-
Relação da cantora Iza com o futebolista Yuri Lima revela concepções históricas acerca das relações heterossexuais

Yuri em foto com a camisa de seu atual clube e a foto com Iza postada nas redes sociais. Imagem: Reprodução/Instagram.
Por Marllon Alves
Embora não tenham assumido verbalmente a relação, é de conhecimento público que a cantora Iza e o jogador de futebol Yuri Lima estão vivendo um relacionamento. Esta relação tem gerado muitos comentários jocosos e também levantado alguns debates. Isso porque de um lado há uma cantora negra e nacionalmente conhecida e do outro lado há um futebolista que já jogos em clubes nacionalmente expressivos e que agora está em um clube considerado de pouca expressão.
Em janeiro deste ano, o jogador de futebol Yuri Lima publicou uma foto com um jogo de luz e sombras. Na mesma, não era possível identificar de fato quem eram as pessoas na fotografia. Uma das pessoas os seguidores do futebolista não tiveram dificuldades para constatar que se tratava do próprio Yuri Lima. Com base na silhueta, os internautas logo perceberam que se tratava de uma mulher que estava na fotografia em questão. Além de perceberam que era uma pessoa do sexo feminino que estava com o jogador, os internautas não tiveram dificuldades para perceber – ainda que a fotografia jogasse sombras sobre o casal, dificultando a identificação dos mesmos – que a mulher era a cantora Iza. Este fato teve muita repercussão nas redes sociais, sites e programas de celebridades. Diante deste fato, o jogador Yuri Lima revelou-se assustado com a visibilidade repentina, uma vez que não estava acostumado com isso e também porque sempre se manteve discreto com relação a vida pessoal. Perguntado sobre o assunto, Yuri Lima não confirmou, mas também não negou a relação. Ele e Iza têm adotado tal postura.
Assim que a relação em questão se tornou pública, comentários jocosos eclodiram nas redes zombando tal relacionamento. A maioria deles consideravam a relação de Yuri com Iza como o maior feito da carreira do atleta. Uma outra parte destes comentários tentavam entender o motivo da cantora ter se interessado por um futebolista com uma carreira considerada sem expressão. Para entender os motivos dos comentários, é necessário saber dos universos que ambos fazem parte. Yuri Lima é um jogador de futebol que já teve passagens por clubes nacionalmente conhecidos como Santos e Fluminense; e que também já passou por clubes pouco expressivos, como Juventude e Mirassol, seu clube atual. O machismo e o racismo no futebol são estruturais. Neste contexto, o homem é visto como o provedor de toda a família e na maioria dos casos escolhe mulheres brancas e mais jovens do que ele para contrair matrimônio.
Por sua vez, a cantora Iza ganhou notoriedade nacional em 2018 com o hit Pesadão, em parceria com Marcelo Falcão. Daí em diante, vieram sucessos como Ginga, Brisa, Gueto, Evapora, Meu Talismã, Dona de Mim e Fé. O canal de Iza no YouTube, até a edição deste texto, tinha mais de um bilhão e trezentas mil visualizações. Apenas no Instagram, Iza tem pouco mais de dezesseis milhões de seguidores (Yuri Lima tem em torno de 74 mil). Além disso, a cantora em questão é presença constante nos programas de televisão com grande audiência e em festivais nacionais de música. Iza também já fez shows fora do Brasil.
O Yuri virou motivo de piada nas redes sociais após sua relação com a cantora Iza vir a público porque ele é considerado um jogador de pouca expressão. Consequentemente, segundo a mentalidade dominante, isso o impossibilitaria de despertar o interesse de uma cantora nacionalmente conhecida como a Iza. Além disso, no mundo futebolístico, a maioria esmagadora dos jogadores de futebol escolhem mulheres brancas que atendam os padrões de beleza vigentes para contraírem matrimônio. Desta forma, a escolha de Yuri Lima por uma mulher negra para se relacionar é considerada pouco comum. Por sua vez, muita gente se pergunta o motivo de Iza ter escolhido uma pessoa pouco conhecida para se relacionar. Isso porque o senso comum acredita que ela, uma cantora de grande visibilidade, deveria escolher uma pessoa tão ou mais conhecida como ela; e não alguém que a maioria das pessoas não sabe quem é e que talvez não tenha tanto dinheiro como ela. Além disso, deve-se dar destaque ao etarismo, pois Iza nasceu no ano de 1989 e Yuri em 1994. A maioria das pessoas acha natural um homem mais velho se relacionar com uma mulher mais nova, mas o inverso ainda é um tabu, principalmente quando a mulher é negra.
Conclusão
Mesmo que nenhum dos dois tenham assumido publicamente a relação, o envolvimento de Iza com Yuri Lima mostra que grande parte das pessoas acreditam que cabe ao homem ser o provedor da família e que sua esposa pode até ser conhecida, mas não mais conhecida do que o esposo. Isso acontece porque a mulher ainda é ensinada que a sua vida deve estar alinhada aos anseios do marido, não podendo ter sonhos próprios.
Como citar este texto:
– ALVES, Marllon. Relação da cantora Iza com o futebolista Yuri Lima revela concepções históricas acerca das relações heterossexuais. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2023/02/09/relacao-da-cantora-iza-com-o-futebolista-yuri-lima-revela-concepcoes-historicas-acerca-das-relacoes-heterossexuais/ publicado no dia 09/02/2023.
-
Uma “criança não-binária” na televisão brasileira

Bernadete (kayky Brito) ao lado de Jezebel (Elizabeth Savala), sua mãe adotiva em Chocolate com Pimenta (2003). Imagem: Renato Rocha Miranda/Globo.
Por Marllon Alves
Chocolate com Pimenta (2003) é, sem dúvidas, um dos maiores sucessos que a teledramaturgia brasileira já viu. A história da protagonista Ana Francisca (Mariana Ximenes) é mais do que suficiente para manter os telespectadores na frente da TV. Entretanto, uma das histórias mais lembradas desta novela é a de Bernadete (Kayky Brito), uma criança educada como se fosse uma menina, mas que não era exatamente uma.
Exibida pela primeira vez entre os anos de 2003 e 2004 (reprisada umas tantas vezes no Vale a pena ver de novo e algumas outras tantas no canal Viva, além de estar disponível na Globoplay), Chocolate com Pimenta tem por história central a vida de Ana Francisca, ridicularizada pelo modo como se veste e comporta. Após ser humilhada na frente de toda a cidade após tomar um banho de tinta verde, a jovem jura vingança contra os que a fizeram chorar no passado. Se envolve com Danilo (Murilo Benício), de quem acaba engravidando. Julgando que Bárbara (Lília Cabral) havia contado ao rapaz sobre sua gravidez, Ana Francisca passa a ter raiva do mesmo e também preocupada, uma vez que nos anos 1920 uma mãe solteira tinha a sua vida arruinada para sempre. É neste contexto que entra em cena Ludovico (Ary Fontoura), amigo de Ana Francisca. Dono da fábrica de chocolates sediada na fictícia cidade de Ventura, Ludovico fingiu ser empregado da fábrica em questão e foi assim que ele e Ana Francisca, que também trabalhava na fábrica, se tornaram amigos. Ao contrário de experiências anteriores, a amizade em questão foi desinteressada. Ludovico pergunta se Ana Francisca quer se casar com ele e assim dar seu respectivo sobrenome ao bebê que a amiga esperava.

Danilo encara Ana Francisca após esta se casar com Ludovico. O jovem acredita que foi abandonado por Ana para que esta pudesse dar o “golpe do baú” em Ludovico. Imagem: João Miguel Júnior/Globo.
Ana Francisca aceita se casar com o amigo e na saída da igreja a jovem é chamada de golpista por algumas pessoas. O matrimônio foi um gesto de amizade e nunca foi consumado. Após se casar com Ludovico, Ana Francisca passa por uma profunda transformação em seu modo de vestir, falar e se comportar. Ambos foram casados por aproximadamente sete anos e após a morte de Ludovico, Ana Francisca decide retornar a Ventura. A jovem insegura e ingênua que havia deixado a cidade anos antes agora volta uma mulher bonita, inteligente e refinada. Além disso, Ana Francisca agora tem a cidade em suas mãos, uma vez que Ludovico ao morrer deixou tudo para a moça em testamento, inclusive a fábrica de chocolates, essencial para a economia da cidade de Ventura. E é aí que começa a vingança de Ana Francisca.
A estrutura de uma telenovela consiste em ter várias tramas relacionadas a trama central. Uma das histórias contadas em Chocolate com Pimenta (2003) é a de Bernadete (Kayky Brito). Filha de Jezebel (Elizabeth Savala), irmã de Ludovico, Bernadete é considerada uma menina “esquisita” por todos a sua volta, inclusive por seu tio. A criança tem espírito insubmisso, não gosta de brincar de bonecas, tem dificuldades para se “comportar como uma moça” e tem uma força física fora do comum para uma menina, chegando a botar para correr alguns homens no decorrer do folhetim. Quando se torna adolescente, as “esquisitices” de Bernadete tornam-se ainda mais evidentes. Apesar de estar se aproximando de uma idade até então tida como ideal para uma mulher contrair matrimônio, Bernadete não se sente interessada por nenhum rapaz. Neste contexto, o sentimento da moça pela então melhor amiga Cássia (Luiza Curvo) mostra-se ser muito mais do que uma amizade, embora neste momento Bernadete não saiba bem o que esteja sentindo. Além disso, as mudanças decorridas com a puberdade tão comuns no corpo das mulheres não ocorrem com Bernadete. Em certa ocasião, Dona Mocinha (Denise Del Vecchio) foi colocar um colar de pérolas na agora moça e viu que a mesma tinha “gogó”, assim como os homens. Além disso, é perceptível também que os seios da jovem não crescem.

