Em 1972, Ziembinki deu vida a Velha Istanislava em O Bofe. Dois anos depois, este mesmo ator interpretou Conrad Mahler em O Rebu, novela que ganhou um remake em 2014. Este trabalho entrou para a história da teledramaturgia brasileira por algumas inovações tragas e também por imortalizar (e inspirar) a cena em que um corpo aparece boiando na piscina. Ao fim de uma trama complexa, descobre-se que foi Conrad Mahler quem matou Silvia (Bete Mendes). Isso porque a moça estava se relacionando com Cauê (Buza Ferraz), rapaz que vivia sob a proteção de Conrad. Ficou nas entrelinhas o relacionamento homoafetivo de Conrad e Cauê e o contexto político do Brasil ajuda a entender o motivo. Um fato que chama a atenção é que, mesmo com o fim da ditadura, casais do mesmo sexo, especialmente os que eram formados por dois homens, pareciam na prática dois amigos do que um casal de fato. Isso porque não havia entre eles uma mínima demonstração de afeto. Apesar dos avanços, os beijos entre casais do mesmo sexo ainda são um tabu na TV aberta.

            Cláudia Celeste só viria a fazer uma novela do começo ao fim em 1988, quando interpretou Dinorah em Olho por Olho, novela da extinta Rede Manchete. A ditadura havia findado em 1985 e desta forma, assuntos censurados voltaram a ser abordados. Neste contexto, vale destacar que na medida em que a ditadura se encaminhava para o fim, personagens hoje chamados de não-binários foram ganhando destaque de forma gradativa. Este fenômeno tornou-se mais acentuado com o fim do regime militar. Vale destacar também que a representação destes mesmos personagens não estava livre de preconceitos e estereótipos.

Conclusão

Cláudia Celeste fez história ao ser a primeira mulher trans a fazer parte do elenco de uma novela brasileira. O regime político da época não permitiu que Cláudia fizesse a novela Espelho Mágico (1977) até o fim. A atriz só teria essa oportunidade em 1988, três anos depois do fim da ditadura, quando integrou o elenco de Olho no Olho, da extinta Rede Manchete. Cláudia Celeste fez história na teledramaturgia em duas ocasiões: a primeira foi nos anos 1970, sendo a primeira mulher trans a fazer parte de uma telenovela; e a segunda foi na década seguinte, quando foi a primeira mulher trans a fazer uma novela do começo ao fim.

Referências:

https://gshow.globo.com/tudo-mais/tv-e-famosos/noticia/saiba-quem-e-claudia-celeste-primeira-atriz-transexual-a-fazer-novelas-brasileiras.ghtml visualizado no dia 10/05/2023;

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/claudia-celeste-primeira-travesti-aparecer-em-uma-novela-brasileira.phtml visualizado no dia 10/05/2023;

https://www.terra.com.br/nos/homenageada-pelo-google-claudia-celeste-foi-militar-e-atriz,b5a36049bade18a596fc500c6876e5b2b25qm13x.html visualizado no dia 10/05/2023.

Como citar este texto:

ALVES, Marllon. A mulher que omitiu ser trans para poder trabalhar na TV. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2023/05/12/a-mulher-que-omitiu-ser-trans-para-poder-trabalhar-na-tv/ publicado no dia 12/05/2023.

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