O ingresso da mulher no mundo da educação formal no Brasil

Meninas durante aula de costura na Escola Caetano de Campos, em São Paulo. Imagem: Escola Normal Caetano de Campos/CRE Mario Covas.

            Por mais de um século, a educação formal foi negada às mulheres que residiam no Brasil. Aquelas que pertenciam a famílias abastadas contratavam professores particulares para lhes ensinar. O século XIX verá a emergência de colégios femininos dentro e fora da cidade do Rio de Janeiro, a corte do Brasil Imperial. Estes colégios constituíam uma inovação porque as mulheres brancas e da boa sociedade tinham na lista mais um meio de sociabilidade. Por outro lado, tais instituições não rompiam com a lógica patriarcal, que enxergava a mulher como um ser que tinha por “função natural” o casamento e a maternidade.

            Aliada a Coroa Portuguesa, o catolicismo foi um dos instrumentos durante o processo de colonização do Brasil. E foi este mesmo catolicismo quem reforçou a mentalidade de que o corpo feminino deveria ser controlado. As severas leis do Estado e da Igreja, a vigilância incansável dos pais, dos tios, irmãos, tutores… tinham como objetivo o controle do sexo feminino. Diante deste fato, as situações em que a mulher deveria sair de casa eram extremamente raras. Circulava neste período a ideia de que o sexo feminino deveria sair de casa em apenas três ocasiões: “para se batizar, para se casar e para ser enterrada” (ARAÚJO, 2018: p. 49). O exagero de tal afirmação é evidente, mas o viajante Froger, que estava de passagem por Salvador (BA) em 1696 concluiu que as mulheres da região eram “de dar pena, pois jamais veem ninguém e saem apenas aos domingos, no raiar do dia, para ir à igreja” (BRUNET apud ARAÚJO, 2018: p. 49). Diante de tantas restrições, não havia muitas alternativas para as mulheres brancas e abastadas socializarem. As amigas, as vizinhas e em alguns casos até mesmo as cativas constituíam a rede de sociabilidade de tais mulheres. Quando o marido destas precisava fazer uma viagem, ele deixava a esposa em recolhimentos de mulheres. O objetivo era garantir que a mulher não manchasse a honra do marido quando este se encontrasse longe.

            Chegando no século XIX, o Brasil passará por profundas transformações que irão refletir também na vida das mulheres brancas e da boa sociedade. Com a chegada da família real portuguesa e sua corte, em 1808, o país verá a fundação da Biblioteca Nacional, do Museu Nacional de Belas Artes e da Imprensa Régia, por exemplo. O Segundo Reinado (1840-1889) implementou no país uma agenda de modernização que causou profundas mudanças na sociedade. Este período viveu a chegada de imigrantes europeus, a construção de novos meios de comunicação e de ferrovias, a chegada do telefone e do telégrafo, o desenvolvimento das manufaturas, a expansão da rede escolar (assunto deste texto), a multiplicação de instituições culturais, o abastecimento de água, tratamento de esgoto, a introdução do gás, a chegada da eletricidade, o surgimento de transportes coletivos, a multiplicação de jornais e revistas e o fim do regime escravocrata. Tamanhas mudanças refletiram na vida das mulheres brancas e ricas, que, além da Igreja, passaram a frequentar os cafés, teatros, salões, bailes e os colégios femininos. Era preciso ensinar as mulheres a se comportar diante de tantas opções de entretenimento (a cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, era apelidada de “Babilônia fluminense”) e os colégios femininos eram mais um instrumento nesta tarefa.

            O ingresso da mulher no mundo da educação formal no Brasil foi um longo processo. As mulheres não começaram a estudar nos colégios femininos de uma hora para outra. Antes do ingresso nestas instituições de ensino, pode-se falar em uma profissão que foi a precursora disso: a preceptoria. Era comum entre as famílias abastadas do Brasil Império a contratação de preceptores e “mestres das casas”. Os primeiros residiam na casa dos seus estudantes e, além de acompanhá-los nas lições diárias, estavam presentes com os estudantes em atividades cotidianas, como por exemplo a passeios e missas. Os segundos estavam na casa de seus estudantes semanalmente, em dias e horas estabelecidos, ministrando as primeiras letras ou conhecimentos específicos. Não havia uma duração exata de tais aulas e o próprio mestre ou a família que o contratava decidiam por quanto tempo duraria o serviço do mestre. A contratação de tais profissionais era basicamente por anúncios em jornais, onde famílias anunciavam o pedido ou o próprio mestre anunciava seus serviços. Além da aptidão para ensinar, vão ser exigidos corriqueiramente que estes mestres sejam “um senhor” ou “uma senhora”, com “afiançada conduta”, que tenham “mais de 40 anos” e que sejam de “idade avançada e bons costumes”.