O episódio em que o segredo sobre Bernadete é revelado é até hoje um dos mais lembrados de Chocolate com Pimenta. Créditos na imagem.
Acreditando que Bernadete era de fato uma menina, Jezebel arranja um casamento para a moça, uma vez que este era o destino da maioria das jovens dos anos 1920 no Brasil. No auge do desespero por não saber o que acontece consigo mesma (se ainda hoje assuntos relacionados a sexualidade são encarados como um tabu por parte da sociedade, na década de 1920 esta questão era muito mais difícil de ser discutida) e prometida a uma rapaz, Bernadete pede a ajuda de Dona Mocinha. Após muita insistência, Jezebel aceita levar a filha para ser atendida por Paulo (Guilherme Piva), o médico da cidade. Bernadete se recusa a abrir suas pernas para o médico, impedindo assim que este a examine. Desta forma, as mulheres presentes no consultório acabam realizando este serviço. Com isso, Dona Mocinha, Jezebel, Lili (Maria Maya) e Márcia (Drica Moraes) veem o que há entre as pernas de Bernadete. Em uma sequência cômica, as mulheres ficam horrorizadas com o que é visto e Dona Mocinha chega a desmaiar. O choque é tanto que as mulheres mal têm coragem de dizer o que viram. A exceção é Márcia que, após olhar mais de uma vez para ter certeza, diz: “Ai… mas ela é homem!”
O capítulo em que Bernadete descobre que na verdade é um menino foi muito aguardado na primeira vez em que a novela foi ao ar e sempre gera muita repercussão quando a novela é reprisada. Exibida pela primeira vez, o capítulo em questão teve mais de 40 pontos de audiência. Este fato não deve ser visto de maneira isolada. As “novelas das seis” de Walcyr Carrasco, inclusive Chocolate com Pimenta (2003), tiveram índices de audiência esperados para uma novela do “horário nobre”. O folhetim em questão não foi o primeiro a representar uma pessoa “não-binária” na televisão brasileira. Cláudia Celeste (1952-2018), uma mulher trans, interpretou a travesti Dinorá, personagem de Olho no Olho (1988), novela da extinta Rede Manchete. O ator Floriano Peixoto deu vida a Sarita em Explode Coração (1995) e Claudia Raia interpretou Ramona em As Filhas da Mãe (2001). Ramon nasceu menino e após um período sem dar notícias, retorna como a bela Ramona após passar por uma cirurgia de mudança de sexo. E estes são apenas alguns exemplos, esta lista é maior.

Após descobrir que na verdade é um menino, Bernadete (que passa a atender por Bernardo) entende que seu sentimento por Cássia vai além da amizade. Imagem: Reprodução.
Após um momento cômico em que todos descobrem que Bernadete é um menino, uma sequência dramática e igualmente esperada em que os fatos são esclarecidos toma lugar no folhetim. Jezebel adoeceu enquanto estava grávida e fez uma promessa a Santa Bernadete: dedicaria a filha à santa. Entretanto, Jezebel perde o bebê e, mesmo assim, mantém de pé a promessa feita a santa em questão. Cândida (Yeda Linhares) já era empregada de Jezebel neste período. Era casada, mas tornou-se viúva e antes do marido falecer, teve um filho com o mesmo. Como a patroa “não aceitava empregada com criança” e Cândida precisava do emprego, não conta para Jezebel que tem um filho. O salário da mesma não era alto e a mãe de Bernadete passava por muitas dificuldades financeiras. Quando soube que a patroa estava à procura de uma criança do sexo feminino para adotar, Cândida teve a ideia de vestir o filho como se fosse uma menina e leva-lo a Jezebel, que ficou com a criança. A empregada em questão ficou responsável pelos cuidados com a criança, sendo a única que dava banho na mesma, coisa que a patroa nunca fez. Para manter o segredo em oculto, Cândida convence Bernadete de que a mesma não deveria ficar nua na frente de ninguém e nem deveria ver ninguém sem roupa.
A descoberta de que Bernadete é um menino e não uma menina responde as “esquisitices” da mesma, como por exemplo: a aversão por bonecas, o gosto por carros de brinquedo, a falta de interesse por rapazes e o forte sentimento que nutre por Cássia. Após a descoberta do real sexo de Bernadete, a mesma tem seus cabelos cortados e passa a usar roupas masculinas. Além disso, o nome Bernadete fica no passado e a moça, agora um moço, adota o nome Bernardo. Esta transformação foi a primeira de muitas. As pessoas que faziam parte do círculo social de Bernadete, assim como a (ou melhor: o) própria, precisavam entender que a moça era na verdade um rapaz. A personagem em questão de Chocolate com Pimenta (2003) não deve ser considerada uma “criança não-binária” porque Bernardo nunca se sentiu confortável com o “mundo feminino” no qual esteve inserido por muito anos. Entretanto, este foi o termo encontrado para definir Bernadete/Bernardo.
Conclusão
Embora não seja de fato uma porque não se reconhecia como tal, Bernadete/Bernardo pode ser considerada a primeira “criança não-binária” da televisão brasileira. A personagem em questão fez muito sucesso quando Chocolate com Pimenta (2003) foi exibida pela primeira vez. Além disso, nas muitas vezes em que o dito folhetim foi exibido, o personagem sempre teve grande e positiva repercussão. Não é exagero dizer que Kayky Brito fez história na televisão brasileira ao dar vida a Bernadete/Bernardo.
Referências:
– CHOCOLATE COM PIMENTA. Fabrício Mamberti. Rio de Janeiro: Rede Globo de Televisão, 2003;
– https://natelinha.uol.com.br/novelas/2022/10/28/bernadete-e-homem-entenda-personagem-de-chocolate-com-pimenta-189244.php visualizado no dia 01/02/2022;
– https://memoriaglobo.globo.com/entretenimento/novelas/chocolate-com-pimenta/noticia/tramas-paralelas.ghtml visualizado no dia 01/02/2022.
Como citar este texto:
– ALVES, Marllon. Uma “criança não-binária” na televisão brasileira. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2023/02/03/uma-crianca-trans-na-televisao-brasileira/ publicado no dia 03/02/2022.
-
Daniella Perez: a namoradinha do Brasil

Daniella Perez em pose para foto. Imagem: Arquivo pessoal.
Por Marllon Alves
Daniella Perez teve uma carreira meteórica e que foi interrompida de forma abrupta. Iniciou sua carreira como bailarina e com o passar dos anos revelou-se uma brilhante atriz. A rápida ascensão na dramaturgia fez com que a mesma começasse a ser apontada como a “namoradinha do Brasil”. Este não era um posto qualquer. Afinal de contas, ele é tradicionalmente atribuído a uma atriz que no começo dos anos 1990 já tinha uma carreira consolidada e consagrada.
Filha da novelista e historiadora Glória Perez e do engenheiro Luiz Carlos Saupiquet Perez, Daniella Perez é a filha mais velha de uma família de três irmãos. A nível de curiosidade, Rodrigo, o segundo filho de Glória Perez, é advogado. Já Rafael, o terceiro filho, nasceu com uma condição que nem a Medicina conseguiu de fato explicar e faleceu no ano de 2002. Oriunda de uma família de classe média, Daniella Perez começou a dançar ainda na infância, se dedicando ao teatro posteriormente. Ingressou na faculdade de Direito, assim como um de seus irmãos, mas a vocação artística falou mais alto e Daniella não concluiu a graduação em questão.

Daniella Perez e Raul Gazolla em cena de Kananga do Japão (1989). Ambos se casaram no ano seguinte. Imagem: Reprodução.
A estreia de Daniella Perez em novelas foi em Kananga do Japão (1989), produzida pela extinta TV Manchete, emissora onde a mãe da atriz também trabalhou, escrevendo a telenovela Carmem (1987) para a mesma. Ambientada no Brasil dos anos 1930 e no contexto histórico do mesmo, Kananga do Japão (1989), cujo nome é uma referência a um famoso bordel da década de 1930, conta a história de Dora Tavares (Cristiane Torloni), uma moça rica que perdeu tudo com a Crise de 1929. A mesma se apaixona por Alex Lima (Raul Gazolla), mas desejando a vida de outrora, se casa com Danilo (Giuseppe Oristanio). Desta forma, um triângulo amoroso é formado. A participação de Daniella Perez nesta novela era pequena e foi contracenando com Raul Gazolla que ambos se apaixonaram. A paixão foi tão intensa que ambos se casaram em 1990. É interessante notar que, ao lado de atores como Humberto Martins, Herson Capri, Victor Fasano, Kadu Moliterno, Fábio Júnior e Edson Celulari, por exemplo, Raul Gazolla integrou o time de galãs brasileiros dos anos 1980.

Daniella Perez ao lado de Jorge Pontual e Jaqueline Lawrence em cena de O Dono do Mundo (1991). Imagem: Reprodução.
Barriga de Aluguel (1990) é a segunda novela do currículo de Daniella Perez. Escrita por Glória Perez, a novela tem como personagens centrais o casal Ana Lúcia (Cássia Kis) e Zeca (Victor Fasano) e Clara Ribeiro (Cláudia Abreu). Após ter tentado engravidar muitas vezes, Ana Lúcia descobre que não pode gerar uma criança. O renomado médico de Ana diz que a possibilidade da mesma ser mãe é contratar uma barriga de aluguel. De origem humilde e tendo mais de uma jornada de trabalho, Clara aceita ser a barriga de aluguel de Ana, que oferece a jovem US$ 20 mil pelo serviço. No decorrer da gestação, Clara se envolve emocionalmente com a criança e reluta em entregar a mesma após o nascimento. A situação ganha contornos mais dramáticos depois de Clara ficar estéril após um parto difícil. O grupo de dança que Daniella Perez fazia parte foi convidado pela TV Globo para serem dançarinos na novela em questão. A atriz fez um teste individual e conseguiu o papel de Clô, uma bailarina que dançava no Copacabana Café. Por conta de seu talento e carisma, a personagem de Daniella Perez ganhou espaço na trama. Rejeitada quando teve a sua sinopse apresentada pela primeira vez à alta cúpula da TV Globo, Barriga de Aluguel (1990) fez grande sucesso na época de sua primeira exibição e levou o grande público a discutir a temática da inseminação artificial. Atualmente, a novela em questão é um clássico da teledramaturgia brasileira.
O trabalho de Daniella Perez em Barriga de Aluguel (1990) chamou a atenção do diretor Dennis Carvalho, que a convidou para trabalhar na novela O Dono do Mundo (1991). Com a proposta de discutir valores éticos, tal novela de Gilberto Braga conta a história de Felipe Barreto (Antônio Fagundes), um cirurgião plástico antiético e que é casado com Stella (Glória Pires) por interesse, uma vez que a família desta é rica. No decorrer da trama, Felipe se vê atraído por Márcia (Malu Mader), uma professora simples e moradora do subúrbio. Por sua vez, Márcia é casada com Walter (Tadeu Aguiar), um funcionário da clínica de Felipe. Nesta novela, Daniella Perez deu vida a Yara, irmã da personagem de Glória Pires, uma das principais do folhetim em questão. Além de ser irmã de Glória Pires, nesta mesma novela Daniella era filha de Stenio Garcia na trama. Yara chamava a atenção de alguns rapazes na trama e um destes era Xará/Alfredo (Jorge Pontual), mas foi com Umberto (Marcelo Serrado) que Yara formou um par romântico. Yara é considerado o primeiro papel de destaque da curta carreira de Daniella Perez como atriz. O Dono do Mundo (1991) não teve uma boa repercussão e Gilberto Braga, autor da novela, precisou fazer muitas alterações para que o folhetim ganhasse a simpatia do público.

