Uma escritora best-seller no Brasil

Cassandra Rios era o pseudônimo de Odete Rios. Imagem: Vânia Toledo.

Por Marllon Alves

            Cassandra Rios era o pseudônimo de Odette Pérez Rios, uma escritora muito conhecida no passado e que hoje é reconhecida como uma das pioneiras nas discussões em torno das questões LGBTQIAP+ no Brasil. Vivendo uma vida que ia contra as convenções sociais da época, Cassandra Rios foi a escritora mais censurada da ditadura brasileira. Entretanto, este fato não foi um impedimento para que seus livros fossem um verdadeiro sucesso de vendas. Pelo contrário: o estigma de “escritora maldita” estimulou ainda mais a curiosidade sobre os escritos desta, refletindo em altas vendas dos mesmos.

            Odette Pérez Rios nasceu na cidade de São Paulo no ano de 1932. Oriunda de uma família conservadora, de origem espanhola e pertencente a classe média alta, Odette se casou aos 18 anos como “manda a tradição”: na igreja e com direito a vestido de noiva. Entretanto, a união foi de “fachada” para Odette e o marido. Odette era lésbica e queria sair de casa sem chocar os pais e o marido era um melhor amigo e este era gay. Esta era uma época em que a homossexualidade era um estigma muito grande, ser homossexual era um escândalo para a sociedade, refletindo na família, no grupo de amigos e até mesmo no ambiente de trabalho. Desta forma, muitos gays mantiveram aparentes relacionamentos heterossexuais.

            No ano de 1948, com apenas 16 anos de idade, escreveu A volúpia do pecado, assinando como Cassandra Rios. Foi com este pseudônimo que Odette publicou todos os seus livros e passou a ser conhecida do grande público. Como nenhuma editora quis publicar o título em questão, a solução encontrada pela escritora foi pedir dinheiro emprestado a mãe. O livro fez tanto sucesso que foi editado por cerca de nove vezes em pouco mais de dez anos após sua primeira publicação. Entretanto, no ano de 1962 o livro foi tirado de circulação “por ofender os valores familiares”. Era o prelúdio do que estava por vir: em 1964 o Brasil foi mergulhado em uma ditadura, de onde só sairia no ano de 1985. Durante este período, três das cinco dezenas de livros que Cassandra escreveu foram censurados.

Capa de A volúpia do pecado (1948) é o primeiro livro de Cassandra Rios. Imagem: Reprodução.

            Os livros de Cassandra Rios falam sobre a homossexualidade feminina. Aliás, nos últimos anos Cassandra Rios é considerada uma pioneira em abordar a temática de mulheres lésbicas e seus desejos. Há quem considere os livros da escritora em questão como pornográficos. Entretanto, Cassandra rejeitou veementemente este rótulo. Em sua defesa, a escritora dizia que escrevia sobre o amor e o ato sexual era uma consequência deste mesmo amor. Aliás, Cassandra classificava o sexo sem amor como um estupro. Ainda segundo Cassandra Rios, a pornografia era o sexo pelo sexo, não havendo amor, afeto ou uma singela troca de olhares. Para a escritora, seus livros não tinham este perfil.

            Conforme já citado neste texto, dos aproximadamente 50 títulos escritos por Cassandra Rios, cerca de 30 foram censurados pela ditadura. Isso porque, além da censura política, o regime ditatorial implantado em 1964 e findado em 1985 praticou também a censura moral. Desta forma, temas que iam contra a família tradicional e tiravam o homem e a mulher dos papéis tradicionais exercidos na sociedade eram terminantemente proibidos. E os censores da ditadura viam mais de um motivo para censurar Cassandra Rios. Isso porque Cassandra era uma mulher que não se preocupava em esconder o fato de ser lésbica. Além disso, ela escrevia sobre os desejos homossexuais femininos. Neste período, ser chamada de lésbica era uma ofensa tão grande quanto ser chamada de comunista. E a nível de curiosidade, nem entre os movimentos de oposição ao regime a homossexualidade era aceita. Para tais movimentos, homossexual e antirrevolucionário eram sinônimos.

            A censura contra os livros de Cassandra Rios foi tão rigorosa que nos dias atuais é uma tarefa árdua achar algumas obras da escritora, inclusive em sebos (locais destinados a venda de livros antigos e usados por um preço mais acessível). A explicação mais plausível para este fato seria a incineração. Os livros e discos, por exemplo, censurados neste período eram tirados de circulação, ficavam temporariamente armazenados e por fim eram queimados. Existem incontáveis evidências que comprovam tal prática.

            Apesar da rigorosa censura, Cassandra Rios tornou-se uma escritora bastante popular com a venda de seus livros. No começo dos anos 1970, Cassandra atingiu a marca de um milhão de livros vendidos. A escritora tornou-se mais conhecida que alguns escritores consagrados da literatura nacional e contemporâneos a ela, como por exemplo Jorge Amado, Érico Veríssimo e Clarice Lispector. Era a primeira vez que uma escritora brasileira atingia tal marca. Tamanho feito fez com que Cassandra Rios fosse também a primeira escritora no Brasil a viver exclusivamente da venda de seus livros. Os seus escritos lhes proporcionaram uma vida muito confortável. Cassandra chegou a ter um apartamento no centro da cidade de São Paulo, uma casa em Interlagos (bairro da zona sul da cidade de São Paulo), uma chácara em Embu das Artes (cidade metropolitana do estado de São Paulo), sua própria livraria e alguns automóveis.

Cassandra Rios. Imagem: Reprodução.

            Entretanto, a censura exercida pelo regime ditatorial em vigor fez com que Cassandra Rios tivesse alguns prejuízos financeiros. A escritora foi a falência em 1976, ano em que 14 livros da mesma foram censurados em apenas seis meses. Cassandra perdeu quase tudo e precisou fechar sua livraria temporariamente. Para manter as contas equilibradas, Cassandra passou a escrever artigos para jornais e revistas com o pseudônimo Oliver Rivers. Com seu pseudônimo masculino, Cassandra Rios conseguia publicar seus livros de conteúdo sexual sem muitas dificuldades, embora o país estivesse mergulhado em uma ditadura. Este fato leva a conclusão de que o que incomodava não era a “deturpação da moral e dos bons costumes”, mas sim o fato de uma mulher estar escrevendo livros de conteúdo homossexual feminino e lucrando bastante com isso.

Conclusão

            O estigma de “escritora maldita” impulsionou ainda mais a popularidade de Cassandra Rios, resultando na grande repercussão dos livros da mesma e rendendo grandes somas de dinheiro a escritora. Este fato fez com que Cassandra Rios seja considerada hoje a primeira escritora best-seller brasileira, vivendo somente da venda de seus livros. Além disso, Cassandra Rios é considerada também uma pioneira do movimento LGBTQIAP+ no Brasil, representando especialmente aquelas que se encaixam na primeira letra desta grande sigla.

Referências:

https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2019/03/31/quem-foi-cassandra-rios-a-escritora-mais-censurada-da-ditadura-militar.ghtml visualizado no dia 14/06/2023.

LUNA, Fernando. A perseguida. Revista TPM. Junho 2001, ano 1, nº 03, p. 3-12.

Como citar este texto:

ALVES, Marllon. Uma escritora best-seller no Brasil. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2023/06/16/uma-escritora-best-seller-no-brasil/ publicado no dia 16/03/2023.

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