A personagem que o Brasil não amou odiar

Zezé Mota e Marcos Paulo formaram um par romântico em Corpo a Corpo (1984). Imagem: Reprodução/TV Globo.

Por Marllon Alves

            No começo dos anos 1980, Zezé Motta já era um nome de respeito na dramaturgia brasileira. Entretanto, este fato não a livrou do racismo que sofreu pelo fato de fazer par romântico com um ator branco até então visto como um galã.

            Nos primeiros anos da década de 1980, Zezé Motta era uma atriz consagrada e muito popular no Brasil. Considerada até hoje uma das atriz mais importantes do país e uma das pioneiras com relação a representatividade negra na dramaturgia, até a década de 1980 Zezé Motta havia integrado o elenco de novelas como Beto Rockfeller (1972), A Patroa (1972), Duas Vidas (1976) e Transas e Caretas (1984). Já alguns dos filmes em que Zezé Motta havia atuado até então são Cleo e Daniel (1970), Vai trabalhar, vagabundo! (1973), A rainha diaba (1974), Banana Mecânica (1974) e o célebre Xica da Silva (1976). Apesar do modo problemático como Xica da Silva, uma personagem que existiu na vida real, é representado nas telas, o filme em questão fez muito sucesso quando foi lançado, sendo assistido por mais de três milhões de pessoas nos cinemas.

            Zezé Motta integrou o elenco de Corpo a Corpo (1984), novela escrita por Gilberto Braga, que costumava abordar em suas novelas temáticas sociais. No folhetim em questão, Zezé deu vida a arquiteta Sônia, filha de Antônio (Waldir Onofre) e Jurema (Ruth de Souza), compondo assim uma família de negros de classe média. Sônia começa a namorar Cláudio (Marcos Paulo), filho do rico empresário Alfredo (Hugo Carvana) e passa a sofrer discriminação racial por parte da família do amado. Tal como Sônia, Zezé sofreu na vida real o preconceito racial pelo fato de sua personagem estar se relacionando com um homem branco e que era visto como um galã.

            Em Corpo a Corpo (1984), o preconceito que Sônia sofria era explicito. Há um capitulo em que Alfredo explica o motivo de não querer ver o filho se relacionando com Sônia. “Não gosto, não quero que você se case com ela porque ela é negra. Não quero netos mulatinhos”, argumentou Alfredo, explicitando o seu racismo. Fora da TV, Zezé Motta também sofreu injúrias raciais por conta de sua personagem. Grupos de telespectadores que se reuniam para discutir a novela se utilizavam de argumentos racistas para criticar a mesma. Uma telespectadora disse que mudava de canal quando os personagens de Marcos Paulo e Zezé Motta se beijavam. Para esta mulher, era inconcebível “um gato como o Marcos Paulo” estar apaixonado por uma “mulher horrorosa” (no caso, a Zezé). Houve também quem achasse que o ator Marcos Paulo estivesse passando por dificuldades financeiras pelo fato de estar formando par romântico com uma mulher negra. Teve um telespectador que disse que se tivesse que beijar a Zezé Motta em cena, lavaria a boca com água sanitária assim que chegasse em casa. Já Marcos Paulo não foi vítima de racismo, mas recebia constantemente em sua secretária eletrônica recados desaprovando o casal Sônia e Cláudio.

            Na novela Corpo a Corpo (1984), os jovens apaixonados Sônia e Cláudio dão fim ao romance por conta do racismo que a jovem era vítima por parte da família do amado. O casal voltaria a ficar juntos no fim do folhetim, contraindo matrimônio. Nos últimos capítulos, Alfredo, pai de Cláudio, cai do cavalo e sofre uma fratura exposta na tíbia. Para sobrevier, precisa fazer uma transfusão de sangue às pressas. Por ironia do destino, a única pessoa que tinha o sangue compatível com dele era Sônia, mulher a quem ele desprezou durante toda a novela pelo fato desta ser negra. A jovem aceita doar sangue para Alfredo e salva a vida do mesmo.

Apesar do preconceito na ficção e também na vida real, Sônia e Cláudio se casam em Corpo a Corpo (1984). Imagem: Reprodução.

Conclusão

            Ao contrário daquelas vilãs que o Brasil amou odiar e que hoje fazem parte da história da teledramaturgia brasileira, chegando a virar memes em alguns casos, mesmo a novela tendo sido exibida pela primeira vez há décadas atrás; a Sônia foi uma personagem que o Brasil definitivamente não amou odiar. Isso porque a atriz que a interpretou é negra e considerada desprovida de beleza. Tal ódio tornou-se mais intenso quando ela se envolve com um homem branco, formando um casal interracial. O fato de Zezé Motta já ser uma atriz consagrada quando Corpo a Corpo (1984) foi exibida não a livrou de ofensas raciais. O racismo sofrido pela atriz mostrou que, ao contrário do que ainda se acreditava em 1984, o Brasil não vivia em uma democracia racial. Aliás, ele nunca viveu.

Referências:

https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/televisao/em-1984-zeze-motta-sofreu-racismo-ao-namorar-marcos-paulo-em-novela-da-globo-37691 visualizado no dia 05/07/2023.

https://www.uol.com.br/splash/noticias/2022/11/17/zeze-motta-corpo-a-corpo.htm visualizado no dia 05/07/2023.

https://mundonegro.inf.br/zeze-motta-relembra-reacoes-racistas-por-viver-casal-interracial-na-novela-corpo-a-corpo/ visualizado no dia 05/07/2023.

Como citar este texto:

ALVES, Marllon. A personagem que o Brasil não amou odiar. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2023/07/07/a-personagem-que-o-brasil-nao-amou-odiar/ publicado no dia 07/07/2023.

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