Daniella Perez e Fábio Assunção em De Corpo e Alma (1992). Os atores formavam um par romântico no folhetim e esta foi a última novela de Daniella. Imagem: Reprodução.
No ano de 1992 é exibida a novela De Corpo e Alma, escrita por Glória Perez. Tendo por temática central a doação de órgãos, o folhetim em questão conta a história de Diogo (Tarcísio Meira), um juiz íntegro e que não vê perspectivas em seu casamento com Antônia (Betty Faria) ao perceber que está apaixonado por Betina (Bruna Lombardi), um amor do passado. O dever fala mais alto e Diogo decide manter seu casamento com Antônia. Após uma discussão com Diogo, Betina morre em um acidente de carro. Seu coração é transplantado em Paloma (Cristiana Oliveira), uma moça casada com o stripper Juca (Victor Fasano), que trabalha no Clube das Mulheres. Depois do transplante, Paloma se vê apaixonada por Diogo, para desgosto de Antônia. Graças a tal folhetim, a doação de órgãos aumentou consideravelmente na época e os Clubes das Mulheres se popularizaram pelo Brasil. Nesta novela, Daniella Perez deu vida a Yasmin, irmã de Paloma e filha de Domingos (Stenio Garcia). Neste folhetim, Daniella Perez e Stenio Garcia trabalharam como pai e filha pela segunda vez. A primeira havia sido em O Dono do Mundo (1991). Yasmin é apaixonada por Caio (Fábio Assunção, cuja imagem de galã se consolidaria nos anos seguintes), mas como as famílias eram rivais, o romance foi impedido. Por conta deste fato, Yasmin inicia um relacionamento com Bira (Guilherme de Pádua), um cobrador de ônibus e amigo da família de Yasmin. Entretanto, o relacionamento não vai adiante porque Yasmin não consegue esquecer Caio.

Daniella Perez e Guilherme de Pádua como Yasmin e Bira em De Corpo e Alma (1992). Imagem: Reprodução.
De Corpo e Alma (1992) é uma novela que ficou marcada pelo assassinato de Daniella Perez, motivo pelo qual nunca foi reprisada. Era de conhecimento dos profissionais envolvidos na novela em questão que Guilherme de Pádua assediava Daniella na tentativa de esta convencer a mãe a aumentar a sua participação no folhetim. Os assédios foram se tornando cada vez mais constantes. Entretanto, Daniella não dizia nada a ninguém, apesar de o mesmo ser evidente. Uma das características dos trabalhos de Glória Perez é o mershan social (abordar temáticas de interesse público, como por exemplo a inseminação artificial, doação de órgãos, desaparecimento de crianças, vício em drogas, deficiência visual, cleptomania, tráfico humano… todos estes assuntos já foram abordados por Glória Perez em seus folhetins). Na época em que a novela em questão estava sendo exibida havia uma onda de sequestros no Rio de Janeiro, motivo pelo qual o Disque Denúncia foi criado. Glória achou por bem divulgar o então novo serviço e escreveu um sequestro que ocorria no núcleo suburbano de De Corpo e Alma (1992), onde o personagem de Guilherme de Pádua estava inserido. Glória Perez dedicou praticamente um bloco inteiro de capítulos em cima do sequestro em questão. Bloco entregue, a autora é comunicada por Mário Lúcio Vaz, então diretor geral da Central Globo de Produção, que a única interferência de Roberto Marinho (então dono do Grupo Globo) era não falar de sequestro em novelas por acreditar que este fato incentivaria tal prática. Desta forma, Glória Perez teve de reescrever seis capítulos (cada bloco tem essa quantidade) em uma única noite. Como isso é humanamente impossível, a solução encontrada foi diminuir as cenas do subúrbio e aumentar as cenas que não se passavam ali. Isso aconteceu na mesma semana em que o ônibus de Bira incendiava e a Yasmin rompia o namoro com o mesmo. Ao receber os capítulos reformulados às pressas, Guilherme de Pádua constatou que não aparecia em dois capítulos, algo que nunca havia acontecido até então. O ator acreditou que os rumos que seu personagem estava tomando e a sua ausência em dois capítulos estavam relacionados a uma suposta reclamação que Daniella Perez fez de si a mãe. Guilherme de Pádua acreditou também que sua ausência seria uma punição por parte de Glória Perez. Assim, a solução encontrada foi matar Daniella. Há uma hipótese em que se acredita que o alvo de Guilherme era Glória Perez, mas na impossibilidade de matar esta, optou-se por matar a filha.
No dia 28 de dezembro de 1992, Guilherme de Pádua gravou na parte da manhã e retornou na parte da noite para retomar o trabalho. Neste dia, o ator dizia a todos constantemente que precisava buscar a esposa no shopping (no julgamento este fato foi álibi pelos criminosos para não serem desmascarados). Ao retornar ao estúdio, foi observado que um grande lençol branco cobria um grande volume no banco traseiro de Guilherme de Pádua. O fato chamou a atenção, mas como faltavam poucos dias para o réveillon, achou-se que o ator iria passar a virada do ano em um lugar distante. Quando as gravações do dia foram encerradas, Daniella Perez e Guilherme de Pádua foram embora, mas não sem antes posarem para fotos com os fãs. Quando Daniella parou em um posto de gasolina para abastecer, Guilherme de Pádua emboscou a colega de elenco. Ele deu um soco na atriz e a colocou no carro da mesma. A agressão foi tão violenta que a jovem desmaiou e teve seu maxilar quebrado. Além disso, a violência envolvida fez com que a atriz urinasse na própria roupa. Paula Thomaz (que hoje assina Paula Nogueira Peixoto), que estava o tempo todo escondida no banco traseiro do carro de Guilherme, assume o volante deste mesmo veículo. Ambos vão para um local ermo da cidade do Rio de Janeiro e neste lugar, ainda no carro de Guilherme e desacordada, Daniella recebe aproximadamente dezoito punhaladas que perfuraram o coração (que ficou exposto) e o pulmão. Após isso, o corpo de Daniella Perez é arrastado até o matagal próximo e os assassinos fogem, deixando o carro da atriz para trás. A placa do veículo do ator foi adulterada (não sem antes ser anotada por Hugo da Silveira, um advogado que passava no local) e Guilherme e a esposa chegaram a prestar condolências a Glória Perez e Raul Gazolla, esposo de Daniella. Entretanto, a farsa durou pouco e o casal de assassinos foi desmascarado. O assassinato de Daniella Perez causou choque e revolta em todo o Brasil; e mudanças no Código Penal foram solicitadas a fim de que Guilherme e Paula fossem punidos com rigor pela lei. Ambos pegaram mais de dez anos de prisão, mas não cumpriram a totalidade da pena por apresentarem bom comportamento durante o período de reclusão.

Daniella Perez olha sorridente para a câmera. Créditos na imagem.
Quando faleceu, Daniella Perez vivia aquilo que parecia ser o melhor momento de sua carreira. Sua atuação em O Dono do Mundo (1991) e De Corpo e Alma (1992) fizeram com que parte do público e da mídia a apontassem como a nova “namoradinha do Brasil”. Este apelido é referente a personagens ingênuas e também carismáticas, fazendo as mesmas se tornassem muito populares. A primeira atriz e também a que mais tempo ocupou esse posto foi Regina Duarte. Daniella Perez passou a ser vista como a candidata ideal para substituir aquela que deu vida a três Helenas do novelista Manoel Carlos. Mesmo que do ponto de vista simbólico, este fato não deve ser visto de forma banal. Isso porque Daniella Perez era vista como a substituta ideal de Regina Duarte, atriz que no início dos anos 1990 já tinha feito história na teledramaturgia brasileira. Irmãos Coragem (1970), Selva de Pedra (1972), Malu Mulher (1979), Guerra dos Sexos (1983), Roque Santeiro (1985), Vale Tudo (1988) e Rainha da Sucata (1990) foram algumas das novelas que Regina Duarte havia feito até então, presenteando os telespectadores com personagens lembrados até nos dias atuais.
Conclusão
A estrutura familiar de Daniella Perez permitiu que a mesma desenvolvesse suas habilidades artísticas ainda na infância. O fato de a mãe já ser uma novelista consagrada na época de seu assassinato facilitou o aparecimento de Daniella na frente das câmeras. Entretanto, Daniella Perez mostrou que merecia estar onde estava porque tinha talento para isso e não porque a mãe era uma novelista de sucesso. A trajetória artística de Daniella parecia promissora. Em um dos trailers de divulgação de Pacto Brutal (2022), série da HBO Max sobre o assassinato de Daniella Perez, um Eri Johnson muito emocionado diz que “hoje ela (Daniella Perez) seria uma tremenda estrela”. Entretanto, isso é algo que ninguém nunca vai saber de fato.
Referências:
– https://tvhistoria.com.br/como-globo-explicou-saida-de-daniella-perez-em-de-corpo-e-alma/ visualizado no dia 15/12/2022;
– https://extra.globo.com/famosos/daniela-perez-viveu-seu-primeiro-papel-de-destaque-em-dono-do-mundo-que-ganha-sua-primeira-reprise-veja-fotos-da-atriz-14368335.html visualizado no dia 15/12/2022;
– https://natelinha.uol.com.br/famosos/tudo-sobre/daniella-perez visualizado no dia 15/12/2022;
– http://www.daniellaperez.com.br/?p=2658 visualizado no dia 15/12/2022.
Como citar este texto:
– ALVES, Marllon. Daniella Perez: a namoradinha do Brasil. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2022/12/15/daniella-perez-a-namoradinha-do-brasil/ publicado no dia 15/12/2022.
-
Benedita da Silva: a evangélica que já era progressista muito antes do termo existir

