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A personagem que o Brasil não amou odiar

Zezé Mota e Marcos Paulo formaram um par romântico em Corpo a Corpo (1984). Imagem: Reprodução/TV Globo.
Por Marllon Alves
No começo dos anos 1980, Zezé Motta já era um nome de respeito na dramaturgia brasileira. Entretanto, este fato não a livrou do racismo que sofreu pelo fato de fazer par romântico com um ator branco até então visto como um galã.
Nos primeiros anos da década de 1980, Zezé Motta era uma atriz consagrada e muito popular no Brasil. Considerada até hoje uma das atriz mais importantes do país e uma das pioneiras com relação a representatividade negra na dramaturgia, até a década de 1980 Zezé Motta havia integrado o elenco de novelas como Beto Rockfeller (1972), A Patroa (1972), Duas Vidas (1976) e Transas e Caretas (1984). Já alguns dos filmes em que Zezé Motta havia atuado até então são Cleo e Daniel (1970), Vai trabalhar, vagabundo! (1973), A rainha diaba (1974), Banana Mecânica (1974) e o célebre Xica da Silva (1976). Apesar do modo problemático como Xica da Silva, uma personagem que existiu na vida real, é representado nas telas, o filme em questão fez muito sucesso quando foi lançado, sendo assistido por mais de três milhões de pessoas nos cinemas.
Zezé Motta integrou o elenco de Corpo a Corpo (1984), novela escrita por Gilberto Braga, que costumava abordar em suas novelas temáticas sociais. No folhetim em questão, Zezé deu vida a arquiteta Sônia, filha de Antônio (Waldir Onofre) e Jurema (Ruth de Souza), compondo assim uma família de negros de classe média. Sônia começa a namorar Cláudio (Marcos Paulo), filho do rico empresário Alfredo (Hugo Carvana) e passa a sofrer discriminação racial por parte da família do amado. Tal como Sônia, Zezé sofreu na vida real o preconceito racial pelo fato de sua personagem estar se relacionando com um homem branco e que era visto como um galã.
Em Corpo a Corpo (1984), o preconceito que Sônia sofria era explicito. Há um capitulo em que Alfredo explica o motivo de não querer ver o filho se relacionando com Sônia. “Não gosto, não quero que você se case com ela porque ela é negra. Não quero netos mulatinhos”, argumentou Alfredo, explicitando o seu racismo. Fora da TV, Zezé Motta também sofreu injúrias raciais por conta de sua personagem. Grupos de telespectadores que se reuniam para discutir a novela se utilizavam de argumentos racistas para criticar a mesma. Uma telespectadora disse que mudava de canal quando os personagens de Marcos Paulo e Zezé Motta se beijavam. Para esta mulher, era inconcebível “um gato como o Marcos Paulo” estar apaixonado por uma “mulher horrorosa” (no caso, a Zezé). Houve também quem achasse que o ator Marcos Paulo estivesse passando por dificuldades financeiras pelo fato de estar formando par romântico com uma mulher negra. Teve um telespectador que disse que se tivesse que beijar a Zezé Motta em cena, lavaria a boca com água sanitária assim que chegasse em casa. Já Marcos Paulo não foi vítima de racismo, mas recebia constantemente em sua secretária eletrônica recados desaprovando o casal Sônia e Cláudio.
Na novela Corpo a Corpo (1984), os jovens apaixonados Sônia e Cláudio dão fim ao romance por conta do racismo que a jovem era vítima por parte da família do amado. O casal voltaria a ficar juntos no fim do folhetim, contraindo matrimônio. Nos últimos capítulos, Alfredo, pai de Cláudio, cai do cavalo e sofre uma fratura exposta na tíbia. Para sobrevier, precisa fazer uma transfusão de sangue às pressas. Por ironia do destino, a única pessoa que tinha o sangue compatível com dele era Sônia, mulher a quem ele desprezou durante toda a novela pelo fato desta ser negra. A jovem aceita doar sangue para Alfredo e salva a vida do mesmo.

Apesar do preconceito na ficção e também na vida real, Sônia e Cláudio se casam em Corpo a Corpo (1984). Imagem: Reprodução.
Conclusão
Ao contrário daquelas vilãs que o Brasil amou odiar e que hoje fazem parte da história da teledramaturgia brasileira, chegando a virar memes em alguns casos, mesmo a novela tendo sido exibida pela primeira vez há décadas atrás; a Sônia foi uma personagem que o Brasil definitivamente não amou odiar. Isso porque a atriz que a interpretou é negra e considerada desprovida de beleza. Tal ódio tornou-se mais intenso quando ela se envolve com um homem branco, formando um casal interracial. O fato de Zezé Motta já ser uma atriz consagrada quando Corpo a Corpo (1984) foi exibida não a livrou de ofensas raciais. O racismo sofrido pela atriz mostrou que, ao contrário do que ainda se acreditava em 1984, o Brasil não vivia em uma democracia racial. Aliás, ele nunca viveu.
Referências:
https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/televisao/em-1984-zeze-motta-sofreu-racismo-ao-namorar-marcos-paulo-em-novela-da-globo-37691 visualizado no dia 05/07/2023.
https://www.uol.com.br/splash/noticias/2022/11/17/zeze-motta-corpo-a-corpo.htm visualizado no dia 05/07/2023.
https://mundonegro.inf.br/zeze-motta-relembra-reacoes-racistas-por-viver-casal-interracial-na-novela-corpo-a-corpo/ visualizado no dia 05/07/2023.
Como citar este texto:
ALVES, Marllon. A personagem que o Brasil não amou odiar. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2023/07/07/a-personagem-que-o-brasil-nao-amou-odiar/ publicado no dia 07/07/2023.
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Quando o futebol feminino era proibido por lei no Brasil

Equipe de futebol feminino do Casino Realengo, do Rio de Janeiro, em pose para foto. Imagem: Acervo CEME/UFRGS. Coleção Revista Educação Phisyca.
Por Marllon Alves
Houve uma época não tão distante assim em que o futebol feminino era proibido no país e por lei. Datado da década de 1940, vinte anos depois esta proibição se estenderia a outras modalidades esportivas. Esta proibição ajuda a entender, ao menos em partes, porque algumas ligas esportivas femininas não têm a mesma visibilidade e investimento que as ligas masculinas.
Getúlio Vargas chegou ao poder pela primeira vez em 1930, decretando a ditadura do Estado Novo em 1937 e saindo da Presidência da República em 1945. Vargas voltaria ao poder em 1950, de onde sairia quatro anos depois após suicidar-se. A política varguista adotou a conciliação, procurando sempre atender interesses comuns de grupos antagônicos. Com relação as mulheres não foi diferente. A luta em prol do voto feminino fazia-se presente no Brasil desde a segunda metade do século XIX. Esta mesma reivindicação também esteve presente no país nas primeiras décadas do século XX. Atentando para este fato, em 1932 o primeiro Código Eleitoral brasileiro entra em vigor e ele garantia o voto feminino.
Engana-se quem pensa que Getúlio Vargas era um político simpatizante das causas feministas. Ao mesmo tempo em que os direitos eram concedidos (sempre após muitas reivindicações), tentava-se manter a mulher associada ao casamento e a maternidade. Darcy Vargas, esposa de Getúlio, teve grande atuação politica enquanto o marido esteve no poder. Entretanto, ela jamais rompeu com visões tradicionais associadas ao sexo feminino. Darcy sempre procurou ter sua imagem associada à do marido. A então primeira-dama criou algumas instituições de caridade e apoiou outras. Somado este fato ao seu comportamento nos espaços públicos, percebe-se que a imagem de Darcy Vargas estava associada à maternidade.
Vale lembrar que em 1941 o Brasil vivia o auge da ditadura do Estado Novo, implantado em 1937, conforme já citado neste texto. O mundo vivia os horrores da Segunda Guerra Mundial desde 1939 e, apesar de se posicionar como neutro, Vargas acenava para os ideais fascistas, como por exemplo o nacionalismo exacerbado e a estatização de algumas atividades culturais, como por exemplo o carnaval (os sambas enredo tratavam sobre os mais diversos temas. Porém, após uma lei de Getúlio Vargas, tais sambas deveriam falar somente sobre a história do Brasil. Esta lei está em vigor até os dias atuais). Além disso, conforme já citado aqui, havia a concepção de que a função da mulher estava ligada ao casamento e à maternidade.

