
Da esquerda para a direita: Dilma Rousseff, Marina Silva e Luciana Genro. 2014 foi o ano em que três mulheres tiveram chances reais de chegar à Presidência da República. E chegou mesmo. Dilma Rousseff foi eleita em um pleito bastante acirrado. Imagem: Reprodução.
Por Marllon Alves
2014 foi o ano em que a disputa presidencial brasileira teve um número máximo de mulheres concorrendo ao pleito. Este número viria a ser superado nas eleições para a Presidência da República nos anos seguintes. São mulheres com trajetórias de vida próprias e que nesta eleição mostraram estar preparadas para o cargo que almejavam.
As eleições para a Presidência da República de 2014 ocorreram em um contexto de agitação política e se revelaria em seu fim como a eleição mais acirrada da história do Brasil. Um ano antes, o país era sacudido pelas Jornadas de Junho, manifestações que inicialmente pediam a redução do preço do transporte público. Com o decorrer do tempo, outras pautas foram incorporadas e não tardou para tais manifestações mostrarem-se confusas em suas reivindicações, passando a ser compostas por diversos segmentos da sociedade. Ainda em 2013, o país foi a sede da Copa das Confederações, onde sagrou-se campeão; e também da Jornada Mundial da Juventude, com direito a uma visita do Papa Francisco ao Brasil. Em 2014, o Brasil sediou a Copa do Mundo, ocorrida em um contexto de manifestações, insatisfações com relação ao evento e também de denúncias de superfaturamento. Entretanto, quando se fala nesta Copa do Mundo, a lembrança que ficou no imaginário foi a derrota da seleção brasileira por 7 a 1 diante da Alemanha, que conquistou o tetracampeonato diante da Argentina de Lionel Messi.

Apesar da (aparente) cordialidade, Dilma Rousseff e Aécio Neves trocaram pesadas acusações no pleito presidencial de 2014, especialmente no segundo turno. Imagem: Ricardo Moraes/Reuters.
Dilma Rousseff estava buscando a reeleição e quatro anos antes tinha feito história ao se tornar a primeira mulher a ser eleita para a Presidência da República, o cargo mais alto da política brasileira. Dentre seus feitos, destaca-se o programa Mais Médicos, a criação do PRONATEC (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego), a expansão do programa Minha Casa, Minha Vida e a exclusão do país do Mapa da Fome da ONU (Organização das Nações Unidas). Além disso, foi também no governo Dilma que o país se tornou a sexta maior economia do mundo. Entretanto, tudo mudou no pós-Jornadas de Junho. Apesar do favoritismo no pleito presidencial, Dilma e muitos governantes viram sua popularidade ruir. Além disso, Dilma enfrentou acusações de que estaria envolvida no escândalo de corrupção que foi denunciado na Operação Lava Jato, que mostrou o envolvimento de funcionários da alta cúpula da Petrobras e também de integrantes do Partido dos Trabalhadores (PT), partido que Dilma integra. Apesar da arrancada na economia, entre 2011 e 2013 o PIB (Produto Interno Bruto) apresentou um crescimento abaixo do esperado e no anterior as eleições de 2014 a inflação estava acima do limite estipulado pelo governo. Apesar de tudo, em um pleito presidencial que foi para o segundo turno, Dilma Rousseff foi eleita para um segundo mandato, derrotando o político tucano Aécio Neves. Dilma recebeu 51, 64% e Aécio ficou com 48,36%. A diferença de votos foi de 3,4 milhões. Esta é considerada a eleição presidencial mais acirrada desde a redemocratização do país.