Benedita da Silva. Imagem: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados.
Por Marllon Alves
Apesar de professar a fé evangélica, Benedita da Silva teve uma atuação política pouco comum para uma cristã até então pertencente a Assembleia de Deus. Não havia (ou não era muito conhecida) uma classificação especifica para a atuação de Benedita na esfera política, embora fosse evidente que a mesma era incomum. Nos últimos tempos tem ganhado força a definição de “cristão progressista” e, ao analisar a trajetória política da mulher analisada neste texto, a mesma pode ser encaixada nesta mesma vertente em questão.
Filha de um operário do ramo da construção e de uma lavadeira, ambos analfabetos, Benedita da Silva é a décima-segunda em uma família de treze filhos. Trabalhou como empregada doméstica e camelô. Tornou-se auxiliar de enfermagem e quando já era vereadora, graduou-se em Serviço Social. A politização de Benedita se deve aos pais. Filha de uma mãe de santo, herdou de sua genitora a capacidade de liderança e nas associações comunitárias desenvolveu sua formação política. Aos 24 anos de idade torna-se membro da Assembleia de Deus, mas não aderindo ao “apoliticismo”. E aqui merece uma observação. A Assembleia de Deus no Brasil se consolidou entre as camadas mais pobres da sociedade. Neste contexto, o ingresso de assembleianos na política institucional não era algo muito comum até então.
Benedita da Silva é filiada ao Partido dos Trabalhadores (PT) desde o seu ingresso na política institucional, no início dos anos 1980, quando foi eleita vereadora pela cidade do Rio de Janeiro, sendo a única eleita pelo partido na cidade. Quando se filiou ao partido em questão, o Brasil vivia os últimos anos de uma ditadura civil-militar imposta em 1964. Surgido em meados dos anos 1970 e graças ao trabalho de base, o PT tornou-se o partido que incorporou dentro de si todas as insatisfações e anseios da sociedade de então (não tardaria para este mesmo partido se tornar o maior e mais importante partido de esquerda da América Latina). A nível nacional, o surgimento e expansão do PT ocorreu em um contexto em que a ditadura civil-militar no Brasil já agonizava, conforme citado neste mesmo parágrafo. Já a nível internacional, o mundo vivia os anos finais da Guerra Fria, onde EUA e URSS disputavam a hegemonia global. Motivados pelo sentimento anticomunista, o PT foi associado a URSS e consequentemente transformado na encarnação do mal, recebendo todo tipo de xingamento que o comunismo e a esquerda em geral costumam receber no Brasil. Organizada tradicionalmente em uma hierarquia, tal como as Forças Armadas e bastante conservadora, não é de se estranhar que muitos membros da Assembleia de Deus simpatizassem com a ditadura. Desta forma, Benedita da Silva mostrou mais uma vez ser um ponto fora da curva.
As pautas defendidas por Benedita da Silva estavam relacionadas ao direito dos pobres, dos negros, das mulheres e homossexuais. Por conta disso, a mesma era vista com desconfiança por boa parte das lideranças cristãs porque estas mesmas pautas eram antagônicas as diretrizes de sua denominação evangélica. Eleita vereadora em 1982, quatro anos depois Benedita da Silva chegou à Assembleia Nacional Constituinte (a Carta Magna que vigora no país ficou pronta em 1988) e mais uma vez Benedita da Silva mostrou sua peculiaridade. Negra, de origem humilde e neta de escravos, Benedita tinha por colegas no Congresso Constituinte pastores, cantores sacros e empresários bem sucedidos. Muitos destes não tinham experiência política e eram defensores de pautas conservadoras. Em uma “cena simbólica”, conforme registrou a revista Veja na edição de 1º de julho de 1987, Benedita viveu um dia histórico. Acerca do ocorrido, a mesma revista disse o seguinte: “No plenário da Constituinte de 1823, discutiam-se a liberdade de imprensa, os poderes do imperador Pedro I e como seria o país que acabava de declarar sua independência – mas nenhum parlamentar ocupou-se da questão do trabalho em um país que, naquela época, utilizava mão-de-obra escrava. Na última quarta-feira, quando a deputada Benedita da Silva, do PT fluminense, assumiu a presidência da Constituinte pelo prazo de 30 minutos, ocorreu um fato histórico. Pela primeira vez na História do país, uma neta de escravos que trabalhavam em fazendas de Minas Gerais comandou a sessão do plenário encarregado de escrever uma nova Carta de Leis para o país”. No dia seguinte e mais uma vez por meia hora, Benedita presidiu o trabalho da Constituinte mais uma vez. Diante do simbolismo e privilégio por ocupar, ainda que temporariamente, a presidência da Mesa, a política disse que sentiu “calafrios”. “Eu nunca me preparei psicologicamente para isso”, diria Benedita. Crítica das estruturas sociais do país, a política em questão afirmou: “Favelado só aparece nos jornais em condições desfavoráveis. Espero apenas que, um dia, isso não seja mais novidade”.

Benedita da Silva durante pronunciamento na Constituinte, em 1986. Imagem: Reprodução.
Conforme dito neste texto, Benedita da Silva foi uma assembleiana fora da curva e justamente por conta deste fato pagou seu preço. Embora fosse membro da Assembleia de Deus (atualmente, Benedita frequenta a Igreja Presbiteriana), a política em questão nunca foi um “produto político” da Assembleia de Deus. Nunca foi uma candidata oficial desta mesma denominação e a sua trajetória política fere a mentalidade tradicional da igreja, que não incentiva membros comuns (principalmente mulheres pobres e negras) a conquistarem posições de destaque na sociedade secular. Em 1992, quando tentou ser eleita prefeita da cidade do Rio de Janeiro, não recebeu o apoio das principais Assembleias de Deus na época. Recebeu o apoio de alguns segmentos, mas foram exceções. Em setembro de 1986, o Mensageiro da Paz, principal jornal das Assembleias de Deus no Brasil, em uma reportagem sobre alguns candidatos assembleianos a Constituinte, falou de Benedita da Silva. A descrição da mesma revela mais uma vez que a política era um ponto fora da curva. “A vereadora Benedita da Silva, líder do seu partido na Câmara do Rio de Janeiro e membro da AD Leblon, tem procurado levar sempre à comunidade evangélica a necessidade de um envolvimento maior do crente com a verdadeira justiça social”, escreveu o Mensageiro da Paz. Curiosamente, este mesmo jornal ignorou completamente a histórica ocasião em que Benedita da Silva presidiu a Assembleia Constituinte.
“Minha prática política é baseada na minha prática espiritual. Por isso quero que todos tenham direitos”, disse Benedita da Silva ao Mensageiro da Paz, jornal que havia ignorado a mesma no passado. Neste mesmo jornal, a política disse que, como mulher negra e cristã, enfrenta discriminações e preconceitos, mas isso não a impedia de continuar lutando por justiça social. “Não compreendo como existem cristãos muito ricos e não dividem a riqueza com os empregados, deixando até de pagar férias, 13º salário…E à noite estão nas igrejas, dirigindo cultos”. Neste mesmo jornal, em edição de setembro de 1986, Benedita da Silva disse que “essa discussão tem muita importância para mim, mesmo que tenha algum político evangélico e latifundiário querendo defender suas terras. Minha participação será sobretudo, a de uma serva do Senhor na Constituinte”.
Apesar de rejeitada pelas principais lideranças evangélicas, Benedita da Silva tornou-se muito popular nas periferias do Rio de Janeiro. Embora tenha perdido a disputa pela prefeitura da cidade do Rio de Janeiro em 1992, no ano de 1994 a mesma foi eleita senadora por este mesmo estado. Mais de 2.200.000 fluminenses elegeram Benedita da Silva para o Senado Federal. Era a primeira vez no Brasil que uma mulher negra chegava à câmara alta do Poder Legislativo brasileiro. Foi eleita vice-governadora do estado do Rio de Janeiro na chapa de Anthony Garotinho em 1998, renunciando antes ao seu mandato de senadora, que terminaria em 2002. Neste mesmo ano de 2002 houve no Brasil eleições para a Presidência da República e para governadores dos estados do país. A fim de disputar o pleito presidencial, Anthony Garotinho renuncia ao governo do estado e quem o substitui na função é Benedita da Silva, que governou o estado do Rio de Janeiro por nove meses. Tentou ser eleita governadora, mas Benedita perdeu o pleito estadual para Rosinha Garotinho, esposa de Anthony Garotinho.

Benedita da Silva em pose para foto. A formação política da mesma se deu nas periferias, reivindicando melhorias para a população vulnerável. Créditos na imagem.
Conforme já analisado neste texto, apesar de ser rejeitada pelas principais lideranças assembleianas, Benedita da Silva conseguiu ser uma pessoa popular entre os moradores da periferia e os cristãos que partilham da fé evangélica. Sua visibilidade e credibilidade entre o segundo segmento ajudaram a novelista Glória Perez a desvendar o que de fato havia acontecido com sua filha Daniella Perez, barbaramente assassinada no fim de dezembro de 1992. Não demorou muito para descobrirem que Guilherme de Pádua havia matado sua então colega de elenco Daniella Perez (ambos atuavam na novela De Corpo e Alma). Entretanto, muitas explicações precisavam ser dadas. Uma delas era se Guilherme de Pádua havia cometido o crime sozinho ou não, por exemplo (depois foi descoberto que Paula Thomaz, até então esposa de Guilherme e que agora assina Paula Nogueira Peixoto, teve participação no crime em questão). Diante disso, Guilherme de Pádua dizia que o crime havia sido passional. Entretanto, na noite do mesmo dia em que Glória Perez enterrou sua filha, a novelista passou a receber ligações anônimas dizendo para ela ir ao posto perto de onde ficava o estúdio da TV Globo porque ali a mesma poderia saber o que de fato havia acontecido com a filha. Entretanto, por medo de represálias, os funcionários do posto de gasolina em questão se recusavam a falar o que haviam testemunhado e tentaram eliminar as possíveis provas do crime que chocou o país. Perseverante, Glória Perez foi em favelas da cidade do Rio de Janeiro e enfrentou dias chuvosos para encontrar as testemunhas do crime e convencê-las a depor. O esforço não foi em vão: o frentista Flávio Bastos contou o que viu. O mesmo testemunhou quando, em seu carro, Guilherme de Pádua emboscou o carro dirigido por Daniella Perez. Após isso, o ator deu um violento soco em Daniella que, além de desmaiar a mesma, deformou o maxilar da atriz e fez com que a jovem urinasse em sua própria roupa. O depoimento de Flávio Bastos derrubou a tese de crime passional defendida por Guilherme de Pádua.
Entretanto, havia outra testemunha do crime e é neste momento em que Benedita da Silva entra em ação. Antônio Clarete foi o lavador de carros que limpou o carro de Guilherme de Pádua após ele ter cometido o crime em questão. O mesmo não sabia o que o então cliente havia feito e ficou intrigado quando viu que saia algo vermelho do carro de Guilherme junto com a água. O ator estava nervoso, ao passo que uma mulher permaneceu o tempo todo de costas. Antônio não sabia de quem se tratava, mas definiu o pouco que conseguiu ver da mesma. Como sua definição era similar a dada por Hugo da Silveira, que anotou as placas dos carros dos assassinos pelo fato de os mesmos estarem em um local ermo, logo ficou esclarecido que se tratava de Paula Nogueira Peixoto. Entretanto, assim como Flávio Bastos, Antônio Clarete estava com medo de depor as autoridades por medo de represálias. Na tentativa de fazer o lavador dar seu depoimento, Glória Perez descobre que o mesmo era evangélico. Com isso, a novelista aciona sua rede de contatos e pede a Benedita da Silva e o bispo Manoel Ferreira, líder vitalício da Assembleia de Deus Ministério Madureira, para conversarem com Antônio Clarete, mostrando o quão importante era dizer o que viu para as autoridades. O pedido foi acatado e os depoimentos de Flávio Bastos e Antônio Clarete foram essenciais para a elucidação do crime. Em 2012, quando o crime em questão completou 20 anos, Glória Perez escreveu um texto em suas redes sociais agradecendo as pessoas que ajudaram a esclarecer o assassinato de Daniella Perez. Glória não se esqueceu de Benedita.
Nos últimos tempos o conceito de cristão progressista tem ganhado força. Não chega a ser uma corrente teológica ou até mesmo há uma igreja que carregue tal expressão. Cristãos classificados como progressistas podem ser encontrados na Assembleia de Deus, Igreja Batista, Igreja Presbiteriana, Congregação Cristã no Brasil, Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Metodista… Entre as pautas defendidas por estes cristãos estão a justa distribuição de renda, a erradicação da fome, igualdade de gênero, combate ao racismo, defesa dos direitos da população LGBTQIAP+, a legalização do aborto e a legalização das drogas. Os cristãos progressistas defendem pautas que a maioria da população cristã costuma se opor. Por conta deste fato, eles tendem a serem mal vistos dentro da denominação que fazem parte. Ao integrar um partido de esquerda, defender um salário mínimo justo, a igualdade de gênero e combater o racismo, Benedita da Silva passou a ser mal vista por aqueles que compartilham da mesma fé que a política. Entretanto, isso não foi um impedimento para que Benedita continuasse a defender as suas pautas. O prestigio obtido entre a população periférica e o fato de ter contribuído em prol da população negra em mais de uma ocasião mostram que o trabalho da política não foi em vão.
Conclusão
A atuação política de Benedita da Silva revelou-se pouco comum em vários aspectos. Por conta deste fato, foi vista com desconfiança pelas principais lideranças evangélicas. Esta desconfiança evoluiu para uma espécie de boicote quando Benedita se candidatou a diversos cargos da política institucional. Entretanto, esse “boicote” não impediu que o nome da política em questão se consolidasse entre as classes periféricas e até mesmo entre a população evangélica. Ao analisar a trajetória política de Benedita, a mesma pode ser classificada como uma cristã progressista, termo pouco comum nas décadas de 1980 e 1990, por exemplo. Este fato revela que o termo cristão progressista pode ser recente, mas a prática que o classifica talvez não seja tão recente assim.
Referências:
– https://mariosergiohistoria.blogspot.com/2010/12/benedita-da-silva-uma-candidata-fora.html visualizado no dia 01/12/2022;
– https://mariosergiohistoria.blogspot.com/2016/01/o-dia-de-benedita-na-constituinte.html?m=0 visualizado no dia 01/12/2022;
– https://www.socialistamorena.com.br/evangelicos-progressistas-gracas-a-deus/ visualizado no dia 01/12/2022;
– https://noticias.gospelmais.com.br/gloria-perez-agradece-evangelicos-ajuda-prisao-guilherme-padua-47359.html visualizado no dia 01/12/2022;
– https://www.uol.com.br/splash/noticias/2022/07/28/como-frentistas-ajudaram-a-desvendar-o-assassinato-de-daniela-perez.htm visualizado no dia 01/12/2022;
– https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/celebridades/como-gloria-perez-investigou-assassinato-da-filha-com-metodos-desesperados-85851 visualizado no dia 01/12/2022.
Como citar este texto:
– ALVES, Marllon. Benedita da Silva: a evangélica que já era progressista muito antes do termo existir. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2022/12/02/benedita-da-silva-a-evangelica-que-ja-era-progressista-muito-antes-do-termo-existir/ publicado no dia 02/12/2022.
-
A controversa passagem de Patrícia Amorim pela presidência do Flamengo

