A (quase) Miss Brasil que ganhou uma marchinha de carnaval em sua homenagem

Vera Lúcia posa com sua faixa de miss. Imagem: Reprodução.

Por Marllon Alves

            Vera Lúcia esteve perto de ganhar o título de Miss Brasil. Se isso acontecesse, seria a primeira mulher negra a conquistar tal título, se juntando ao grupo de personalidades negras que ganhavam destaque nos anos 1960, mesma década em que Vera Lúcia tentou ser Miss Brasil. Entretanto, a moça não conquistou o sonhado título e ganhou uma marchinha de carnaval em sua homenagem.

            Vera Lúcia frequentava o Renascença Clube (que existe até hoje no bairro do Andaraí, zona norte da cidade do Rio de Janeiro) desde criança. Foi a então diretora deste mesmo clube que a convidou para disputar o Miss Estado da Guanabara, conhecido por levar candidatas fortes para o Miss Brasil. Com 1,68m de altura e 18 anos, Vera Lúcia atendia aos padrões do concurso. Mesmo assim, a moça não aceitou o convite de imediato, fazendo isso somente na terceira vez em que ele foi feito. Vera Lúcia ganhou o Miss Estado da Guanabara em 1964, sendo a primeira mulher negra a conseguir tal façanha. Décadas depois, Vera Lúcia confessou em entrevista que tinha receio de ingressar no concurso porque tinha consciência de que era negra e sabia do que as candidatas negras anteriores a ela passaram durante este mesmo concurso.

            A então Miss Estado da Guanabara tornou-se muito popular no Rio de Janeiro e também em São Paulo e a disputa pelo título de Miss Brasil acabou sendo um “caminho natural”. Entretanto, o temor de Vera Lúcia se concretizaria: a moça seria alvo de ofensas raciais. A então candidata tinha consciência de que estava representando a população negra e isso lhe deu forças para enfrentar as violências que viriam pela frente. Vera Lúcia conta que no dia do concurso de Miss Brasil, também em 1964, recebeu uma ligação no estúdio de seu costureiro dizendo para ela desistir porque do contrário seria agredida. Porém, Vera ressalta que ao mesmo tempo recebeu apoio de muita gente. No dia do concurso as ofensas raciais se fizeram presentes. Na hora em que Vera passou desfilando em grupo, havia uma senhora que corria entre as mesas e entre palavras de cunho racista disse que o lugar de Vera era na cozinha.

Da esquerda para a direita: Vania Padilha, Vera Lúcia e Elci Wurzler na ocasião do concurso Miss Estado da Guanabara de 1964, onde Vera foi a campeã. Imagem: O Cruzeiro.

            As ofensas raciais sofridas por Vera Lúcia comprometeram o seu desempenho no concurso de Miss Brasil. A então candidata conta que ficou tão nervosa que na hora de desfilar decidiu não olhar para um determinado lado do Maracanazinho, local em que ocorreu o concurso em questão, onde estava a torcida do Renascença Clube. A jovem foi da entrada para o júri muito rápido, não sendo devidamente avaliada. Vera era a única das candidatas que sabia dar um pivô completo (uma volta de 360º em volta do próprio corpo durante o desfile), algo que fez por duas vezes e retornou para seu caminho. Apesar disso, tal prática não foi o suficiente e a coroa de Miss Brasil ficou com a paranaense Ângela Vasconcelos. Ângela foi a primeira candidata representante do Paraná a conquistar tal coroa.

            É interessante notar que a década de 1960 foi um período em que várias personalidades negras estavam se destacando nas mais diferentes áreas no Brasil. Este era um contexto em que Carolina Maria de Jesus era reconhecida dentro e fora do Brasil com seu livro Quarto de Despejo, Ruth de Souza já era uma consagrada atriz brasileira, Wilson Simonal era ouvido a exaustão e visto da mesma forma nos programas de televisão, a fama de Pelé corria o mundo e o atleta já tinha duas copas no currículo (a terceira seria conquistada em 1970), Abdias do Nascimento já era reconhecido por sua luta antirracista e o Brasil tinha Raimundo Sousa Dantas, o primeiro embaixador negro brasileiro.

            Embora não tenha conquistado o título de Miss Brasil, Vera Lúcia encantou muitos brasileiros com sua elegância. Muito popular no Rio de Janeiro e também em São Paulo, Vera estampou muitas capas de revista. Encantado com Vera Lúcia nos tempos em que esta ainda era Miss Estado da Guanabara, o compositor João Roberto Kelly compôs Mulata iê-iê-iê, também conhecida como Mulata Bossa Nova, tendo Vera como inspiração. Embora o nome de Vera não seja citado, quem conhece o contexto saberá de quem se fala. Mulata Bossa Nova é em referência a um estilo musical brasileiro que estava fazendo sucesso dentro e fora do país. Hully Gully é um estilo de dança, mas no contexto desta marchinha pode ser interpretado como pista de dança ou passarela. Vera Lúcia encantava quando desfilava e João Roberto confirma este fato, dizendo na marchinha em questão que “só dá ela”. João Roberto compara Vera a uma boneca, tamanho era a beleza e a elegância da então Miss Estado da Guanabara e o compositor acrescenta também: “cheia de fiu-fiu”, expressão muito usada para fazer referência a uma mulher bonita. Esta mesma expressão era a simulação de um assovio, feito quando uma mulher era vista andando em local público. Nos últimos tempos, tal prática tem sido vista como um assédio.

            João Roberto Kelly notou que Vera Lúcia era uma exceção nos concursos de beleza e escreveu o seguinte verso: “Esnobando as loiras e as morenas do Brasil”. Morena era um termo para se referir às pessoas brancas de cabelos castanhos ou pretos. Mulato era uma expressão usada para se referir às pessoas negras de pele clara. Por vezes, estas eram frutos de relações inter-raciais. Mulato vem de mula, que é um animal fruto do cruzamento entre um burro e uma égua ou ente uma burra e um cavalo. Movimentos negros defendem a abolição do termo em questão, alegando que ele é de cunho racista. Vera Lúcia, a “musa inspiradora” de Mulata iê-iê-iê, já disse em entrevista que tal termo nunca a ofendeu.

Conclusão

            Vera Lúcia teve muito destaque em sua época e este destaque permaneceu, mesmo quando ela não conquistou o título de Miss Brasil. Esta popularidade virou marchinha de carnaval, tornando-se muito popular. Embora não tenha sido a intenção, alguns termos presentes na composição de João Roberto Kelly em homenagem a Vera Lúcia são considerados ofensivos nos dias atuais. Este fato indica que a sociedade está em constante mudança.

Referências:

https://www.geledes.org.br/em-27-de-junho-de-1964-ha-50-anos-primeira-mulher-negra-era-coroada-miss-brasil/ visualizado no dia 20/07/2023.

https://g1.globo.com/rio-de-janeiro/carnaval/2014/noticia/2014/01/mulata-bossa-nova-conta-historia-por-tras-da-marchinha-de-sucesso.html visualizado no dia 20/07/2023.

Como citar este texto:

ALVES, Marllon. A (quase) Miss Brasil que ganhou uma marchinha de carnaval em sua homenagem. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2023/08/04/a-quase-miss-brasil-que-ganhou-uma-marchinha-de-carnaval-em-sua-homenagem/ publicado no dia 04/08/2023.

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