Reportagem sobre uma partida disputada entre os clubes de futebol feminino Sport Club Brasileiro e Casino Realengo Futebol Clube. Apesar do conservadorismo, o futuro da modalidade parecia promissor. Imagem: Jornal Correio Paulistano/Acervo Fundação Biblioteca Nacional.
Antes da proibição do futebol feminino, ocorrida em 1941, o mesmo era praticado longe das grandes ligas ou clubes. Ao contrário do que aconteceu nos primeiros anos do futebol masculino no Brasil, em que a prática era considerada de elite, as mulheres que praticavam o esporte em questão eram oriundas de classes sociais menos favorecidas. Este fato ajuda a entender o motivo de as futebolistas serem chamadas de “grosseiras, sem classe e malcheirosas”. Entretanto, o futuro da modalidade parecia promissor. No dia 17 de maio de 1940, os times de São Paulo e Flamengo fizeram um amistoso no então recém inaugurado Estádio do Pacaembu, na cidade de São Paulo. Entretanto, a repercussão era grande mesmo em torno do jogo preliminar: haveria uma partida entre o Sport Club Brasileiro e o Casino Realengo Futebol Club, dois times de futebol compostos totalmente por mulheres. Dias antes da partida em questão, a mesma dividiu a imprensa e a opinião pública. Haviam os que defendiam e os que eram contra. O segundo grupo acreditava que a prática de tal esporte era incompatível com “à natureza que a dispôs a ‘ser mãe’”. Apesar da grande polêmica, a partida foi mantida e foi assistida diante de um público composto por 65 mil pessoas. As jogadoras do S. C. Brasileiro venceram as do Casino Realengo Futebol Club por 2 a 0, com gols de Zizinha e Sarah. Entretanto, a polêmica estava longe do fim.
No dia 14 de abril de 1941, Getúlio Vargas publicou o decreto 3. 199, “que estabelece as bases de organização dos desportos em todo o país”. O artigo 57 do decreto em questão consta uma proibição que só foi revogada em 1979: “Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país”. Embora o futebol não seja citado, foi com base neste mesmo artigo que tal esporte foi proibido de ser praticado por mulheres. Em 1965, quando o Brasil estava mergulhado em uma ditadura civil-militar, o Conselho Nacional de Desportos (CND) citou nominalmente os esportes proibidos de serem praticados por mulheres. Estes mesmos esportes eram “lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, polo-aquático, rubgy, halterofilismo e handebol”. O argumento para a proibição de tais modalidades esportivas era o mesmo: acreditava-se que as mesmas eram contrárias a “natureza feminina”. Historicamente, o esporte é associado a força e virilidade, “características inerentes” ao homem. Este fato ajuda a entender o motivo de a homossexualidade masculina ainda ser um tabu em muitas modalidades esportivas. Isso porque boa parte da sociedade ainda acredita que grande força física e atração sexual por pessoas do mesmo sexo são incompatíveis.
Conclusão
Algumas modalidades esportivas, especialmente o futebol, foram proibidas de serem praticadas pelas mulheres porque havia o senso comum de que o mesmo era incompatível com a “natureza feminina”. Tal proibição foi derrubada somente em 1979, 38 anos depois de ser decretada. Esta revogação foi a prova de que as visões em torno do sexo feminino estavam mudando. De forma lenta, mas estavam.
Referências:
ALVES, Marllon. Primeiras-damas do Brasil (Parte III): Darcy Vargas, a “mãe da nação”. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2022/09/23/primeiras-damas-do-brasil-parte-iii-darcy-vargas-a-mae-da-nacao/ publicado no dia 23/09/2022.
SANTOS, Lívia Assumpção Vairo dos. Entre a dominação e o empoderamento: rupturas e continuidades na História das Mulheres. 2021. 51p.
https://ge.globo.com/futebol/futebol-feminino/noticia/decreto-lei-de-proibicao-da-pratica-do-futebol-por-mulheres-completa-80-anos.ghtml visualizado no dia 29/06/2023.
https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/Historia/noticia/2021/07/o-decreto-lei-que-proibiu-mulheres-de-jogar-futebol-no-brasil-por-40-anos.html visualizado no dia 29/06/2023.
Como citar este texto:
ALVES, Marllon. Quando o futebol feminino era proibido por lei no Brasil. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2023/06/30/quando-o-futebol-feminino-era-proibido-por-lei-no-brasil/ publicado no dia 30/06/2023.
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A influência de Noely na dupla Sandy & Júnior

Noely ao lado de Sandy e Júnior, seus filhos. Imagem: Reprodução.
Por Marllon Alves
Noely tornou-se conhecida do público pelo fato de estar casada há mais de 40 anos com Durval Pereira de Lima, mais conhecido como Xororó, integrante da dupla Chitãozinho & Xororó. Entretanto, Noely não se limitou a este papel, sendo fundamental para a consolidação e o sucesso da dupla Sandy & Junior, formada por seus filhos.
Noely conheceu Xororó na cidade de São Paulo em 1978. Dois meses após esse primeiro encontro, ambos se viram novamente em São José do Rio Preto, cidade no interior do estado de São Paulo, onde Xororó e o irmão José Lima Sobrinho, conhecido popularmente como Chitãozinho, foram se apresentar. Em 1980, Noely e Xororó mudaram-se para Campinas e em maio do ano seguinte se casaram. Sandy, a filha primogênita, nasceu em janeiro de 1983 e Durval de Lima Júnior, conhecido popularmente apenas como Júnior, nasceu em abril do ano seguinte.
Sandy e o irmão Júnior demonstraram interesse pela música ainda crianças. O Brasil (e depois o mundo) conheceram o talento dos irmãos em 1989. O ator Lima Duarte apresentava o Som Brasil e recebeu em seu programa a dupla Chitãozinho & Xororó. Em dado momento da atração, Xororó comentou acerca do gosto de seus filhos pela música. Com a curiosidade despertada, os irmãos foram convidados a participarem do programa. Após ensaiarem com o pai e o tio, Sandy e Júnior cantaram Maria Chiquinha no programa em questão, exibido no final de 1989. A repercussão foi gigantesca e o talento das crianças era notório. Diversas gravadoras queriam contratar a dupla. A princípio, Xororó e Noely não foram favoráveis ao fato de os filhos iniciarem uma carreira artística ainda na infância. Xororó sabia bem quão árdua era esta trajetória, ainda mais para quem era criança. Isso porque ele e o irmão iniciaram a carreira musical quando eram muito jovens, tendo Chitãozinho 16 anos e Xororó 13 anos de idade quando lançaram o primeiro disco, em 1970. Entretanto, após muita insistência dos filhos (que tiveram o apoio do avô paterno), Xororó e Noely deixaram os mesmos assinarem contrato com a PolyGram (atual Universal Music Group). Era o início de uma trajetória de sucessos que findaria em 2017, com o fim da dupla Sandy & Junior.

Noely ao lado dos filhos em pose para foto no ano de 1994. Imagem: Clóvis Cranchi Sobrinho/Estadão Conteúdo.
Durante, sobretudo, os anos 1980 e 1990, Xororó e seu irmão viviam o auge do sucesso com suas músicas, vendendo milhões de cópias. Com isso, o pai de Sandy e Junior pouco ficava em casa. Diante deste fato, quem acompanhava os filhos nos shows, programas de televisão e eventos era a mãe. Noely era quase onipresente na vida dos filhos. Em depoimento para o documentário Sandy e Junior: A História (2020), o apresentador Serginho Groisman declarou: “Em todas as entrevistas, em todos os shows, em todas as participações de TV. Eu nunca vi Sandy e Junior sem a Noely. É impressionante a presença dela, esse acompanhar tão de perto”. Já em um episódio deste mesmo documentário é reproduzida a voz de um narrador dizendo: “lá vem a empresária das duas crianças (Sandy e Junior) aí”. O tom era de brincadeira, mas revelava a importância de Noely para a dupla em questão e que se confirmaria nos anos seguintes: a veia empresarial da mãe de Sandy e Junior. Além disso, Noely estudou fotografia e a nível de curiosidade, a foto oficial do documentário Sandy e Junior: A História (2020) é de autoria dela.
Noely e Xororó se certificaram de que seus filhos teriam vivências comuns as de outras crianças. Sobre isso, a Sandy declarou uma vez: “Nossa mãe cuidava muito para que a gente tivesse uma vida o mais normal possível. Ela preservava nossos momentos de folga para brincar com os amiguinhos e fazer as tarefas de casa”. Além disso, os pais achavam que era importante os filhos terem contato com outras crianças. “Nunca fiz aula particular em casa. Era a porção normal da nossa vida e precisávamos vivenciar isso. Dou graças a Deus que nossos pais tiveram essa consciência. Fazíamos muitas coisas de criança comum e adorávamos isso”, declarou Sandy.
É perceptível a preocupação de Noely e Xororó em proporcionar a Sandy e ao Junior experiências comuns na vida de qualquer criança. Esta mesma preocupação tornou-se mais evidente pelo fato de os filhos terem iniciado a carreira artística quando eram crianças. Xororó canta desde a infância e gravou o primeiro disco com o irmão quando estes ainda eram adolescentes. Diante deste fato, conclui-se que Xororó sabia da importância que seria para os filhos terem contato com outras crianças. Noely também tinha essa consciência. Isso porque, além de ser casada há muitas décadas com um cantor nacionalmente conhecido e consagrado, ela era filha de João Isidoro Pereira e Maria Vieira da Silva, cantores que formaram a dupla Zé do Rancho e Mariazinha. Com isso, conclui-se que Noely sabe muito bem como era árdua a rotina de um cantor. Talvez ela já soubesse disso antes mesmo de conhecer Xororó.
Conclusão
Não tem como falar na dupla Sandy & Junior e não falar em Noely. Isso porque a mãe, que depois se tornaria empresária e fotógrafa, sempre esteve presente nos compromissos em que a dupla estava. Noely acompanhou os filhos até o momento em que estes decidiram se separar profissionalmente, no ano de 2007. É perceptível por parte de Noely e Xororó em proporcionar aos filhos momentos que toda criança tem direito. Esta estrutura familiar foi fundamental para o sucesso da dupla Sandy & Junior.
Referências:
https://gshow.globo.com/programas/superstar/So-na-web/noticia/2015/06/sandy-lembra-inicio-da-carreira-e-garante-tive-infancia-relativamente-normal.html visualizado no dia 21/06/2023.
https://www.terra.com.br/diversao/musica/voce-sabe-tudo-sobre-sandy-junior-confira-30-curiosidades,a344fe874430038d60e344ab255f0a4ascw71uga.html visualizado no dia 21/06/2023.
https://www.otvfoco.com.br/essa-e-a-verdade-dita-por-serginho-groisman-sobre-mae-de-sandy/ visualizado no dia 21/06/2023.
https://gshow.globo.com/programas/caldeirao-do-huck/noticia/noely-fica-surpresa-com-retorno-de-sandy-and-junior-e-meio-surreal-eu-nem-sonhava.ghtml visualizado no dia 21/06/2023.
https://www.ospaparazzi.com/celebridades/noely-lima visualizado no dia 21/06/2023.
Sandy e Junior: A História. Documentário. Globoplay. 2020. 7 episódios.
Como citar este texto:
ALVES, Marllon. A influência de Noely na dupla Sandy & Junior. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2023/06/23/a-influencia-de-noely-na-dupla-sandy-junior/ publicado no dia 23/06/2023.
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Uma escritora best-seller no Brasil

Cassandra Rios era o pseudônimo de Odete Rios. Imagem: Vânia Toledo.
Por Marllon Alves
Cassandra Rios era o pseudônimo de Odette Pérez Rios, uma escritora muito conhecida no passado e que hoje é reconhecida como uma das pioneiras nas discussões em torno das questões LGBTQIAP+ no Brasil. Vivendo uma vida que ia contra as convenções sociais da época, Cassandra Rios foi a escritora mais censurada da ditadura brasileira. Entretanto, este fato não foi um impedimento para que seus livros fossem um verdadeiro sucesso de vendas. Pelo contrário: o estigma de “escritora maldita” estimulou ainda mais a curiosidade sobre os escritos desta, refletindo em altas vendas dos mesmos.
Odette Pérez Rios nasceu na cidade de São Paulo no ano de 1932. Oriunda de uma família conservadora, de origem espanhola e pertencente a classe média alta, Odette se casou aos 18 anos como “manda a tradição”: na igreja e com direito a vestido de noiva. Entretanto, a união foi de “fachada” para Odette e o marido. Odette era lésbica e queria sair de casa sem chocar os pais e o marido era um melhor amigo e este era gay. Esta era uma época em que a homossexualidade era um estigma muito grande, ser homossexual era um escândalo para a sociedade, refletindo na família, no grupo de amigos e até mesmo no ambiente de trabalho. Desta forma, muitos gays mantiveram aparentes relacionamentos heterossexuais.
No ano de 1948, com apenas 16 anos de idade, escreveu A volúpia do pecado, assinando como Cassandra Rios. Foi com este pseudônimo que Odette publicou todos os seus livros e passou a ser conhecida do grande público. Como nenhuma editora quis publicar o título em questão, a solução encontrada pela escritora foi pedir dinheiro emprestado a mãe. O livro fez tanto sucesso que foi editado por cerca de nove vezes em pouco mais de dez anos após sua primeira publicação. Entretanto, no ano de 1962 o livro foi tirado de circulação “por ofender os valores familiares”. Era o prelúdio do que estava por vir: em 1964 o Brasil foi mergulhado em uma ditadura, de onde só sairia no ano de 1985. Durante este período, três das cinco dezenas de livros que Cassandra escreveu foram censurados.