Marina Silva e Eduardo Campos em cerimônia de filiação ao PSB (Partido Socialista Brasileiro). Imagem: Ueslei Marcelino/Reuters.
Em 2014, Marina Silva estava indo para sua segunda corrida presidencial. Em 2009, Marina desliga-se do Partido dos Trabalhadores (PT) e migra para o Partido Verde (PV), legenda pela qual disputaria o pleito presidencial de 2010. Conforme todo mundo sabe, Marina Silva não venceu este pleito presidencial, mas sim Dilma Rousseff. Entretanto, o desempenho de Marina foi expressivo porque, embora não tenha ido para o segundo turno, Marina terminou a corrida presidencial em terceiro lugar, obtendo 19,33% dos votos. Após este período, Marina sai do Partido Verde e tenta fundar o REDE. Entretanto, a ambientalista não consegue fundar o partido em questão a tempo de disputar a corrida presidencial de 2014. Marina Silva filia-se ao PSB (Partido Socialista Brasileiro) e torna-se vice-presidente na campanha presidencial de Eduardo Campos. Tudo parecia estar sob controle até que em agosto deste mesmo ano, dois meses antes do primeiro turno das eleições, Eduardo Campos falece em um acidente de avião que choca o Brasil. Movidos por forte comoção, muitos brasileiros passaram a apoiar Marina Silva, fato comprovado nas pesquisas de intenção de voto. Por muitas semanas, a ambientalista apareceu como a preferida da população na corrida presidencial. Entretanto, com o passar do tempo, a popularidade de Marina foi caindo a olhos vistos e isso se deve a muitas razões. Marina Silva colocou-se como uma candidata da “terceira via”, aquela que colocaria fim na “velha política”. Porém, o plano de governo de Marina possuía muitas contradições e foi reformulado diversas vezes; e partidos como o PT de Dilma Rousseff e o PSDB de Aécio Neves, os partidos mais fortes deste pleito, a atacassem. Diante dos ataques, Marina Silva preferiu o silêncio, contrariando os eleitores, que esperavam uma atitude mais contundente. Este comportamento de Marina Silva fez com que ela fosse colocada como uma pessoa que não suportaria a pressão do Congresso Nacional diante de um impasse em um possível mandato. Em seu plano de governo, Marina Silva mostrou-se favorável às pautas de interesse da população LGBT+, mas voltou atrás após pressão de grupos conservadores, personificados na figura do pastor Silas Malafaia, conhecido por suas polêmicas e por não ser nem um pouco favorável a este segmento da sociedade. Poucas semanas antes do primeiro turno das eleições, as pesquisas de intenção de voto mostraram que Marina Silva não chegaria ao segundo turno. Tais pesquisas se confirmaram e Marina declarou apoio a Aécio Neves, que perdeu a disputa para Dilma Rousseff, que foi reeleita.

Luciana Genro durante o primeiro turno das eleições de 2014. Imagem: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo.
Filha de Tarso Genro, político integrante do PT e ex-governador do Rio Grande Sul, Luciana Genro integrou o Partido dos Trabalhadores por muitos anos, onde construiu parte de sua trajetória política. Luciana se uniu a integrantes descontentes com os rumos do petismo no governo e fundou o PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) em 2005. Em 2014, o PSOL escolhe Luciana Genro como candidata a Presidência da República. Se Dilma Rousseff e Marina Silva procuraram ganhar o voto do eleitorado conservador, Luciana Genro fez o caminho oposto. Luciana não fugiu da questão e nem titubeou em demonstrar seu apoio a legalização das drogas, legalização do aborto e união entre pessoas do mesmo sexo. Além disso, Luciana fez ataques contundentes contra Aécio Neves, com quem travou embates calorosos nos debates presidenciais. Dilma Rousseff também foi alvo dos ataques de Luciana Genro, assim como Marina Silva, vista como “indecisa” pela psolista. Luciana não chegou ao segundo turno, mas pode-se dizer que o saldo foi positivo para a política e também para o PSOL. Genro obteve 1,6 milhão de votos (1,55% do total), quase o dobro de votos obtidos por Plínio de Arruda Sampaio em 2010, que encerrou sua corrida presidencial com 886.816 votos. Os votos obtidos por Luciana Genro se concentraram no eixo Rio-São Paulo. Na capital paulista, a psolista obteve 3,33% dos votos (206.986 votos). No estado de São Paulo, Luciana Genro teve 2.41% dos votos. Na capital fluminense, no estado do Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, estado em que nasceu e constrói sua trajetória política, Luciana obteve respectivamente 4,07%, 2,72% e 2,25% dos votos. No segundo turno deste mesmo pleito presidencial, Luciana Genro adotou uma atitude peculiar. Ela não apoiou Aécio Neves, o que não foi nenhuma surpresa e também não apoiou Dilma Rousseff, uma vez que tem críticas ao partido. A única recomendação era não votar em Aécio Neves. Os seus eleitores estavam livres para votar em branco, votar nulo e até mesmo votar em Dilma Rousseff.
Conclusão
O pleito presidencial de 2014 foi por um tempo a disputa que teve o número máximo de candidatas mulheres e não somente isto: elas eram relevantes no cenário eleitoral e tinham chances reais de chegar ao posto máximo da política brasileira. Eram mulheres com trajetórias de vida e trajetórias políticas peculiares, adotando diferentes estratégias para vencer a corrida presidencial. Algumas destas estratégias não deram certo, mas diante do resultado deste mesmo pleito, pode-se dizer que pelo menos uma foi bem sucedida.
Referências:
https://www.uol.com.br/eleicoes/2014/noticias/2014/10/26/dilma-cresce-na-reta-final-e-reeleita-e-emplaca-quarto-mandato-do-pt.htm visualizado no dia 07/12/2023.
https://brasil.elpais.com/brasil/2014/10/08/politica/1412795491_540736.html visualizado no dia 07/12/2023.
https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/10/141003_marina_queda_ru visualizado no dia 07/12/2023.
Como citar este texto:
ALVES, Marllon. Uma corrida presidencial feminina. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2023/12/08/uma-corrida-presidencial-feminina/ publicado no dia 08/12/2023.

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