Patrícia Amorim foi a presidente do Flamengo no triênio 2010-2012, não conseguindo se reeleger. Imagem: Reprodução.
Por Marllon Alves
Patrícia Amorim foi uma notável nadadora no passado, alcançando feitos importantes e ganhando muitos prêmios por causa disso. Ela fez história também quando, em mais de 120 anos do clube, tornou-se a única mulher a presidir o Clube de Regatas do Flamengo. Entretanto, a passagem de Patrícia Amorim pela presidência do clube em questão não é unanimidade até os dias atuais.
Patrícia Amorim nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 1969. Começou a nadar ainda criança e com apenas três anos já nadava no Botafogo de Futebol e Regatas (clube que, junto de Flamengo, Fluminense e Vasco, são os quatro maiores clubes de futebol do estado do Rio de Janeiro), chegando ao Flamengo em 1977. Por este clube, Patrícia conquistou 28 Campeonatos Brasileiros nos 200, 400, 800 e 1500 metros livres, além de várias quebras de recordes. Participou dos Jogos Pan-Americanos de 1987, disputado nos EUA, ficando com o quarto lugar no revezamento 4x100m medley e 200m livre. Representou o Brasil nas Olimpíadas de Seul, em 1988, ficando com 11ª posição no revezamento 4×100 livre. Patrícia Amorim nadou também nas Macabíadas em Nova York, Chicago e Israel. Deixou de competir quando tinha apenas 25 anos de idade, formando-se em Educação Física. Desde então, passou a ocupar diversos cargos no Flamengo, como por exemplo professora, diretora, vice-presidente de Esportes Olímpicos e, enfim, a presidência do clube em questão.

Patrícia Amorim na infância e durante atuação no Flamengo. Ainda criança, Patrícia mostrava grande talento para a natação. Imagem: Reprodução.
No ano 2000, Patrícia Amorim foi eleita vereadora pela cidade do Rio de Janeiro com 24.651 votos, tendo como partido o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). A agora ex-atleta foi reeleita nos anos de 2004 e 2008. O lema de Patrícia Amorim era “defender os interesses do esporte”. A trajetória de Patrícia Amorim como atleta, a sua atuação dentro do Flamengo e as três vezes em que foi eleita vereadora renderam a mesma capital político suficiente para que pudesse ser eleita presidente do Clube de Regatas do Flamengo. Conforme citado na introdução deste texto, Patrícia Amorim fez história ao ser a única mulher a ocupar o cargo máximo de um clube que tem a maior torcida do mundo. Além disso, o mandato da ex-nadadora ficou marcado por ocorrer no ano do centenário do futebol dentro do clube (1912-2021). O time do Flamengo está representado em diversas modalidades esportivas, sendo o futebol a mais conhecida e lucrativa. Desta forma, a análise do mandato presidencial de Patrícia Amorim será feita tendo como ponto de partida o futebol.
Em 2009, quando Patrícia Amorim foi eleita para um mandato de três anos (2010-2012), o Flamengo havia conquistado o Campeonato Brasileiro pela sexta vez. O primeiro ano da mandatária foi marcado pela prisão e posterior rescisão de contrato do goleiro Bruno, jogador até então em ascensão e decisivo em muitos momentos importantes para o clube. Recaía sobre ele a acusação de assassinato e esquartejamento de Eliza Samúdio, cujo corpo nunca foi encontrado. Eliza engravidou de Bruno e esta teria sido a motivação para o crime, uma vez que Bruno não queria ter a criança. Antes disso, Patrícia Amorim havia repreendido Bruno quando este relativizou a violência doméstica em uma entrevista. Após a repreensão, Bruno pediu desculpas publicamente. Foi durante a gestão da mandatária em questão que Adriano Imperador e Vagner Love formaram a poderosa dupla de ataque que ficou conhecida como Império do Amor. Outro jogador que marcou a história do clube e o mandato de Patrícia Amorim foi Ronaldinho Gaúcho. Jogador de habilidades incomuns, pentacampeão mundial e eleito por duas vezes o melhor futebolista do mundo, o Flamengo conseguiu o que muitos clubes tentaram em vão: contratar o bruxo. O feito foi bastante noticiado pela mídia e recebido com empolgação por parte da torcida rubro-negra. Aliás, a euforia foi tanta que os torcedores quebraram um portão da sede do Flamengo para ver aquele que até hoje é considerada uma lenda do futebol mundial. Entretanto, a alegria durou pouco: o bruxo foi criticado pela torcida, mídia e dirigentes por seu desempenho abaixo do esperado e uma controversa vida fora dos gramados. Assis, irmão e empresário de Ronaldinho Gaúcho, acusou o clube de inadimplência quanto ao salário do jogador. O assunto parou na justiça e o agora ex-jogador ganhou uma liminar que o permitiu romper seu contrato com o Flamengo e cobrar um valor de R$40 milhões referentes a salários atrasados e direitos de imagem. Em seguida, Ronaldinho assinou com o Atlético-MG, time que conquistaria a Libertadores da América de 2013. Patrícia Amorim reagiu duramente a situação e tentou mobilizar a torcida contra o jogador. O Flamengo chegou a exibir um vídeo onde o jogador supostamente se relaciona com uma mulher nas dependências do clube. Tal fato motivou Ronaldinho a mover na justiça uma ação contra o Flamengo por danos morais no valor de R$15 milhões.

Festejado em sua chegada, a relação entre Patrícia Amorim e Ronaldinho Gaúcho não tardou para azedar. Imagem: Reuters.
Conforme analisado no parágrafo acima, houve momentos marcantes, dentro e fora de campo, no futebol do Flamengo na gestão de Patrícia Amorim. Um destes fatos lembrados até hoje é a inesquecível partida entre Flamengo e Santos, ocorrida julho de 2011. No lado rubro-negro, o time comandado por Vanderlei Luxemburgo tinha nomes como Ronaldinho Gaúcho (um dos protagonistas deste momento épico), Léo Moura, Ronaldo Angelim e Thiago Neves. Na parte do Santos (que conquistou o tricampeonato da Libertadores da América em 2011, era bicampeão paulista e considerado o melhor time do Brasil), o time de Muricy Ramalho contava com nomes como Neymar (até então uma estrela em plena ascensão com menos de 20 anos), Paulo Henrique Ganso (visto por muitos como uma promessa do futebol, dentro e fora do Brasil), Pará (que mais tarde jogaria no Flamengo), Elano e Alan Kardec. Em um jogo onde nove gols foram feitos (cinco para o Flamengo e quatro para o Santos), alguns fatos (que aliás ajudam a entender a eternidade desta partida na memória de muita gente) merecem destaque: a atuação de Neymar (o mesmo vivia um dos melhores momentos em sua carreira como atleta. Ele havia conquistado dois títulos paulistas, uma Copa do Brasil e uma Libertadores da América. Tudo isso entre os anos de 2010 e 2011. Um dos gols do mesmo conquistou o prêmio Puskás em 2011 de gol mais bonito do mundo), a atuação de Ronaldinho Gaúcho (o ídolo do futebol mundial fez uma das melhores partidas com a camisa rubro-negra, marcando três gols. Um dos mesmos foi de falta, em um leve toque por baixo da barreira. Entende agora porque quase sempre tem um jogador deitado atrás da barreira? Então) e a embaixadinha do até então goleiro rubro-negro Felipe, que fez embaixadinha após defender um pênalti sem esforço cobrado por Elano. Apesar dos momentos inesquecíveis, a gestão de Patrícia Amorim não conseguiu trazer títulos de visibilidade nacional ou internacional (uma Copa Libertadores da América, por exemplo) para o Flamengo. Os únicos títulos conquistados foram a Taça Rio 2011, Taça Guanabara 2011 e o Campeonato Carioca 2011. Há quem considere as três taças aqui citadas como componentes de um único campeonato, que é o Carioca, também conhecido como Cariocão. Com isso, alguns podem achar que o único título que o futebol rubro-negro conquistou na gestão de Patrícia Amorim foi o Campeonato Carioca.
O mandato presidencial de Patrícia Amorim foi marcado por demissões de técnicos de futebol (Andrade, que havia conquistado o Campeonato Brasileiro de 2009; e Vanderlei Luxemburgo, por exemplo) e de pessoas que ocupavam postos de comando dentro do Flamengo. Neste contexto, a demissão lembrada até hoje é a de Zico, eterno ídolo do clube. Descontente com a direção de Patrícia Amorim, o Galinho se desligou do cargo de diretor de futebol. A situação foi tão séria que ambos passaram um tempo sem manterem contato. Anos depois, em entrevista, a própria Patrícia Amorim reconheceu a tensão que se fez presente em praticamente toda a sua gestão. Ela credita este ambiente hostil ao “massacre político” que teve de enfrentar. A ex-mandatária rubro-negra acredita que na atualidade uma mulher no posto de comando de um clube de futebol não passaria pelas situações que a mesma experimentou entre fins dos anos 2000 e inicio dos anos 2010. É importante ressaltar que o assunto deste texto é sobre uma mulher que se tornou a primeira de seu sexo a comandar o Flamengo em um contexto em que o time completava mais de 110 anos de sua existência. Historicamente, dentro e fora do Brasil, o futebol é comandado majoritariamente por homens brancos. A considerável presença de negros fica restrita aos times e, às vezes, à torcida, dependendo do valor do ingresso cobrado para assistir uma partida.
Justificando de forma indireta a ausência de títulos de expressão nacional conquistados em seu mandato, Patrícia Amorim disse em certa ocasião que chegou no Flamengo em um momento onde o mesmo passava por uma transição. Isso porque o presidente anterior disse que o clube estava falido. Além disso, salários e décimos terceiros estavam atrasados. Patrícia Amorim credita a si mesma o contrato da Adidas e a negociação com a TV Globo acerca dos direitos de transmissão dos jogos do Flamengo como os pontos altos de sua gestão na área financeira. Outro ponto alto que Patrícia Amorim destaca em sua gestão é a valorização patrimonial do Flamengo, ocorrida depois de muitos concertos nos mesmos. Todas estas reformas fizeram com que algumas pessoas dentro do clube dessem a Patrícia Amorim a alcunha pejorativa de “Presidente do parquinho”. A ex-mandatária acredita que recebeu este apelido pelo fato de ser mulher. Foi também na gestão da ex-nadadora que houve a reestruturação das categorias de base do Flamengo, seguindo à risca o antigo lema rubro-negro: “craque a gente faz em casa”. Atualmente, o trabalho de base do futebol rubro-negro é referência em todo o Brasil. Além disso, nomes como João Gomes, Vinícius Júnior e Lucas Paquetá; que tiveram passagem pela base rubro-negra, brilham no futebol nacional e internacional.