Capa de A volúpia do pecado (1948) é o primeiro livro de Cassandra Rios. Imagem: Reprodução.
Os livros de Cassandra Rios falam sobre a homossexualidade feminina. Aliás, nos últimos anos Cassandra Rios é considerada uma pioneira em abordar a temática de mulheres lésbicas e seus desejos. Há quem considere os livros da escritora em questão como pornográficos. Entretanto, Cassandra rejeitou veementemente este rótulo. Em sua defesa, a escritora dizia que escrevia sobre o amor e o ato sexual era uma consequência deste mesmo amor. Aliás, Cassandra classificava o sexo sem amor como um estupro. Ainda segundo Cassandra Rios, a pornografia era o sexo pelo sexo, não havendo amor, afeto ou uma singela troca de olhares. Para a escritora, seus livros não tinham este perfil.
Conforme já citado neste texto, dos aproximadamente 50 títulos escritos por Cassandra Rios, cerca de 30 foram censurados pela ditadura. Isso porque, além da censura política, o regime ditatorial implantado em 1964 e findado em 1985 praticou também a censura moral. Desta forma, temas que iam contra a família tradicional e tiravam o homem e a mulher dos papéis tradicionais exercidos na sociedade eram terminantemente proibidos. E os censores da ditadura viam mais de um motivo para censurar Cassandra Rios. Isso porque Cassandra era uma mulher que não se preocupava em esconder o fato de ser lésbica. Além disso, ela escrevia sobre os desejos homossexuais femininos. Neste período, ser chamada de lésbica era uma ofensa tão grande quanto ser chamada de comunista. E a nível de curiosidade, nem entre os movimentos de oposição ao regime a homossexualidade era aceita. Para tais movimentos, homossexual e antirrevolucionário eram sinônimos.
A censura contra os livros de Cassandra Rios foi tão rigorosa que nos dias atuais é uma tarefa árdua achar algumas obras da escritora, inclusive em sebos (locais destinados a venda de livros antigos e usados por um preço mais acessível). A explicação mais plausível para este fato seria a incineração. Os livros e discos, por exemplo, censurados neste período eram tirados de circulação, ficavam temporariamente armazenados e por fim eram queimados. Existem incontáveis evidências que comprovam tal prática.
Apesar da rigorosa censura, Cassandra Rios tornou-se uma escritora bastante popular com a venda de seus livros. No começo dos anos 1970, Cassandra atingiu a marca de um milhão de livros vendidos. A escritora tornou-se mais conhecida que alguns escritores consagrados da literatura nacional e contemporâneos a ela, como por exemplo Jorge Amado, Érico Veríssimo e Clarice Lispector. Era a primeira vez que uma escritora brasileira atingia tal marca. Tamanho feito fez com que Cassandra Rios fosse também a primeira escritora no Brasil a viver exclusivamente da venda de seus livros. Os seus escritos lhes proporcionaram uma vida muito confortável. Cassandra chegou a ter um apartamento no centro da cidade de São Paulo, uma casa em Interlagos (bairro da zona sul da cidade de São Paulo), uma chácara em Embu das Artes (cidade metropolitana do estado de São Paulo), sua própria livraria e alguns automóveis.

Cassandra Rios. Imagem: Reprodução.
Entretanto, a censura exercida pelo regime ditatorial em vigor fez com que Cassandra Rios tivesse alguns prejuízos financeiros. A escritora foi a falência em 1976, ano em que 14 livros da mesma foram censurados em apenas seis meses. Cassandra perdeu quase tudo e precisou fechar sua livraria temporariamente. Para manter as contas equilibradas, Cassandra passou a escrever artigos para jornais e revistas com o pseudônimo Oliver Rivers. Com seu pseudônimo masculino, Cassandra Rios conseguia publicar seus livros de conteúdo sexual sem muitas dificuldades, embora o país estivesse mergulhado em uma ditadura. Este fato leva a conclusão de que o que incomodava não era a “deturpação da moral e dos bons costumes”, mas sim o fato de uma mulher estar escrevendo livros de conteúdo homossexual feminino e lucrando bastante com isso.
Conclusão
O estigma de “escritora maldita” impulsionou ainda mais a popularidade de Cassandra Rios, resultando na grande repercussão dos livros da mesma e rendendo grandes somas de dinheiro a escritora. Este fato fez com que Cassandra Rios seja considerada hoje a primeira escritora best-seller brasileira, vivendo somente da venda de seus livros. Além disso, Cassandra Rios é considerada também uma pioneira do movimento LGBTQIAP+ no Brasil, representando especialmente aquelas que se encaixam na primeira letra desta grande sigla.
Referências:
https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2019/03/31/quem-foi-cassandra-rios-a-escritora-mais-censurada-da-ditadura-militar.ghtml visualizado no dia 14/06/2023.
LUNA, Fernando. A perseguida. Revista TPM. Junho 2001, ano 1, nº 03, p. 3-12.
Como citar este texto:
ALVES, Marllon. Uma escritora best-seller no Brasil. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2023/06/16/uma-escritora-best-seller-no-brasil/ publicado no dia 16/03/2023.
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A mulher que omitiu ser trans para poder trabalhar na TV

Cláudia Celeste em pose para foto. Imagem: Reprodução.
Por Marllon Alves
Cláudia Celeste é considerada a primeira mulher transexual a trabalhar na televisão brasileira. Entretanto, em um primeiro momento, justamente para poder trabalhar na TV, fingiu ser uma mulher cis gênero. Porém, o segredo teve vida curta e Cláudia não teve outra saída, a não ser sair da novela da qual integrava parte do elenco.
Cláudia Celeste nasceu Claudinor Alves e passou a aplicar hormônios femininos a partir dos 15 anos de idade. Ainda sob a identidade masculina de gênero, Cláudia Celeste passou pelo serviço militar obrigatório. Embora sua passagem pelas Forças Armadas tenha sido exemplar, Cláudia Celeste causou escândalo em um ambiente majoritariamente masculino. “E sempre ganhei prêmio, melhor praça da parada, minhas roupas todas engomadinhas, passava pó de arroz pra tirar o brilho, manteiga de cacau na boca, um escândalo (risos)! Eu tinha uma foto que me roubaram: eu de cabo do exército, em posição de sentido… E com a sobrancelha feita!”, relembrou em entrevista.

Cláudia Celeste em pose para foto. Imagem: Reprodução.
Não se sabe ao certo quanto tempo durou a passagem de Cláudia Celeste pelas Forças Armadas e nem quando começou a trabalhar em salões de beleza. O fato é que esta carioca de Vila Isabel, bairro da zona norte da cidade do Rio de Janeiro, trabalhava em um salão de beleza da região quando estreou como dançarina no Beco das Garrafas em 1973, quando tinha 21 anos. Neste mesmo período, integrou o elenco da peça teatral O mundo é das Bonecas no Teatro Rival. Três anos depois, foi a vencedora do concurso Miss Brasil Pop. O sucesso de Cláudia Celeste como dançarina a levou para diferentes regiões do Brasil. Tamanho talento chamou a atenção do diretor de televisão Daniel Filho, que a convidou para atuar na novela Espelho Mágico (1977).
Daniel Filho gravou algumas cenas com Cláudia Celeste, que chegou a atuar com Sônia Braga. Entretanto, no dia seguinte a primeira aparição de Cláudia na televisão, os jornais da época descobriram que a atriz era uma mulher trans (durante um tempo, foi feita uma distinção entre travesti e transexual. Há um tempo que se entende que não há diferença entre os termos. A expressão travesti é pouco usada na atualidade) e logo trataram de estampar este fato na primeira capa de seus respectivos jornais. “Antes, ninguém sabia que eu era travesti, nem Daniel Filho. Ninguém nunca me perguntou! E, como ficou muito ti-ti-ti, tiraram os capítulos que eu já tinha feito”. Devido à grande repercussão do fato, os capítulos que Cláudia Celeste já tinha gravado não foram ao ar. Além disso, a atriz foi tirada do elenco da novela em questão.
A atitude da TV Globo em tirar Cláudia Celeste de Espelho Mágico (1977) pode ser encaixada naquilo que é chamado de “censura prévia”. Neste período, o Brasil vivia uma ditadura civil-militar desde 1964 e que findaria no ano de 1985. Além disso, o golpe que deu origem a esta mesma ditadura não foi somente político, mas também moral. Assuntos relacionados aos direitos das mulheres, dos homossexuais e a temática do divórcio, por exemplo, eram terminantemente proibidos. Para evitar ter seus materiais censurados e/ou ter que reformulá-los, a prática da “censura prévia” passou a ser utilizada. Produtores, diretores e jornalistas, por exemplo, autopoliciavam a si e as empresas para a qual trabalhavam, caso tivessem um cargo de liderança, quanto a abordagem de assuntos que desagradavam aqueles que estavam no poder. No caso, os militares, com o apoio de parte da sociedade civil.