            Na década de 1860 será notório a hegemonia de mulheres exercendo a preceptoria. Pelo fato de terem acesso a intimidade do lar, a exigência da “afiançada conduta” era reforçada. Além disso, havia também a preferência por preceptoras brancas e/ou nascidas na Europa. As mulheres que exerciam a preceptoria estavam situadas em uma classe social inferior à de quem as contratavam. Entretanto, elas eram possuidoras de capital cultural adquirido através de uma esmerada educação, que provavelmente foi adquirida em um passado mais abastado, onde elas próprias haviam tido aulas com preceptoras. Em alguns casos, estas preceptoras eram frutos de relacionamentos considerados proibidos para a época, onde os pais esforçaram-se para que ao menos tivessem uma boa educação, uma vez que não sendo reconhecidas como filhas legítimas, não teriam direito a herança ou dote.

            As preceptoras ensinavam indistintamente para crianças de ambos os sexos, além de “primeiras letras” e “instrução primária”; português, francês, latim, inglês, alemão, italiano, espanhol, literatura, religião, música, piano, matemática, desenho e pintura, por exemplo. As crianças do sexo feminino aprendiam a bordar, cozinhar, dançar, trabalhos com agulha e outros trabalhos manuais. Apesar de a profissão ser reconhecida, não era raro as preceptoras terminarem suas vidas em casas de repouso. Isso acontecia porque, ao fim da carreira, estas mulheres eram órfãs, solteiras ou empobrecidas e não tinham condições financeiras suficientes para viverem sozinhas. Quando seus serviços eram dispensados, estas mulheres deveriam sair da casa onde viveram e oferecer seu trabalho para outra família e caso caíssem doentes ou desenvolvesse algum problema psicológico, não havia outra opção, a não ser procurar um asilo ou casas beneficentes. Houve casos em que a preceptora atendeu a duas gerações de uma mesma família, mas tais situações foram exceções.

Meninas formam fila em escola de São Paulo. Imagem: Escola Normal Caetano de Campos/CRE Mario Covas.

            Algumas famílias abastadas brasileiras continuarão solicitando os serviços de uma preceptora até os primeiros anos do período republicano brasileiro. Entretanto, colégios femininos surgirão na cidade do Rio de Janeiro e nas grandes cidades do período. Eram instituições que somente a boa sociedade tinha condições de arcar com as despesas e as disciplinas eram basicamente aquelas que as moças estavam acostumadas a aprender em suas respectivas casas, inclusive aquelas voltadas especificamente para as meninas. Era um período em que a boa sociedade começava a mostrar preocupação com a educação que suas meninas estavam recebendo e o argumento para que estas viessem a receber uma educação de qualidade era justamente o uso da lógica patriarcal: para que a mulher viesse a exercer com excelência a sua função de mãe e esposa, esta deve ser muito bem educada a afim de que seja capaz de educar seus filhos da melhor forma possível. Apesar de reproduzir o patriarcado, alguns colégios foram mal vistos em um primeiro momento e alguns chegaram a fechar as suas portas por falta de público.

            A proliferação das instituições de ensino voltadas para as mulheres fez com que o Parlamento do Brasil Imperial regulamentasse a educação no país. Foi decidido que seriam contratadas em tais instituições “senhoras” reconhecidas por sua “honestidade” e “conhecimentos” (incluindo o de saber cozinhar e bordar). Era determinado também que professores de ambos os sexos deveriam ter igualdade salarial. Entretanto, a diferença curricular representava também uma diferença de salário. Isso porque a inclusão do ensino de geometria na grade curricular dos meninos implicava uma maior remuneração, onde somente os professores usufruíam.

Conclusão

            As moças da boa sociedade foram as primeiras a disfrutarem de uma educação formal. A preceptoria foi a precursora para que meninas pudessem estudar em uma instituição de ensino regulamentada por lei. Este fato era uma novidade que não rompia com as tradições de seu tempo: a fim de que pudessem exercer com excelência os ofícios do matrimônio e da maternidade, as mulheres deveriam primeiro ser muito bem educadas. Para isso, recorreram a preceptores e depois a colégios femininos, desde que pudessem pagar por tais serviços.

Referências:

ARAÚJO, Emanuel. A arte da sedução: sexualidade feminina na Colônia. In: PRIORE, Mary Del (org.). História das Mulheres no Brasil. 10ª ed., 6ª reimpressão. São Paulo: Contexto, 2018, p. 45-77.

COSTA, Emília Viotti da. Da Monarquia à República: momentos decisivos. 9ª ed. São Paulo: Editora UNESP, 2010. 523p.

LOURO, Guacira Lopes. Mulheres na sala de aula. In: PRIORE, Mary Del (org.). História das Mulheres no Brasil. 10ª ed., 6ª reimpressão. São Paulo: Contexto, 2018, p. 443-481.

VASCONCELOS, Maria Celi Chaves. Vozes femininas do Oitocentos: o papel das preceptoras nas casas brasileiras. In: FARIA, Lia; LÔBO, Yolanda (orgs.). Vozes femininas do Império e da República. Rio de Janeiro: Quartet: FAPERJ, 2008, p. 19-45.

Como citar este texto:

ALVES, Marllon. O ingresso da mulher no mundo da educação formal no Brasil. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2023/10/27/o-ingresso-da-mulher-no-mundo-da-educacao-formal-no-brasil/ publicado no dia 27/10/2023.

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