Patrícia Amorim foi sucedida por Eduardo Bandeira de Mello na presidência do Flamengo. O então novo mandatário chegou em um momento onde o clube tinha a maior dúvida do futebol brasileiro. Imagem: Marcelo Carnaval/Agência O Globo.
Patrícia Amorim se orgulha porque, ao fim de seu mandato presidencial, em 2012, o caixa do Flamengo estava com R$80 milhões. Por outro lado, o clube tinha um déficit de R$20 milhões. Entretanto, quando Eduardo Bandeira de Mello, o sucessor de Patrícia Amorim, assumiu a presidência do Flamengo, o clube rubro-negro tinha uma dívida de aproximadamente R$800 milhões, era a maior dívida do futebol brasileiro. Além disso, o clube sofria com a falta de credibilidade. Foram precisos alguns anos para que o Flamengo equilibrasse as suas dividas e se tornasse o clube milionário que é nos dias atuais.
Conclusão
A gestão de Patrícia Amorim foi marcada por erros e acertos, assim como a de todos os outros homens que passaram pela presidência do Flamengo. Patrícia Amorim herdou problemas da gestão anterior e deixou problemas que couberam ao seu sucessor resolver. Assim como os demais, a única presidente a passar pelo cargo máximo do Flamengo deixou seu legado no clube, mas não é fácil obter o reconhecimento deste fato em um ambiente predominantemente branco e masculino.
Referências:
– https://terceirotempo.uol.com.br/que-fim-levou/patricia-amorim-5239 visualizado no dia 08/11/2022;
– https://flaestatistica.com.br/presidentes/p/patricia-amorim-1 visualizado no dia 08/11/2022;
– https://ge.globo.com/futebol/times/flamengo/noticia/2012/07/patricia-amorim-e-zico-juntos-para-eternidade-mas-so-no-muro-do-ct.html visualizado no dia 08/11/2022;
– https://extra.globo.com/esporte/extra-campo/patricia-amorim-ex-flamengo-quebra-silencio-de-quatro-anos-nao-quero-nem-ver-ronaldinho-gaucho-20794547.html visualizado no dia 08/11/2022;
– https://jogada10.com.br/oito-motivos-que-fazem-o-jogo-santos-4×5-flamengo-na-vila-ha-dez-anos-ser-tao-especial/ visualizado no dia 08/11/2022;
– https://www.espn.com.br/futebol/artigo/_/id/9748735/flamengo-patricia-amorim-diz-assinou-com-vini-jr-e-cia-rebate-massacre-politico-deixei-80-milhoes-em-caixa visualizado no dia 08/11/2022;
https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/02/deportes/1520024774_927536.html visualizado no dia 08/11/2022.
Como citar este texto:
– ALVES, Marllon. A controversa passagem de Patrícia Amorim pela presidência do Flamengo. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2022/11/14/a-controversa-passagem-de-patricia-amorim-pela-presidencia-do-flamengo/ publicado no dia 14/11/2022.
-
Marília Mendonça para além dos palcos

Imagem: Reprodução.
Por Marllon Alves
Marília Mendonça foi uma artista cujo legado continua a influenciar muitos artistas em todo o Brasil. A prova deste fato está nos números que suas músicas e clipes musicais alcançam. Além disso, Marília se destacou também pelo trabalho que fez fora dos palcos, chegando até a se posicionar politicamente.
Nascida no ano de 1995, Marilia Mendonça chegou a frequentar algumas igrejas evangélicas, fato que a influenciou em sua vida pessoal. Iniciou sua trajetória enquanto cantora cantando em bares, restaurantes e churrascarias. Não demorou muito para que começasse a compor e enviar as suas músicas para artistas e duplas consagradas. Não demorou muito também para que Marília Mendonça se consagrasse como cantora e alcançasse o estrelato.
Muitas são as músicas gravadas por Marília Mendonça e se a lista de músicas que a cantora compôs e que foram gravadas por outros artistas forem incluídas, o legado da cantora sertaneja em questão é ainda maior. Algumas das músicas de Marília Mendonça são: Infiel, De quem é a culpa?, Amante não tem lar, Folgado, Alô porteiro, Como faz com ela, Graveto, Supera, Love à queima roupa, Ciumeira, Sem sal, Bem pior que eu e muitas outras. Uma característica profissional de Marília Mendonça era o fato desta gravar músicas com muitos artistas (os chamados “feat”) e algumas destas são: Casa da Mãe Joana (feat. Henrique e Juliano), Flor e o Beija-Flor (feat. Henrique e Juliano), Estrelinha (feat. Di Paullo e Paulino), Bebaça (feat. Maiara e Maraisa), Esqueça-me se for capaz (feat. Maiara e Maraisa), Todo mundo menos você (feat. Maiara e Maraisa), Apaixonadinha (feat. Leo Santana), Intenção (feat. Gaab) e Vou ter que superar (feat. Matheus & Kauan). Quando faleceu, Marília Mendonça deixou um caderno com composições inéditas, além de trabalhos musicais a serem lançados posteriormente. Neste contexto, destacam-se Amava nada (feat. Lucas Lucco) e 50% (feat. Naiara Azevedo). Uma coisa que chama a atenção em Marília Mendonça é a versatilidade. A cantora passeava com maestria pelo axé, rap, funk e MPB, por exemplo, sem perder a sua essência sertaneja.

Marília Mendonça com a dupla sertaneja Maiara e Maraísa em ocasião da participação no dominical Domingão com Huck. Esta seria a última participação de Marília Mendonça em um programa de TV. Imagem: Instagram Marília Mendonça.
O sucesso de Marília Mendonça é traduzido em números. Marília é a cantora com mais clipes acima de 100 milhões visualizações no YouTube em todo o mundo, é também a dona da live de música com o maior número de telespectadores simultâneos (3,3 milhões de pessoas assistiram a live). O canal no YouTube da “Rainha da Sofrência” tem 16,2 bilhões de visualizações e 24,7 milhões de inscritos. Além disso, Marília Mendonça foi a artista mais assistida no YouTube no ano de 2021 (a artista foi assistida 3,1 bilhões de vezes). O ícone máximo do “feminejo” também foi pioneira em alguns feitos, sendo a primeira brasileira a marcar 8 bilhões de streams no Spotify, sendo também a cantora mais ouvida do Spotify Brasil. O álbum Todos os Cantos Vol. 1 foi o primeiro a atingir a marca de 1 bilhão de streams no Spotify Brasil e este mesmo álbum é o mais ouvido na história do Spotify Brasil. Ainda no Spotify, das 200 músicas no Top 200 Brasil deste mesmo aplicativo em um único dia, 74 são de Marilia Mendonça. A cantora detém o recorde de artista com o maior número de músicas no Spotify Global com cinco músicas, sendo duas no Top 50.
As atitudes de Marilia Mendonça fora dos palcos também merecem destaque. Durante o pleito presidencial de 2018, de onde Jair Bolsonaro foi eleito Presidente da República, Marilia juntou-se as milhões de vozes dentro e fora do Brasil que diziam “Ele não”, em repúdio a candidatura de Bolsonaro. Tamanha atitude fez com que a cantora e sua família fossem atacadas de forma cruel. E lembrando que estamos falando do mundo sertanejo, um espaço masculino, branco (sempre bom lembrar dos marcadores de raça) e majoritariamente bolsonarista, apoiando maciçamente Bolsonaro nos pleitos de 2018 e 2022. Desta forma, Marília Mendonça foi uma exceção em meio a tantas pessoas que apoiaram Bolsonaro. Vale ressaltar que a presença da cantora em si já representava uma quebra de paradigmas. Isso porque estamos falando de uma mulher acima do peso (e que foi emagrecendo gradativamente), cantora e cujas letras versam sobre mulheres que não se comportam da forma como a sociedade espera que uma pessoa do sexo feminino deva se comportar. Tudo isso em um espaço branco, masculino, patriarcal e que tende a objetificar a mulher. Nas músicas de Marília Mendonça a mulher bebe, trai, têm desejos sexuais, abandonam seus companheiros quando percebem que o relacionamento não tem mais volta e seguem adiante com suas vidas.
Durante a pandemia de Covid-19, entre 2020 e 2021, Marília Mendonça vendeu seu próprio jatinho para segurar os gastos e não ter que demitir parte da equipe, uma vez que durante este período as aglomerações (e consequentemente os shows) estavam proibidas. Isso ajuda a entender o fato de a cantora estar utilizando o serviço de táxi aéreo na ocasião de sua morte. Ainda na pandemia, quando houve um colapso causado pela falta de cilindros de oxigênio no estado do Amazonas, Marilia Mendonça e mais algumas personalidades, diante da lentidão das autoridades, providenciaram a rápida entrega de oxigênio, salvando muitas vidas. Destaque também para a ocasião em que a cantora apoiou a instituição antirracista Pretitudes, beneficiando 225 jovens com o pagamento de cursos pré-vestibular e de inscrições para o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Marília Mendonça realizava muitas ações sociais e sempre tentava manter o anonimato. No caso da ajuda a organização Pretitudes, por exemplo, a ação da cantora só veio a público após a sua morte, uma vez que os organizadores disseram que ela fez questão de exigir o anonimato.
Conclusão
Marília Mendonça notabilizou-se por seus feitos dentro e também fora dos palcos. Com seu corpo considerado “fora do padrão” e cantando músicas onde a mulher não se comporta de “maneira convencional”; Marília teve a ousadia de adentrar o mundo sertanejo, um espaço masculino, branco e que tende a objetificar a mulher. A cantora teve a ousadia de fazer coro ao “Ele não” em oposição a Bolsonaro em 2018. Por conta disso, Marília Mendonça tornou-se uma voz destoante, uma vez que nos pleitos presidenciais de 2018 e 2022 o estilo sertanejo mostrou adesão majoritária a Jair Bolsonaro. Fora dos palcos, Marília mostrou sensibilidade ao não demitir parte da equipe durante a pandemia de coronavírus e ao ajudar uma organização antirracista, por exemplo. Com relação às ações sociais, a cantora em questão não gostava de falar sobre, preferindo brilhar no anonimato.
Referências:
– https://www.metropoles.com/colunas/guilherme-amado/marilia-mendonca-mundo-sertanejo-ele-nao visualizado no dia 05/11/2022;
– https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/entretenimento/e-hit/marilia-mendonca-vendeu-jatinho-proprio-devido-a-falta-de-shows-na-pandemia-diz-colunista-1.3156440 visualizado no dia 05/11/2022;
– https://www.otempo.com.br/brasil/marilia-mendonca-fazia-constantes-doacoes-muitas-anonimas-1.2566836 visualizado no dia 05/11/2022.
Como citar este texto:
– ALVES, Marllon. Marília Mendonça para além dos palcos. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2022/11/08/marilia-mendonca-para-alem-dos-palcos/ publicado no dia 08/11/2022.
-
Primeiras-damas do Brasil (Parte V – final): Marcela Temer, a “bela, recatada e do lar”