Ziembinski como Stanislava em O Bofe (1972). Esta foi a primeira vez em que um homem atuou na televisão brasileira usando roupas do sexo oposto. Imagem: Reprodução/Memória Globo.
Assuntos que fugiam ao padrão heteronormativo eram censurados e Cláudia Celeste não foi uma exceção. Na novela Assim na Terra Como no Céu (1970), Ary Fontoura deu vida a Rodolfo Augusto, um costureiro afeminado e caricato. Era o máximo que a ditadura permitia. E é curioso notar que durante muitos anos na televisão brasileira, mesmo com o fim da ditadura, os homossexuais foram retratados como figuras caricatas e afeminadas. Em 1972, Ziembinki deu vida a Velha Istanislava em O Bofe. Dois anos depois, este mesmo ator interpretou Conrad Mahler em O Rebu, novela que ganhou um remake em 2014. Este trabalho entrou para a história da teledramaturgia brasileira por algumas inovações tragas e também por imortalizar (e inspirar) a cena em que um corpo aparece boiando na piscina. Ao fim de uma trama complexa, descobre-se que foi Conrad Mahler quem matou Silvia (Bete Mendes). Isso porque a moça estava se relacionando com Cauê (Buza Ferraz), rapaz que vivia sob a proteção de Conrad. Ficou nas entrelinhas o relacionamento homoafetivo de Conrad e Cauê e o contexto político do Brasil ajuda a entender o motivo. Um fato que chama a atenção é que, mesmo com o fim da ditadura, casais do mesmo sexo, especialmente os que eram formados por dois homens, pareciam na prática dois amigos do que um casal de fato. Isso porque não havia entre eles uma mínima demonstração de afeto. Apesar dos avanços, os beijos entre casais do mesmo sexo ainda são um tabu na TV aberta.
Cláudia Celeste só viria a fazer uma novela do começo ao fim em 1988, quando interpretou Dinorah em Olho por Olho, novela da extinta Rede Manchete. A ditadura havia findado em 1985 e desta forma, assuntos censurados voltaram a ser abordados. Neste contexto, vale destacar que na medida em que a ditadura se encaminhava para o fim, personagens hoje chamados de não-binários foram ganhando destaque de forma gradativa. Este fenômeno tornou-se mais acentuado com o fim do regime militar. Vale destacar também que a representação destes mesmos personagens não estava livre de preconceitos e estereótipos.
Conclusão
Cláudia Celeste fez história ao ser a primeira mulher trans a fazer parte do elenco de uma novela brasileira. O regime político da época não permitiu que Cláudia fizesse a novela Espelho Mágico (1977) até o fim. A atriz só teria essa oportunidade em 1988, três anos depois do fim da ditadura, quando integrou o elenco de Olho no Olho, da extinta Rede Manchete. Cláudia Celeste fez história na teledramaturgia em duas ocasiões: a primeira foi nos anos 1970, sendo a primeira mulher trans a fazer parte de uma telenovela; e a segunda foi na década seguinte, quando foi a primeira mulher trans a fazer uma novela do começo ao fim.
Referências:
https://gshow.globo.com/tudo-mais/tv-e-famosos/noticia/saiba-quem-e-claudia-celeste-primeira-atriz-transexual-a-fazer-novelas-brasileiras.ghtml visualizado no dia 10/05/2023;
https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/claudia-celeste-primeira-travesti-aparecer-em-uma-novela-brasileira.phtml visualizado no dia 10/05/2023;
https://www.terra.com.br/nos/homenageada-pelo-google-claudia-celeste-foi-militar-e-atriz,b5a36049bade18a596fc500c6876e5b2b25qm13x.html visualizado no dia 10/05/2023.
Como citar este texto:
ALVES, Marllon. A mulher que omitiu ser trans para poder trabalhar na TV. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2023/05/12/a-mulher-que-omitiu-ser-trans-para-poder-trabalhar-na-tv/ publicado no dia 12/05/2023.
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A campeã do BBB que muita gente não faz questão de lembrar

Chamada da então sister Paula Sperling na edição do Big Brother Brasil 19, ocorrido em 2019. Imagem: Reprodução.
Por Marllon Alves
O Big Brother Brasil 19, ocorrido em 2019, foi uma edição bastante polêmica e a vencedora do dito programa não fugiu a esta regra. Entretanto, este programa tinha em seu elenco participantes que protagonizaram falas polêmicas e até mesmo o então apresentador foi acusado de omissão diante de fatos muito graves. Por conta destes fatores, esta é uma das edições menos lembradas e considerada uma das piores também.
Para entender os motivos que fizeram do BBB 19 uma edição tão polêmica, é preciso voltar um ano antes no tempo. Em outubro de 2018, Jair Bolsonaro foi eleito Presidente da República, tomando posse em 01 de janeiro de 2019, mês em que o BBB costuma estrear. Jair Bolsonaro tornou-se conhecido por dar voz, ainda que de forma indireta, a discursos misóginos, homofóbicos e também racistas. Preconceituosos sentiram-se livres para expressarem seus preconceitos, baseados em uma suposta “liberdade de expressão”. Era este o contexto histórico do BBB 19.
Paula Sperling, vencedora da edição, fez muitas falas de cunho preconceituoso e isso não foi impedimento para que esta levasse o prêmio máximo. Muita gente se sentiu representada por ela. Em conversa com a sister Gabriela, Paula disse: “também tenho cabelo ruim”. Gabriela a corrigiu: “Não fala isso. Preconceito é ruim, cabelo não!”. Em conversa com a então confinada Rízia, Paula usou o termo carvão para se referir às pessoas de pele retinta. “A mãe da minha avó é branquinha, do cabelo liso. E o pai dela era carvão e aí os filhos foram preto, branco, preto, branco. (…)”.
Em outra ocasião, ainda dentro da casa mais vigiada do Brasil, Paula disse ter ficado surpresa quando viu que um homem acusado de esfaquear uma mulher era “branquinho” e “não favelado”. “Era aquelas facas de pão, sabe? E aí eu pensei que ia chegar um faveladão lá. E quando eu vi o cara era branquinho, morou não sei quanto tempo na Austrália ou Canadá. Falei: ‘não é possível que você fez isso’”. Para Paula Sperling, pele retinta e criminoso eram sinônimos. A então sister também praticou o racismo religioso, que é o preconceito para com as religiões de matriz africana. “Tenho muito medo do Rodrigo, de algum dia pegar o líder e mandar ele. Ele mexe muito com esses trecos, tenho medo disso, esse negócio de cada Oxum deles”, disse Paula, que acrescentou: “Nosso Deus é maior”. Para Paula, religiões de matriz africana e maldade eram sinônimos também.
Muitas foram as falas preconceituosas proferidas por Paula Sperling e as aqui citadas são apenas alguns exemplos. Com tantas falas problemáticas, após o fim da edição Paula teve de prestar depoimento na delegacia de Crimes Raciais e Delitos. O Ministério Público arquivou o caso. Conforme dito neste texto, Paula Sperling não foi a única participante polêmica nesta edição. Pelo contrário. Ainda nas primeiras semanas do programa, o brother Vanderson foi intimado a depor após acusações de estupro, agressão física e importunação ofensiva ao pudor recaírem sobre ele. A saída de Vanderson da casa implicou em sua eliminação e o programa seguiu com um participante a menos.

Paula Sperling proferiu diversas frases e expressões de cunho racista durante sua passagem pelo BBB 19. Imagem: Reprodução/TV Globo.
Maycon, outro participante que integrou o elenco do BBB19, causou polêmica ao narrar a ocasião em que colocou bombinhas no ânus de um gato. A fala revoltou o público e vale lembrar que maltratar os animais é crime. Além disso, o mesmo participante confessou que iniciou sua vida sexual com uma cabra. Tal ato é denominado como zoofilia, que é quando um ser humano tem relações com um animal. Neste contexto, Tiago Leifert, então apresentador do Big Brother Brasil, foi acusado de omissão diante de falas e atitudes preconceituosas.
Conclusão
O BBB19 tinha em seu elenco participantes com falas e atitudes problemáticas. Muitas destas renderam problemas judiciais fora da casa mais vigiada do Brasil. Além disso, esta é considerada uma das piores edições do programa. Paula Sperling estava inserida neste contexto, sendo autora de falas racistas em diversas ocasiões. Entretanto, este fato não incomodou parte do público, que a escolheu como a campeã do programa. Porém, nos anos seguintes, Paula Sperling passou a ser pouco lembrada. Poucos são entre os telespectadores que se recordam da mesma e quando ela é lembrada, quase sempre é para falar mal.
Referências:
https://www.uol.com.br/splash/noticias/2023/04/18/como-esta-paula-sperling-e-por-que-ela-foi-acusada-de-racismo-no-bbb-19.htm visualizado no dia 04/05/2023;
https://entretenimento.r7.com/famosos-e-tv/vanderson-e-intimado-a-depor-e-deixa-bbb-apos-acusacao-de-estupro-06102019#:~:text=Intimado%20a%20depor%20ap%C3%B3s%20acusa%C3%A7%C3%A3o%20de%20estupro%2C%20o%20bi%C3%B3logo%20e,na%20desclassifica%C3%A7%C3%A3o%20do%20reality%20show. visualizado no dia 04/05/2023;
https://tvefamosos.uol.com.br/noticias/redacao/2019/01/20/maycon-relembra-ato-de-crueldade-animal-e-causa-polemica-nas-redes-sociais.htm visualizado no dia 04/05/2023;
https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/bbb/tiago-leifert-quebra-o-silencio-sobre-racismo-e-intolerancia-no-bbb19-em-avaliacao-24904 visualizado no dia 04/05/2023.
Como citar este texto:
ALVES, Marllon. A campeã do BBB que muita gente não faz questão de lembrar. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2023/05/05/a-campea-do-bbb-que-muita-gente-nao-faz-questao-de-lembrar/ publicado no dia 05/05/2023.
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Leila Diniz e a emancipação feminina

Leila Diniz em pose para foto. Imagem: Acervo UH/Folhapress.
Por Marllon Alves
Leila Diniz foi uma atriz brasileira que faleceu em tenra idade, deixando seu legado para a televisão e o cinema brasileiros. Embora não tenha participado de grupos de oposição ao regime civil-militar até então em vigor, Leila Diniz foi perseguida por esta mesma ditadura pelo fato de ter um discurso em prol da emancipação das mulheres.
Leila Diniz formou-se em magistério a fim de ser professora do jardim de infância em Ipanema, bairro nobre da cidade do Rio de Janeiro. Aos 17 anos de idade conhece o cineasta Domingos de Oliveira, com quem viria a se casar. O casamento durou apenas três anos e foi neste período que surgiu a oportunidade de trabalhar como atriz. Posteriormente, Leila Diniz conheceu Ruy Guerra, com quem viria a ter Janaína Diniz Guerra, sua única filha.

Leila Diniz e Reginaldo Faria em cena de Ilusões Perdidas (1965). Leila Diniz foi a primeira mulher a protagonizar a primeira novela da TV Globo. Imagem: Reprodução.
Ao longo de sua curta carreira, Leila Diniz atuou em cerca 12 telenovelas e 15 filmes. Destaque para Ilusões Perdidas (1965), primeira telenovela da TV Globo e que teve Leila Diniz como protagonista. Esta novela foi produzida no mesmo ano em que a Rede Globo de Televisão foi fundada. Outra novela que merece destaque é O Sheik de Agadir (1966), que fez história na televisão brasileira por ter o primeiro personagem serial killer da TV nacional. No decorrer do folhetim, inúmeros assassinatos vão acontecendo e no fim é descoberto que quem os matava era Éden de Bassora, personagem de Marieta Severo. A atriz em questão e Chico Buarque, que já foram casados, cuidaram da filha de Leila Diniz quando esta faleceu. Dentre os filmes em que Leila Diniz esteve no elenco, destaque para Todas as Mulheres do Mundo (1967), onde ela interpretou Maria Alice, que conhece o bon vivant Paulo (Paulo José), que abandona as mulheres com quem se relacionava para viver com a personagem interpretada por Leila Diniz. A película está na lista feita pela Associação Brasileira dos Críticos de Cinema (Abraccine) dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos.
Além de ser conhecida por sua atuação, Leila Diniz tornou-se conhecida por falar aberta e francamente acerca de sua vida pessoal. Este fato trouxe problemas para a atriz em questão porque o Golpe de 1964, além de ser político, foi também um golpe moral. Desta forma, assuntos relacionados aos direitos das mulheres, aos LGBTQIAP+ (tal sigla não existia na época) e a população negra, por exemplo, eram proibidos. Em 1969, auge da Ditadura Civil-Militar (o AI-5 havia sido decretado no ano anterior, endurecendo o regime contra seus opositores), Leila Diniz deu uma entrevista polêmica para o jornal O Pasquim. Recheada de asteriscos por conta dos palavrões, Leila deu declarações do tipo: “Não acredito nessa coisa do amor possessivo e acho chato. Você pode amar uma pessoa e ir para a cama com outra. Isso já aconteceu comigo”. “Desbocada”, Leila usava palavrões para falar de amor, sexo, desejo, prazer, casamento e fidelidade. E foi justamente por falar sobre estes assuntos que Leila Diniz quase foi presa. Nesta mesma entrevista, a atriz também disse: “Porr*, um cafuné na cabeça, malandro, eu quero até do macaco”.
As reações às falas e comportamentos de Leila Diniz foram imediatas. Em 1970, entrou em vigor o Decreto-Lei Nº 1.077/1970, conhecido popularmente como Decreto Leila Diniz. Assinado pelo então presidente Emílio Médici e pelo então Ministro da Justiça Alfredo Buzaid, era um decreto que instaurava a censura prévia à imprensa. Com isso, tudo o que saísse na mídia deveria passar com antecedência pelos censores do regime. Além disso, Leila Diniz foi acusada de ajudar militantes de esquerda, algo que nunca foi provado. Para fugir da censura, chegou a refugiar-se no sítio do jornalista e apresentador Flávio Cavalcanti em Petrópolis (RJ). Uma ordem de prisão contra Leila Diniz chegou a ser dada, mas foi revogada. Entretanto, a atriz teve de assinar um termo de responsabilidade dizendo que não falaria palavrões publicamente.

Leila Diniz posa para foto com a barriga de fora na Ilha de Paquetá, em 1971. Imagem: Reprodução.
Além de ser autora de falas que iam contra o regime em vigor, Leila Diniz também tinha comportamentos que incomodavam a ditadura. Neste contexto, destaque para o momento icônico em que ela deixou-se fotografar com a barriga amostra enquanto estava grávida em um dia de sol na Ilha de Paquetá, na cidade do Rio de Janeiro, no ano de 1971. Este fato escandalizou a sociedade porque acreditava-se que ela deveria posar com um tecido largo, cobrindo a barriga. Destaque também para a ocasião em que deu um “selinho” na também atriz Betty Faria no ano de 1969, auge da ditadura.
Apesar de ter sua prisão revogada e ter se comprometido a adotar um vocabulário mais “aceitável”, Leila Diniz viu os trabalhos desaparecerem. A TV Globo opta em não renovar o contrato da atriz. Além disso, Leila era mal vista entre os simpatizantes da ditadura e também entre aqueles que faziam oposição a mesma. Entre o primeiro grupo, a atriz era conhecida por afrontar a “moral e os bons costumes”. Já no segundo grupo, especialmente entre os movimentos feministas, Leila Diniz era acusada de “fazer o jogo dos homens” ao falar sobre temas relacionados a sexualidade e desejo feminino. Havia o entendimento de que as “pautas políticas” eram prioridade.
Percebendo que não estava conseguindo trabalhar como atriz e precisando de dinheiro, abriu a loja Doze, uma boutique, com Vera Barreto Leite. Entretanto, não era isso o que Leila queria. Cogitou também abrir uma escola para crianças, mas não deu tempo. O filme Mãos Vazias (1971) rendeu a Leila Diniz um convite para participar de um festival de cinema em Adelaide, na Austrália, em 1972. Na volta para o Brasil, Leila, Bigode, Arduíno Colasanti e Ana Miranda decidiram passar uns dias na Malásia e outros na Tailândia. De lá, o grupo de amigos seguiria para a Índia. Leila, com saudades da filha, que na época tinha apenas sete meses e ficou no Rio de Janeiro sob os cuidados da amiga Ana Maria Magalhães, decide retornar ao país. O avião em que Leila estava faria escalas na Índia, no Irã, Egito, Roma e Inglaterra, antes de seguir para o Rio de Janeiro. Porém, o avião nunca chegou ao seu destino final. No dia 14 de junho de 1972, a poucos minutos antes de aterrissar no aeroporto de Nova Dhéli (Índia), a aeronave em questão caiu, matando 78 passageiros e 11 tripulantes. Leila Diniz estava entre as vítimas fatais.
A morte de Leila Diniz causou grande comoção no Brasil. Centenas de fãs foram se despedir da atriz quando os restos da mesma foram enterrados no Cemitério São João Batista, em Botafogo, bairro nobre da cidade do Rio de Janeiro. Tal comoção se estendeu por muitos dias. O inquérito do acidente que vitimou fatalmente Leila Diniz e outras dezenas de pessoas concluiu que a fatalidade ocorreu por falha humana. Além disso, Leila Diniz ganhou um prêmio póstumo de melhor atriz no Festival de Adelaide.
Conclusão
Embora não se reconhecesse feminista, Leila Diniz é reconhecida como uma mulher que defendeu pautas que até hoje constam entre as reivindicações do movimento em questão. Embora inconsciente, a luta de Leila contra a ditadura não foi pegando em armas e/ou fazendo parte de grupos de guerrilha. A atriz escolheu combater o regime em vigor transgredindo as normas morais vigentes. Atualmente, discussões em torno da sexualidade e prazer sexual são presentes em movimentos feministas. Porém, o mesmo não acontecia há 50 anos atrás. Este fato ajuda a entender a razão de Leila Diniz ter sido vista como “alienada” por seus contemporâneos que faziam oposição ao regime.
Referências:
https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2022/06/14/morta-aos-27-ha-50-anos-leila-diniz-faria-revolucao-ate-no-brasil-de-hoje.htm visualizado no dia 12/04/2023;
https://www.bbc.com/portuguese/geral-61795046 visualizado no dia 12/04/2023;
https://observatoriog.bol.uol.com.br/noticias/famosos/o-beijo-gay-sutil-mas-emblematico-de-leila-diniz-em-betty-faria visualizado no dia 12/04/2023.
Como citar este texto:
ALVES, Marllon. Leila Diniz e a emancipação feminina. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2023/04/14/leila-diniz-e-a-emancipacao-feminina/ publicado no dia 14/04/2023.
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O modo como as mulheres foram tratadas nos Anos de Chumbo