Marcela e Michel Temer. Imagem: Reprodução/Instagram.
Por Marllon Alves
Marcela Temer chamou a atenção da mídia em 2011, ocasião da cerimônia de posse do primeiro mandato de Dilma Rousseff. O modo exuberante como se vestia, bem como a diferença de idade para o marido, o então vice-presidente Michel Temer, chamaram a atenção. Entretanto, Marcela Temer mudou radicalmente seu modo de vestir quando se tornou primeira-dama do Brasil, em 2016. Além disso, o modo como uma revista tradicional e de circulação nacional classificou a então nova primeira-dama do Brasil viralizou por semanas nas redes sociais.

Marcela e Michel Temer em cerimônia de posse do primeiro mandato de Dilma Rousseff, em 2011. Imagem: Folhapress.
Marcela Tedeschi Araújo Temer nasceu em Paulínia, São Paulo, em 1983. No ano de 2002 foi eleita Miss Paulínia e chegou a ser vice Miss São Paulo em um concurso que não tinha nenhuma relação com concursos nacionais. Foi neste mesmo ano que Marcela conheceu seu futuro marido: Michel Temer. Geraldo, tio de Marcela, era funcionário da prefeitura de Paulínia e filiado ao PMDB. E foi justamente acompanhando o tio em uma convenção do partido em questão que Marcela conheceu Michel Temer, então presidente da Câmara. Ambos começaram a namorar, Marcela tatuou o nome do amado na nuca e em 2003, numa cerimônia super discreta, ambos se casaram.
Nos anos seguintes, Marcela continuou discreta como sempre. Formou-se em Direito pela Fadisp, Faculdade de São Paulo, no ano de 2009. Entretanto, Marcela Temer nunca fez o exame da OAB e consequentemente nunca exerceu a advocacia. Isso aconteceu porque na mesma época nasceu Michel Filho, ou Michelzinho, como é mais conhecido. Desde o casamento com Michel Temer, Marcela não trabalhava, tendo apenas feito alguns trabalhos como modelo e atuado como recepcionista no jornal O Momento. Com o nascimento do filho, Marcela passou a dedicar-se aos cuidados para com o filho e da casa onde mora com o esposo.

Marcela ao lado de Michel Temer após ser elevada ao cargo de primeira-dama do Brasil. A maquiagem exuberante, os penteados bem elaborados e as roupas de cores vivas foram substituídas por uma maquiagem mais discreta, penteados com o mesmo perfil e roupas de tons mais claros. Imagem: Beto Barata/PR.
Durante o primeiro mandato de Dilma Rousseff (2011-2014) e em parte do segundo mandato da mesma (2015-16), Marcela Temer manteve discrição. A situação mudou quando Dilma foi deposta em um processo de impeachment (que hoje quase todos reconhecem como golpe) no ano de 2016. A figura de Marcela voltou à tona porque agora ela seria a nova primeira-dama do Brasil. Desta vez, Marcela Temer estava diferente: nada de penteados bem elaborados, maquiagem deslumbrante e roupas em cores vivas. Desta vez, Marcela passou a adotar penteados e maquiagem igualmente discretos e a primeira-dama passou a usar roupas em tons mais claros. Além disso, Marcela Temer seria a embaixadora do programa Criança Feliz, cuja finalidade era “oferecer às famílias mais informação e interação com suas crianças, para identificar oportunidades e riscos ao desenvolvimento infantil”, dizia a página oficial do Palácio do Planalto.
Marcela Temer estava exercendo o papel que se esperava de uma mulher em posição como a dela: doce, linda, submissa, coração voluntarioso, mãe e esposa. Além disso, era reforçado a todo instante que o trabalho a ser exercido por Marcela era voluntário. Afinal, ela era casada e seu esposo supria todas as suas necessidades materiais. Ainda em 2016, a revista Veja fez uma reportagem sobre Marcela Temer onde a classificava como bela, recatada e do lar. A repercussão foi grande e negativa e em forma de protesto, mulheres de todo o Brasil colocaram em suas redes sociais fotos em poses e realizando tarefas não muito “convencionais” para uma mulher com a legenda “bela, recatada e do lar”. Para entender todo este contexto é necessário voltar um pouco no tempo.

Dilma Rousseff ao lado da filha na ocasião de cerimônia de seu segundo mandato, em janeiro de 2015. Imagem: Reprodução.
Os dois mandatos de Dilma Rousseff não foram revolucionários, mas se deve reconhecer que os mesmos vieram com a proposta (ou ao menos tentou-se) quebrar alguns paradigmas. Neste contexto, Dilma chamou algumas mulheres para comporem seu corpo ministerial e neste contexto, destaque para Graça Foster, primeira mulher a chegar à presidência da Petrobras e a primeira mulher do mundo a chefiar uma petroleira. Além disso, em ambas as cerimônias de posse de Dilma Rousseff não se viu um desfile em carro aberto de um casal do sexo oposto, mas sim uma mãe acompanhada de sua filha. Esta era uma verdadeira afronta ao patriarcado.
Chama a atenção o fato de que as manifestações que pediam o afastamento de Dilma Rousseff lhe dirigiam ofensas, xingamentos e até mesmo charges que não costumam ser dirigidas aos homens, por mais corruptos que estes possam ser. Tais manifestações tinham uma forte conotação de gênero por duas razões: o Brasil é um país patriarcal e muita gente estava incomodada com o fato de uma mulher estar ocupando o posto máximo da política brasileira. Apesar dos ritos e jargões específicos, este ódio pelo fato de uma pessoa do sexo feminino estar chefiando a nação acompanhou Dilma Rousseff durante o processo de impeachment nas Câmaras dos Deputados e do Senado. Os ritos e linguagens da política institucional brasileira não foram capazes de esconder a ojeriza que um Congresso majoritariamente branco, masculino, heterossexual, de classe média/elite sentia por ter uma mulher no posto máximo da política brasileira.
Conclusão
Embora possa não ter consciência disso, o fato é que Marcela Temer foi a personificação da imagem de mulher que predominava no governo Temer: submissa, gentil, voluntariosa, discreta, de poucas palavras, “recatada e do lar”. O golpe que tirou Dilma Rousseff do poder foi sobretudo econômico (os direitos trabalhistas e previdenciários foram duramente atacados depois que Dilma foi afastada da presidência) e também moral, atingindo sobretudo as mulheres. Além do ódio direcionado a Dilma, Michel Temer foi duramente criticado por convocar somente homens brancos (nunca é exagero ressaltar os marcadores de raça) para seu corpo ministerial. O golpe que tirou Dilma da Presidência da República foi também uma tentativa de restabelecer a ordem patriarcal no Brasil e Marcela Temer foi uma peça importante neste mesmo plano.
Referências:
– https://epoca.oglobo.globo.com/tudo-sobre/noticia/2016/10/marcela-temer.html visualizado no dia 28/10/2022;
– https://veja.abril.com.br/brasil/marcela-temer-bela-recatada-e-do-lar/ visualizado no dia 28/10/2022;
– https://www.socialistamorena.com.br/o-lugar-de-primeira-dama-assistencialista/ visualizado no dia 28/10/2022.
Como citar este texto:
– ALVES, Marllon. Primeiras-damas do Brasil (Parte V – final): Marcela Temer, a “bela, recatada e do lar”. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2022/10/28/primeiras-damas-do-brasil-parte-v-final-marcela-temer-a-bela-recatada-e-do-lar/ publicado no dia 28/10/2022.
-
Primeiras-damas do Brasil (Parte IV): Maria Thereza Goulart, bela e exilada

Maria Thereza Goulart. Imagem: Reprodução. Por Marllon Alves
Maria Thereza Goulart é considerada até a atualidade uma das primeiras-damas mais belas que o Brasil já teve. Oriunda de uma família com relativo poder aquisitivo, fez parte e manteve contato com as famílias mais tradicionais da política brasileira de então. Maria Thereza foi uma primeira-dama bastante popular, mas o golpe civil-militar de 1964 que depôs o esposo João Goulart encurtou o tempo de duração de seu posto como primeira-dama.
Maria Thereza Goulart nasceu em São Borja, no estado do Rio Grande do Sul, em 1936. Ela era vizinha de João Goulart, seu futuro marido. Maria conheceu Jango quando tinha 14 anos de idade (por sua vez, o então futuro presidente do Brasil deveria ter mais de 30 anos quando conheceu sua futura esposa, uma vez que o mesmo era aproximadamente 17 anos mais velho que a mesma). A família de Maria Thereza tinha conexões com os parentes do então presidente Getúlio Vargas e, alinhada com as famílias tradicionais da região, Maria Thereza passou a se aproximar cada vez mais de João Goulart. Ainda discorrendo sobre as “redes de sociabilidade” de Maria Thereza, chama a atenção o fato de uma de suas tias, América Fontella, ter sido casada com Spartacus Dornelles Vargas, irmão de Getúlio Vargas. Yara Vargas, sobrinha de Getúlio Vargas e uma das fundadoras do PDT (Partido Democrático Trabalhista), foi assessora de Maria Thereza na LBA (Legião Brasileira de Assistência). Yara e Maria Thereza eram primas. Além disso, Maria Thereza conheceu Leonel Brizola aos 12 anos de idade. Brizola se casou com Neuza Goulart Brizola, irmã de João Goulart.
O relacionamento amoroso entre Maria Thereza Goulart e João Goulart começou quando esta conclui seus estudos. Neste contexto, Jango era Ministro do Trabalho de Getúlio Vargas. Já o casamento ocorreu no ano de 1955, quando o mesmo concorria à vice-presidência. Por conta de viagens e uma tempestade, o casamento de ambos foi consumado oficialmente por procuração. Tal união surpreendeu muita gente porque João Goulart tinha a fama de se relacionar com várias mulheres ao mesmo tempo. João e Thereza se tornaram um casal modelo da época, vistos como referência de casal jovem e bem-sucedido. Por conta deste fato, o casal em questão apareceu em diversas publicações de moda e política; e Maria Thereza chegou a ser comparada com Jackie Kennedy, esposa do então presidente dos EUA John Kennedy, morto no ano de 1963 cuja morte nunca foi de fato esclarecida.