As atrizes Eva Todor, Tônia Carreiro, Eva Wilma, Leila Diniz, Odete Lara, Cacilda Becker e Norma Bengell marcham contra a censura imposta pela ditadura militar, em 1968. Foto: Gonçalves / Agência O Globo.
Por Marllon Alves
Imposto em fins de março de 1964, uma ditadura civil-militar fez com que os brasileiros não vissem a democracia por 21 anos. Além da censura política, o Golpe de 1964 foi também um golpe moral, onde assuntos que eram entendidos como uma “ofensa” a moral e os bons costumes eram censurados. Neste contexto, mulheres que ousaram sair da esfera doméstica para combater o regime imposto foram duramente torturadas por ousarem adentrar em uma esfera que era entendida como masculina.
Com o objetivo de “salvar o Brasil do comunismo”, militares com o apoio de parte da sociedade civil destituíram João Goulart do posto de Presidente da República. A promessa era de que a situação seria provisória, mas o que começou em 1964 findou em 1985. Jornais, revistas e emissoras de televisão que noticiassem fatos contra o regime imposto eram censurados. Aqueles que lutassem contra este mesmo regime eram barbaramente torturados, podendo ser mortos. Aliás, existem até hoje pessoas que desapareceram neste contexto e nunca foram encontradas. Além da censura política, havia também a censura moral. Desta forma, assuntos e movimentos que visavam combater o racismo, que defendiam outros modelos de família e que colocassem o homem e a mulher fora de seus “papéis tradicionais” eram censurados. Com isso, mulheres que lutaram contra a ditadura foram barbaramente torturadas.
A presença de mulheres na luta armada contra a ditadura, por exemplo, não foi insignificante. 18% dos guerrilheiros eram mulheres e no Araguaia este número é de 20%. Estas mesmas mulheres eram estudantes universitárias, frequentadoras de bares e lugares de debates organizados pelo movimento estudantil ou pela igreja que tinha ligações com a Teologia da Libertação. Ao colocar as mulheres que lutaram contra o regime como “desviantes”, a ditadura tentou reafirmar que o sexo feminino não teria capacidade de escolhas própria e nem de tomadas de decisões no âmbito político. A mulher deveria ser tutelada pelo homem. Nos registros de prisões, elas eram apresentadas como esposas, filhas, amantes e irmãs de homens procurados pela polícia. Dificilmente seus nomes eram destacados. A repressão tratou de construir em torno destas mulheres uma determinada imagem. As “loiras terroristas” eram constantes nos noticiários, sendo classificadas como “drogadas” ou “malucas”. Muitas foram internadas em manicômios “por se terem deixado seduzir pelo comunismo” (ROVAI, 2013: p. 117). Neste contexto, duas observações merecem ser feitas. A primeira é que o fato de serem considerado o “sexo frágil” intensificou ainda mais a violência sobre seus corpos. O objetivo era reprimir a escolha de terem agido “como homens” ao pegarem em armas. A “condição de comunistas” era relacionada à (imoral) socialização das mulheres como propriedade coletiva, legitimando a humilhação e a violação de seus corpos nos porões dos órgãos de repressão. Tais mulheres ousaram abandonar o espaço doméstico e deveriam ser rigidamente punidas por isso.
É importante destacar que algumas mulheres reforçaram a desigualdade de gênero para serem aceitas nos grupos de guerrilha. Para assumirem o posto de liderança nestas organizações (um feito raro), estas mulheres assumiram o discurso de que o lugar de comando no mundo político – inclusive nos movimentos de esquerda – era reservado aos homens e por conta disso passaram a agir como figuras sem “qualidades femininas”. Tais mulheres abriram mão de relações afetivas e de filhos para assumirem postos de liderança; agindo “como homens”, mostrando coragem e ousadia, qualidades consideradas masculinas. Elas se comportaram, em certa medida, como sujeitos assexuados ou masculinizados, apresentando postura séria e rígida. Esta era uma atitude paradoxal, pois “romperam com preconceitos com relação ao papel feminino na sociedade, porém, mantendo os preconceitos conservadores nos grupos armados” (ROVAI, 2013: p. 119).
Além de agirem de forma direta no combate a ditadura, elas também agiram de forma indireta no combate a tal regime, mesmo não sendo filiadas a nenhuma organização. Elas usaram suas casas para acolher desconhecidos, esconder armas, objetos e documentos; levaram mensagem para membros de grupos clandestinos ou circularam entre a cadeia e a família, atuando como intermediárias. Destaque para aquelas que ofereceram o que Maria Cláudia Badan Ribeiro (2011) chamou de “socorro vermelho”: ofereceram casas, remédios, informações e documentações falsas aos membros ALN (Ação Libertadora Nacional).
Recrutadas por movimentos estudantis, as mulheres que atuaram em ações descritas no parágrafo anterior não tinham como objetivo, pelo menos no primeiro momento, de derrubar a ditadura e, em alguns casos, elas não tinham ciência do que acontecia de fato. O que as moviam era o afeto que sentiam por seus maridos, irmãos e filhos, por exemplo, que estavam encarcerados. Entretanto, esta atuação aumentou a oposição ao regime imposto, contribuindo para seu fim a médio e longo prazo. Estas mulheres também ofereceram suas casas para os militantes se reunirem e promoveram festas de aniversários em presídios, inventaram histórias para os militares, passaram-se por namoradas ou parentes dos presos políticos nas visitas às prisões, mobilizaram a vizinhança para arrecadar roupas e obter informações e usaram seus corpos para levar bilhetes aos presos e membros de organização. Por vezes, estas mulheres iam acompanhadas pelos filhos, sendo levados pela mão ou no colo até as delegacias. Esta imagem passava a ideia de mães protetoras, zelosas e alheias ao mundo exterior. Esta visão colocava-as acima de qualquer suspeita e assim conseguiram informações, visitas, notícias e até mesmo relaxamento de pena. Além disso, a prática de oferecer café aos soldados e tratar amigavelmente aqueles que vigiavam suas casas conseguiram impedir em muitas situações que suas residências fossem invadidas, poupando a vida das pessoas que lá estavam. Estas mulheres se arriscaram.

Dilma Rousseff durante audiência em um tribunal militar, em 1970. Imagem: Arquivo Nacional da Comissão da Verdade.
Por conta da atuação contra a ditadura, algumas mulheres foram barbaramente torturadas, bulinadas e até mesmo estupradas. Dilma Rousseff, a primeira mulher a chegar à Presidência da República no Brasil, pagou o preço por lutar contra o regime em vigor. Com 22 anos na época, Dilma integrava o grupo VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária – Palmares), uma organização de cunho marxista-leninista que participava da luta armada contra o regime autoritário imposto no Brasil. Dilma Rousseff, junto com outros dois militantes, eram responsáveis pelo arsenal da VAR-Palmares, que ficava armazenado na capital paulista. Sendo torturada no Rio de Janeiro e em São Paulo, Dilma também foi torturada em Minas Gerais após os militares interceptarem bilhetes de Ângelo Pezzuti, uma das lideranças do grupo que Dilma participava, que tinham a ex-presidente como destinatária. Ela foi colocada no pau de arara, levou choques elétricos e um soco na mandíbula, arrancando-lhe um dente e tendo sequelas até hoje por conta deste fato. Em São Paulo, Dilma também experimentou a palmatória e emagreceu bastante porque não se alimentava bem. Ela também apresentou uma hemorragia no útero pela primeira vez, tomou uma injeção e não foi agredida neste dia. Em Minas Gerais, Dilma apresentou mais uma vez uma hemorragia interna. Ela tomou um comprimido e uma injeção. Entretanto, lhe davam choques elétricos e depois paravam. Dilma precisou fazer um tratamento no Hospital das Clínicas. As agressões foram tantas e sempre tão violentas que Dilma Rousseff achou que não sobreviveria.
Outra pessoa conhecida nacionalmente e que foi torturada por militares é a jornalista Miriam Leitão. Morando no Espírito Santo no começo dos anos 1970 e vivendo com um estudante de Medicina, Miriam chegou a ser presa. Neste período, foram jogados sobre ela cães raivosos que ficavam ainda mais enfurecidos quando os soldados gritavam: “Terrorista, terrorista!”. De repente, os policiais que a cercavam começaram a cantar: “Amélia não tinha a menor vaidade/Amélia que era mulher de verdade”. Foi neste momento que a jornalista entendeu o motivo de sua prisão: Amélia era o codinome que o chefe de Miriam de ala no PCdoB (Partido Comunista do Brasil) havia escolhido para ela.
Miriam Leitão foi levada para uma sala sem móveis e com as janelas cobertas, onde lhe ordenaram que tirasse a roupa. Miriam conta que um “clima de estupro iminente” se instalou. Os homens gritavam e ameaçavam atacá-la. Antes disso, um outro homem disse: “Posso dizer a todos eles para irem pra cima de você, menina. E aqui não tem volta. Quando começamos, vamos até o fim”. A jornalista não sabe quanto tempo essa situação durou e quando os homens saíram, um destes em seguida voltou com uma enorme serpente e antes que Miriam visualizasse a mesma, as luzes se apagaram. Foram momentos de pavor que pareciam não terminar. A jornalista levou tapas, chutes, puxões de cabelo e pancadas na cabeça. Ficou dois dias sem comer e como não se alimentava bem e regularmente, foi de 50 kg para 39 kg em três meses. Miriam Leitão estava com um mês de gestação quando foi presa e tinha grandes chances de perder o bebê e se o mesmo sobrevivesse, poderia ter algumas sequelas. Isso porque a mesma estava deprimida, mal alimentada, nervosa, anêmica e com “carência aguda de vitamina D por falta de sol”. Em uma noite, antes de sair da prisão, foi obrigada a tirar a roupa mais uma vez. Ela foi apalpada, alisada e viu seu corpo ser tratado como um brinquedo. Um dos militares ordenou que ela se deitasse com ele, que não consumou nada, “mas estavam no limite do estupro”. Miriam sobreviveu, seu filho nasceu saudável e Marcelo, seu marido, foi expulso do curso de Medicina. Ele se tornou jornalista, assim como Miriam Leitão.
Muitos são os relatos de mulheres que foram violadas ou foram ameaçadas de violência sexual nos porões da ditadura. Lylia Guedes, ex-militante do Partido Comunista Revolucionário (PCR), conta que as ameaças de estupro eram constantes. Em uma ocasião, foi interrogada pelo Miranda, “o chefão dos torturadores”. Ela apanhou de palmatória nas mãos, nos pés e em uma das ameaças de violência sexual, o delegado a chamou, afirmou que ela estava muito magra e perguntou se ela estava tendo relações sexuais porque esta seria a melhor maneira de emagrecer. O delegado disse também que poderia alimentá-la bem, lhe engordar e depois a “faria emagrecer com a dieta do sexo”.
Há casos em que as ameaças de estupro ocorridas nos porões da ditadura se concretizaram. Foi o que aconteceu com Inês Etienne Romeu, ex-militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Inês foi barbaramente espancada, levou choques elétricos em várias partes do corpo (inclusive em regiões íntimas) e os militares lhe ofereceram a possibilidade de suicídio. Como se negou a tirar a própria vida, foi ainda mais castigada. O ‘Márcio’ invadia a cela onde Inês estava para “examinar” seu ânus e saber se o ‘Camarão’ havia tido relações com ela. Este mesmo ‘Márcio’ obrigou Inês a segurar seu pênis, enquanto se contorcia de forma obscena. Neste período, foi estuprada duas vezes por ‘Camarão’ e era obrigada a limpar a cozinha completamente nua, tendo que ouvir gracejos e obscenidades.
Conclusão
As mulheres aturam no combate a ditadura de diversas maneiras. Em alguns casos, este combate foi de forma direta e em outros não. Além disso, estas mulheres romperam com a ordem vigente ao adentrar espaços que não lhes eram destinados. Entretanto, elas não romperam com a mentalidade vigente de que alguns espaços eram masculinos. Há também aquelas que combateram o regime de forma indireta, usando das “características do sexo frágil” para obter informações, levar bilhetes com informações sigilosas aos encarcerados e impedir que militares vasculhassem suas casas, por exemplo. As mulheres que caíram nas mãos dos torturadores sofreram severas agressões físicas e psicológicas. O fato de serem mulheres não atenuaram a tortura, ainda que estivessem grávidas. Além das agressões, as mulheres tiveram seus corpos violados de diversas formas. Elas estavam sendo punidas por saírem da esfera privada do lar e adentrarem um ambiente que era entendido como masculino.
Referências:
https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/os-relatos-de-dilma-rousseff-sobre-tortura-na-ditadura-dor-que-nao-deixa-rastro.phtml visualizado no dia 29/03/2023;
https://congressoemfoco.uol.com.br/projeto-bula/nota/miriam-leitao-fala-sobre-tortura-vivida-na-ditadura-militar/ visualizado no dia 29/03/2023;
ROVAI, Marta Gouveia de Oliveira. O direito à memória: a história oral de mulheres que lutaram contra a ditadura militar (1964-84). Revista Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 5, n. 10, jul./dez. 2013. p. 108-132;
WASZAK, Aline Isabel. O Brazil não conhece o Brasil: a violência sexual na ditadura militar brasileira. 2019. Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização em Literatura Brasileira e História Nacional) – Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Curitiba, 2019.
Como citar este texto:
ALVES, Marllon. O modo como as mulheres foram tratadas nos Anos de Chumbo. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2023/03/31/o-modo-como-as-mulheres-foram-tratadas-nos-anos-de-chumbo/ publicado no dia 31/03/2023.
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A problemática Helena de Manoel Carlos

Taís Araújo deu vida a Helena em Viver a Vida (2009). Imagem: Rede Globo/Divulgação.
Por Marllon Alves
Manoel Carlos foi um autor que fez história na teledramaturgia brasileira. Autor de novelas e minisséries, o novelista em questão tinha como marca registrada o batismo de suas protagonistas com o nome Helena. Entretanto, a Helena de Viver a Vida (2009) mostrou que Maneco não mais escrevia tão bem como outrora.
Manoel Carlos tem no currículo novelas que são verdadeiros clássicos. Baila Comigo (1981), Felicidade (1991), História de Amor (1995), Por Amor (1997), Laços de Família (2000), Mulheres Apaixonadas (2003) e Páginas da Vida (2006) são apenas alguns exemplos. Independente de os laços serem de família ou não (me perdoem pelo trocadilho), o fato é que as Helenas do Maneco tinham como ponto alto as dores e as delícias da maternidade. Elas eram capazes de enfrentar o mundo caso tivessem uma filha especial, como a Helena de Páginas da Vida (2006), que adotou uma criança com Síndrome de Down. Elas também eram capazes de atitudes extremas para verem seus filhos felizes ou salvar a vida dos mesmos. Neste contexto, destaque para a Helena de Por Amor (1997), que trocou seu filho saudável pelo filho natimorto da filha para que esta não experimentasse a terrível dor de perder um filho, podendo ser ampliada pelo fato de ter seu útero retirado por complicações no parto. Já a Helena de Laços de Família (2000) abdicou de um amor quando percebeu que este e a filha estavam apaixonados. E quando esta mesma Helena havia encontrado um novo amor, se viu tendo que abandonar o mesmo porque a filha havia sido diagnosticada com leucemia. A solução que esta encontrou foi se relacionar com o pai biológico da mesma e gerar um bebê que viesse salvar a vida da filha.
Além de serem capazes de atitudes extremas em prol de seus filhos, estas mesmas Helenas também eram capazes de mentirem e omitirem para proteger os mesmos. A Helena de Por Amor (1997) só queria que a verdade da troca dos bebês viesse à tona quando morresse e o diário que tinha fosse descoberto. Porém, em uma troca acidental de bolsas o diário de Helena acaba caindo nas mãos de Maria Eduarda, que descobre toda a verdade. Em Laços de Família (2000), Camila sempre achou que o pai de Fred era o mesmo que o seu. Entretanto, quando foi diagnosticada com leucemia, Camila descobre que na verdade seu pai é um primo de sua mãe. O pai da mesma estava vivo e foi com ele que Helena teve o bebê que iria curar Camila. A Helena de Páginas da Vida (2006), apesar de indignada, nada fez quando a avó de sua filha adotiva contou para todos que a criança havia morrido poucos dias após o parto, chegando a providenciar uma certidão de óbito falsa para a neta.

Taís Araújo e José Mayer formaram um par romântico em Viver a Vida (2009). Imagem: Divulgação/TV Globo.
A Helena de Viver a Vida (2009) era mais jovem que as anteriores e não tinha filhos, tendo feito um aborto quando era mais jovem, sofrido um aborto no decorrer da trama e tendo um filho ao fim do folhetim. Este fato chamou a atenção, visto que a maternidade sempre foi bastante explorada por Manoel Carlos através de suas Helenas. Porém, atentando para o fato de que a vida da mulher não se resume a maternidade, a história desta Helena, interpretada por Taís Araújo, tem um ponto a favor da mesma. A protagonista desta mesma trama era a mais velha de uma família de três irmãos. A irmã do meio tinha problemas com drogas e o irmão caçula tinha dúvidas com relação ao seu futuro no mercado de trabalho. Os pais eram separados e a mãe estava no segundo casamento. A mãe de Helena era dona de uma pousada Búzios, município litorâneo no estado do Rio de Janeiro. Em Viver a Vida (2009), Helena é uma modelo no auge de sua carreira que abandona as passarelas a pedido de Marcos (José Mayer), um homem mais velho que havia saído de um casamento de muitos anos com Teresa (Lília Cabral), com quem teve as filhas Luciana (Alinne Moraes), Isabel (Adriana Birolli) e Mia (Paloma Bernardi). Luciana é uma aspirante a modela e não tem simpatia por Helena, Isabel observa as pessoas e seus defeitos para usar contra as mesmas no momento oportuno. Por uma vez, Mia, que é adotada, é uma menina muito gentil, educada e se sente insegura por ainda não ter tido relações sexuais.
Helena, Luciana e um grupo de modelos viajam a trabalho para a Jordânia. Nesta viagem, Luciana provoca Helena constantemente. Helena perde a paciência com a enteada e a proíbe de a acompanhar em seu carro exclusivo. Como Helena era uma supermodelo, ela tinha este privilégio. Luciana viaja então na companhia de outras modelos e o ônibus em que as mesmas se encontravam se envolve em um grave acidente. A vida de Luciana e Helena passa por uma grande reviravolta após este episódio. Luciana fica tetraplégica e precisa aprender a lidar com sua própria condição. Embora não fosse ela quem estivesse dirigindo o ônibus em questão, Helena passa a conviver com o remorso, torna-se alvo do ódio de Teresa e vê o seu casamento com Marcos ruir. Helena se vê em um triângulo amoroso ao se envolver com Bruno (Thiago Lacerda), homem que o telespectador descobrirá no decorrer da trama ser filho de Marcos, cujo casamento com Helena chega ao fim.

Luciana (Alinne Moraes) e Tereza (Lília Cabral) em cena de Viver a Vida (2009). Imagem: Reprodução.
A sinopse de Viver a Vida (2009) é muito interessante, mas há uma grande diferença entre a teoria e a prática. A Helena vivida por Taís Araújo não conquistou a simpatia do público e um texto que parecia ter tudo para dar certo revelou-se vazio e superficial. Conforme dito neste texto, apresentar ao telespectador uma Helena não vinculada à maternidade é um fato que merece destaque, uma vez que a mulher não deve ter a maternidade como única opção. A questão é que tal protagonista não tinha na prática um texto forte o suficiente para prender a atenção do público. Enquanto Helena perdia espaço na trama em que era protagonista, a personagem Teresa crescia no folhetim. Este mesmo personagem havia sido uma grande modelo no passado quando largou a profissão para se casar com Marcos (assim como Helena, ele também pediu a primeira esposa para abandonar as passarelas). Quando Luciana fica tetraplégica, passa a viver em função da filha. Além disso, tem de conviver com as constantes brigas arrumadas por Isabel e apesar de ter sido traída inúmeras vezes, demorou para aceitar o divórcio.
Além de Teresa, a personagem Luciana também cresce bastante em Viver a Vida (2009). Ela era comprometida com o arquiteto Jorge, mas no decorrer da trama se envolve com o médico Miguel, irmão gêmeo de Jorge (ambos os personagens foram interpretados por Mateus Solano). Ingrid (Natália do Vale), mãe dos gêmeos, aprovava a relação de Luciana com Jorge, mas após o acidente sofrido pela nora, ela passa a se opor a relação. Isso porque Ingrid achava inapropriado um arquiteto ter que empurrar uma cadeira de rodas o tempo todo. Quando Luciana e Jorge se envolvem em uma relação séria, Ingrid também irá se opor a este relacionamento porque julgará inadequado um médico ter uma esposa cadeirante. Por conta da nova condição da nora, a mãe de Jorge e Miguel achará que a mesma não poderá ter uma vida sexual plena e nem engravidar. Ingrid pedirá a Luciana para não se casar com Miguel. Este fato chegará aos ouvidos de Teresa, que terá uma forte discussão com Ingrid, sua então amiga. A mãe de Jorge e Miguel era extremamente controladora e achava que nenhuma mulher era digna de casar com seus filhos. Desta forma, Ingrid se intromete nas relações amorosas dos mesmos, gerando algumas situações desagradáveis. A história de Luciana cresce tanto que no fim da trama seu parto (ao contrário do que Ingrid acreditava, Luciana consegue engravidar e dar à luz a gêmeos) é exibido e o de Helena, que engravida de Bruno, não.

Taís Araújo como a Helena de Viver a Vida (2009). Imagem: Reprodução.
A Helena de Viver a Vida (2009) decepcionou os fãs de Taís Araújo e também aqueles que gostam das novelas de Manoel Carlos. Isso porque de um lado havia um novelista que até então já havia feito história na teledramaturgia brasileira. Foi em Laços de Família (2000) que o Brasil chorou ao ver Camila raspando os cabelos por conta de uma leucemia e o Brasil acompanhou de perto o dia em que Fernanda (Vanessa Gerbelli) e Téo (Tony Ramos) foram baleados em Mulheres Apaixonadas (2003). Em Páginas da Vida (2006), novela anterior a Viver a Vida (2009), o drama de Nanda (Fernanda Vasconcellos) sensibilizou o público de uma tal forma que decidiram que ela ficaria até o fim da novela. Como ela morre e a sua morte é essencial para o desenrolar da trama, a solução encontrada foi “transformá-la” em um espirito, que sempre acompanhava os filhos e depois passou a acompanhar a mãe. E lembrando que os clássicos citados neste parágrafo são do ano 2000 em diante. Se todos os momentos memoráveis escritos por Maneco fossem acrescidos aqui, este parágrafo ficaria ainda maior. Do outro lado há Taís Araújo, nome que naquele momento já era forte na dramaturgia brasileira. Até 2009, Taís Araújo havia interpretado Xica da Silva em novela homônima produzida pela extinta Rede Manchete em 1996. Esta novela lançou Taís Araújo ao estrelato. Ela foi a segunda atriz negra a protagonizar uma novela na teledramaturgia brasileira. A primeira havia sido Ruth de Souza, que deu vida a Clóe em A Cabana do Pai Tomás (1969). Sim, demorou-se quase trinta anos para uma mulher negra protagonizar uma novela no Brasil pela segunda vez. Em 2004, Taís Araújo fez história ao ser a primeira atriz negra a protagonizar uma “novela das sete” da TV Globo. Ela deu vida a Preta em Da Cor do Pecado (2004) e dois anos depois interpretou a vilã cômica Ellen em Cobras & Lagartos (2006), um dos personagens mais populares de sua carreira. Quando foi confirmado que Taís Araújo viveria a próxima Helena de Manoel Carlos, muita gente se animou. Taís Araújo foi a primeira mulher negra a protagonizar uma novela do horário nobre e foi também a única Helena negra de Maneco. Vale lembrar também que nesta época muitas atrizes sonharam em interpretar uma Helena e um número reduzido de mulheres conseguiu este feito. Somente Regina Duarte realizou esta façanha em três ocasiões. Além disso, interpretar uma Helena era a consagração da carreira de uma atriz.
Os telespectadores e a própria Taís Araújo ficaram descontentes com a Helena de Viver a Vida (2009). Aliás, a atriz em questão nunca fez questão de esconder sua imensa frustração com tal personagem. Em recente entrevista para a revista Piauí, Taís afirmou que a Helena deveria ter sido a personagem da Lília Cabral por conta de sua relação com as filhas. Para piorar a situação, Taís Araújo recebeu muitas críticas por conta de sua personagem. Algumas destas vieram de grandes jornais e da crítica especializada. Na medida em que lia os capítulos, a protagonista de Viver a Vida (2009) não encontrava sua personagem, levando-a ao desespero. Taís não tinha um texto para explorar sua Helena. Alinne Moraes e Marcelo Valle, que estavam no elenco da novela em questão, foram os únicos que se solidarizaram com Taís. Além disso, a mesma recebeu a ajuda de Aracy Balabanian, que não estava no elenco da dita novela, com quem repassava diariamente os textos na casa de Aracy na Gávea, bairro nobre da cidade do Rio de Janeiro. Apesar de ter ficado extremamente frustrada, Taís Araújo entende que o fracasso de sua Helena não foi culpa sua. Ela acredita que o erro foi tratar uma Helena negra como branca, como se o Brasil vivesse uma democracia racial. Taís acredita que pode ter sido ingenuidade sua, do Maneco e também do diretor Jayme Monjardim achar que o negro passeia livremente por todos os lugares como o branco faz, o que não é verdade.
Em entrevista ao programa Roda Viva, Taís Araújo confessou que o fracasso de sua Helena lhe trouxe uma grande frustração e tristeza que duraram aproximadamente dois anos. Ela também achou que depois dela viriam outras atrizes negras, algo que de fato aconteceu, mas que demorou bastante. Taís Araújo só viria a se recuperar profissional e pessoalmente com a personagem Maria da Penha de Cheias de Charme (2012). Em participação no programa global Encontro, até então apresentado por Fátima Bernardes, Taís disse que a frustração com sua Helena a fez refletir acerca do tipo de atriz que queria ser.
Apesar de ter muitas críticas, Taís Araújo reconhece os pontos positivos de sua Helena. Ela sempre realça o pioneirismo de sua personagem em questão, sendo a primeira negra a protagonizar uma novela do horário nobre global e também a primeira e única Helena negra de Manoel Carlos. Durante o processo de construção de sua personagem, Taís quis que sua Helena tivesse cabelos crespos e a ideia foi aprovada pelo autor. Desta forma, este foi o primeiro papel de Taís Araújo em que ela não tinha os cabelos alisados ou trançados. Este fato trouxe representatividade para as mulheres negras brasileiras, que se reconheceram na Helena do Maneco. Além disso, em conversa com o autor de Viver a Vida (2009), Taís Araújo não viu necessidade de sua personagem, uma mulher negra, explicar a sua origem e a forma como se tornou uma supermodelo. A ideia era mostrar uma mulher negra que não estivesse vinculada a violência ou até mesmo a miséria. Entretanto, ambos caíram no mito da democracia racial. Isso porque o racismo atravessa a vida dos negros brasileiros, e no caso de mulheres negras, estas são atravessadas pelo racismo e também pelo machismo.
Conclusão
A Helena interpretado por Taís Araújo não teve o sucesso esperado porque seu texto não era forte o suficiente para prender a atenção do telespectador. Este fato fez com que a personagem Helena perdesse espaço na novela em que era protagonista. Apesar disso, Viver a Vida (2009) tem seus méritos ao escalar uma atriz negra para o papel principal cuja família era composta inteiramente por pessoas negras. Entretanto, o fato de o racismo não ser abordado no folhetim contribuiu para o enfraquecimento da personagem principal.
Referências:
https://hugogloss.uol.com.br/tv/novelas/tais-araujo-relembra-desespero-em-viver-a-vida-e-bastidores-traumaticos-com-diretor-de-xica-da-silva-era-abusivo/ visualizado no dia 15/03/2023;
Visualizado no dia 15/03/2023; Visualizado no dia 15/03/2023. Como citar este texto:
ALVES, Marllon. A problemática Helena do Manoel Carlos. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2023/03/24/a-problematica-helena-de-manoel-carlos/ publicado no dia 24/03/2023.
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A contribuição de Xuxa Meneghel para a erradicação da paralisia infantil no Brasil

Cartaz com rosto e música de Xuxa. Imagem: Acervo Estadão.
Por Marllon Alves
Na segunda metade dos anos 1980, Xuxa Meneghel era um nome mais do que consagrado entre o público infantil e uma das maiores artistas brasileiras deste período. Ela vivia o auge de sua carreira. Tamanho sucesso fez com que ela fosse convidada para fazer uma campanha de vacinação no país. Tal estratégia revelou-se bem sucedida e a contribuição de Xuxa para isso foi fundamental.
Em 1989, Xuxa era um nome extremamente conhecido no Brasil. Desde 1986 que ela apresentava o Xou da Xuxa, programa diário da grade da TV Globo e que era voltado para o público infantil. O mesmo era líder absoluto de audiência. Além disso, a “Rainha dos baixinhos” já havia atuado em alguns filmes nacionais voltados para as crianças e emprestado seu rosto e carisma para dezenas de produtos. Destaque também para a sua carreira como cantora. Apesar de não ter vocação para o canto, Xuxa gravava discos que eram recordes de vendas, fazendo apresentações musicais dentro e fora do Brasil. No ano de 1988, Xuxa havia lançado o Xou da Xuxa 3, considerado até hoje o segundo disco mais vendido da história da indústria fonográfica brasileira, perdendo apenas para o álbum Músicas para louvar ao Senhor (1998), de padre Marcelo Rossi. O disco em questão da loira contém no repertório músicas como Brincar de Índio (considerada hoje problemática pelo modo como os indígenas são representados), Dança da Xuxa, Abecedário da Xuxa (usada por muitos anos por muitas professoras brasileiras durante o processo de alfabetização das crianças), Arco-Íris e, é claro, Ilariê, que é sem dúvidas a música mais conhecida do vasto repertório musical de Xuxa Meneghel.
Tamanha popularidade de Xuxa fez com que ela fosse convidada para uma campanha publicitária cuja finalidade era estimular a vacinação contra a paralisia infantil. A loira aceitou o convite e o vídeo veiculado na TV era uma Xuxa rodeada de muitas crianças e usando um figurino similar ao que usava no matutino Xou da Xuxa. De forma musicada, Xuxa convidada as crianças a se vacinarem. A música, claramente inspirada no sucesso Ilariê, dizia o seguinte: “Tá na hora, tá na hora/ Na hora de vacinar/ Com o amigo Zé Gotinha/ Pra sempre poder brincar/ É lá, é lá , é lá, é lá/ Ô-ô-ô/ Que a turma da Xuxa também já se vacinou”. Além de cantar tal vinheta, ao fim da mesma, Xuxa pedia aos pais para levarem seus filhos menores de cinco anos para se vacinarem. A campanha publicitária em questão foi um sucesso e os índice de vacinação foram bastante satisfatórios. Diante deste fato, Xuxa também participou da campanha contra a paralisia infantil no ano de 1990. Desta vez, a loira pedia para os pais levarem as crianças aos postos de vacinação a fim de que estes tomem a segunda dose da vacina contra a paralisia infantil. O comercial era basicamente o mesmo daquele que havia sido veiculado no ano anterior, sofrendo pequenas alterações. O aviso “vacine de novo” ficava no alto do vídeo durante toda a vinheta veiculada na TV. A campanha de vacinação em questão foi um verdadeiro sucesso e ainda em 1989 a paralisia infantil foi considerada erradicada no Brasil.

Representação de Xuxa, Didi e Mônica em Gibi destinado a combater o sarampo. Imagem: Reprodução.
O sucesso das campanhas de vacinação contra a paralisia infantil fez com que Xuxa Meneghel fosse convidada para participar de outras campanhas a favor da vacina. No ano de 1992, Xuxa participou de uma campanha de vacinação contra o sarampo. Similar a campanha contra a paralisia infantil, a loira gravou um single para incentivar as crianças a se vacinarem. Mais uma vez de forma musicada, em Xô sarampo (1992) Xuxa Meneghel listava os sintomas do sarampo e alertava para o fato de o mesmo não ser algo banal. Além de uma campanha protagonizada apenas por ela mesma, Xuxa, ao lado de Didi Mocó de Os Trapalhões e de Mônica, da Turma da Mônica, tiveram suas imagens reproduzidas em gibi no ano de 1992. Vendido nas bancas de todo o Brasil, o gibi intitulado Xuxa, Didi e Mônica contra o sarampo tinha a finalidade de mostrar par o público infantil a importância da vacinação contra o sarampo.
Conclusão
A contribuição de Xuxa Meneghel foi essencial para a erradicação da paralisia infantil no Brasil. Isso porque a mesma apresentava diariamente um programa infantil na TV Globo e nesta época a televisão era, sem dúvidas, o maior veículo de comunicação de massas existente. Por sua vez, a Rede Globo neste mesmo período já era considerada a principal emissora de televisão do Brasil. Além da extrema popularidade de seu programa diário, Xuxa também era bastante conhecida por conta de seus filmes e de seus discos, sendo estes até hoje considerados recordistas de vendas e de público.
Referências:
https://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19890610-35063-nac-0004-999-5-not visualizado no dia 08/03/2023;
http://www.guiadosquadrinhos.com/edicao/xuxa-didi-e-monica-contra-o-sarampo/xu004100/88033 visualizado no dia 08/03/2023;
Visualizado no dia 08/08/2023; Visualizado no dia 08/03/2023; Visualizado no dia 08/03/2023.
Como citar este texto:
ALVES, Marllon. A contribuição de Xuxa Meneghel para a erradicação da paralisia infantil no Brasil. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2023/03/10/a-contribuicao-de-xuxa-meneghel-para-a-erradicacao-da-paralisia-infantil-no-brasil/ publicado no dia 10/03/2023.