João Goulart e Maria Thereza na década de 1950. Imagem: Reprodução. Maria Thereza sofria com síndrome do pânico e ansiedade, fato que a levou a situações conturbadas em mais de uma ocasião. Por conta de sua personalidade reclusa, contrair matrimônio com um líder populista não foi fácil. Entretanto, Thereza sempre esteve ao lado do esposo. Mesmo quando era primeira-dama, Thereza não deixou de se dedicar a sua carreira, adentrando no universo da alta costura. Criando obras de sucesso, tornou-se novamente um fenômeno midiático, dentro e fora do Brasil. Thereza chegou a ser considerada a primeira-dama mais linda do mundo.
João Goulart era vice-presidente do Brasil, chegando ao posto máximo da política brasileira depois que Jânio Quadros abandonou a cadeira presidencial acusando as “forças terríveis” de o levarem à prática deste ato. Desta forma, João Goulart tornou-se Presidente da República e Maria Thereza primeira-dama. Era um período turbulento que desembocaria no golpe civil-militar de 1964. Os setores da sociedade que forçavam a renúncia de Getúlio Vargas (o então presidente preferiu o suicídio à renúncia) voltaram a se organizar, uma vez que o ato de Getúlio adiou a implantação de um golpe. Os anos de 1961 a 1964, quando João Goulart ocupava o posto máximo da política brasileira, foram marcados pelo instável equilíbrio entre os partidos. De um lado havia a ruptura do pacto populista (expresso principalmente através da associação entre PSD e PTB) e do outro a participação popular não tutelada no universo político. A expressão partidária destes movimentos (focados nas reformas de base, especialmente a Reforma Agrária) demonstrava com clareza os perfis ideológicos dos parlamentares. A atuação destes segmentos e a formação de frentes interpartidárias traziam mais transparência à disputa política, evidenciando as rachaduras no interior da classe dominante e expondo as contradições de classe, independente do espectro partidário. As reformas de base e a luta anti-imperialista eram as grandes polêmicas deste período.
João Goulart estava disposto a levar adiante as reformas de base e as mesmas foram anunciadas em um veemente discurso em março de 1964 em um evento que entrou para a posteridade como “Comício da Central do Brasil”, que reuniu aproximadamente 200 mil pessoas. Tendo de lidar com seus distúrbios mentais e assustada diante de tamanha multidão, Thereza recusou-se a sair de perto do marido, o apoiando e colaborando com os discursos do então presidente. João Goulart estava disposto a levar as reformas de base adiante e não queria concessões. As forças que orquestraram o golpe de 1964 agiram e no dia 01 de abril de 1964 João Goulart foi destituído da cadeira presidencial. Tal golpe tinha o objetivo de reprimir os movimentos populares e afirmar “a hegemonia do capital monopolista sobre os demais segmentos” (FONTES e MENDONÇA, 1991: p. 15).

Maria Thereza ao lado de João Goulart durante comício na Central do Brasil, cidade do Rio de Janeiro, poucas semanas antes do Golpe de 1964. Imagem: Reprodução. Com a implantação de uma ditadura civil-militar, Jango e Thereza foram para o exílio junto com os filhos João e Denise Goulart. O destino escolhido foi o Uruguai. Apesar das dificuldades, o exilio forçado trouxe alivio para Thereza, uma vez que sua personalidade reclusa não condizia com o posto que o marido ocupava. Apesar do alivio, Thereza não nega que o golpe e o exilio foram muito difíceis para ela porque esta teve de se despedir “sem poder dizer adeus” de seus amigos, familiares, casa e país. A incerteza passou a ser uma constante na vida de Thereza e sua família. A agora ex-primeira-dama vivia atravessando a fronteira gaúcha ilegalmente, fazendo com que fosse presa em algumas situações. Em uma destas, foi obrigada a ficar nua na frente de um oficial. Thereza nunca contou o fato a João Goulart, que morreu em 1976.
Conclusão
Avessa a entrevistas, Maria Thereza seguiu sua vida em reclusão, sem abandonar sua vida social e pouco falando sobre seu passado. Em 2008, depois de um processo judicial que durou quatro anos, Maria Thereza e João Goulart receberam anistia política. Era a primeira vez que um ex-presidente havia sido anistiado por perseguição política. A ex-primeira-dama passou a receber uma pensão mensal e uma indenização por ter sido impedida de voltar ao Brasil por 15 anos.
Referências:
– FONTES, Maria Virginia; MENDONÇA, Sonia Regina de. História do Brasil reccente: 1964-1980. 2ª ed. São Paulo: Editora Ática, 1991. 87p.;
– SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: uma biografia. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. 694p.;
– https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/do-exilio-conturbado-a-prisao-abusiva-maria-thereza-goulart-mais-bela-primeira-dama-do-brasil.phtml visualizado no dia 27/09/2022.
Como citar este texto:
– ALVES, Marllon. Primeiras-damas do Brasil (Parte IV): Maria Thereza Goulart, bela e exilada. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2022/10/09/primeiras-damas-do-brasil-parte-iv-maria-thereza-goulart-bela-e-exilada/ publicado no dia 09/10/2022.
-
Primeiras-damas do Brasil (Parte III): Darcy Vargas, a “mãe da nação”

Darcy Vargas ao lado do marido e então Presidente da República Getúlio Vargas. Imagem: Reprodução. Por Marllon Alves
A primeira-dama de hoje tem uma trajetória de vida similar à de muitas mulheres que viveram entre o fim do século XIX e o começo do século XX: abandonaram a educação formal para se dedicar ao casamento e aos filhos, casou em tenra idade e teve muitos filhos em um curto espaço de tempo. Apesar das constantes traições por parte de seu marido, Darcy Vargas e o esposo apresentaram perante o público a imagem de “família feliz”. Além disso, Darcy imprimiu no Brasil um comportamento de primeira-dama que até hoje influencia as esposas dos presidentes do país.
Darcy Sarmanho Vargas nasceu no ano de 1895 em São Borja, no estado do Rio Grande do Sul. Seu pai era estancieiro e comerciante. Em 1911, quando tinha apenas 15 anos de idade, contraiu matrimônio com Getúlio Vargas, que também era da mesma cidade. No ano seguinte é iniciada a maternidade de Darcy com o nascimento dos filhos Lutero (1912-1912), Jandira (1913), Alzira (1914), Manuel Antonio (1916) e Getúlio Filho (1917). Darcy Vargas cumpriu o que se esperava de uma mulher de seu tempo, especialmente de uma mulher com grande poder aquisitivo: casar e ter filhos.
Darcy Vargas esteve ao lado daquele que viria a ser o futuro Presidente da República desde o momento em que este começou a traçar a sua trajetória política. Apesar disso, é importante ressaltar, Darcy jamais procurou ter sua imagem desvinculada a do marido e foi dentro da visão tradicional de esposa e mãe que a mulher deveria exercer que a mesma procurou delinear a sua trajetória política. Darcy foi esposa do advogado e deputado estadual Getúlio Vargas (1909-1913, 1917-1922), do deputado federal pelo Rio Grande do Sul (1922-1926), do Ministro da Fazenda no governo Washington Luís (1926-1927), do governador do estado do Rio Grande do Sul (1928-1930), do chefe do governo provisório implantado em 1930 e do Presidente da República (1930-1945, 1950-1954).
Conforme citado neste texto, foi como esposa e mãe que Darcy Vargas procurou exercer sua atuação política. No ano de 1930, no Rio Grande do sul, criou a Legião da Caridade, uma associação composta por mulheres de alto poder aquisitivo do estado que se organizaram para produzir roupas, arrecadar e distribuir alimentos para as famílias cujos homens (pais, maridos e filhos) acompanharam Getúlio Vargas em sua “aventura política”. No final dos anos 1930, quando já ocupava o posto de primeira-dama, Darcy fundou a Fundação Darcy Vargas – Casa do Pequeno Jornaleiro, cujo objetivo era ajudar os menores que vendiam jornais no centro do Rio de Janeiro, então capital do Brasil. Já em 1942 criou a Legião Brasileira de Assistência, instituição criada com o objetivo de amparar os soldados mobilizados por conta da Segunda Guerra Mundial e seus familiares.

Registro da então primeira-dama Darcy Vargas (a segunda da direita para a esquerda) durante visita ao Instituto de Proteção e Assistência à Infância, fundada pelo médico Moncorvo Filho. Imagem: Augusto Malta. A atuação de Darcy Vargas no campo da assistência social está alinhada com as concepções e práticas que orientaram a atuação das mulheres na esfera política entre os anos 1930 e 1940. Questões sociais e assistenciais, relacionadas à maternidade, ao feminino e à infância estiveram na agenda política de diversas mulheres deste período. Carlota Pereira de Queiroz e Bertha Lutz, como deputadas, participaram da criação de políticas públicas direcionadas à maternidade e a infância. Pérola Byinton criou em São Paulo a Cruzada Pró-Infância, “por meio do qual foram desenvolvidos vários programas e serviços de proteção à infância e à maternidade” (SIMILI, 2006: p. 3).
Além de ter a sua atuação social contextualizada a das mulheres de seu tempo, a atuação de Darcy estava alinhada com a imagem que Getúlio Vargas criou de si mesmo. O então Presidente da República procurou agradar as diferentes classes sociais, criando leis que até a atualidade influenciam as relações de trabalho no Brasil, como por exemplo as férias remuneradas, licença maternidade e a CLT (Consolidação das Leis de Trabalho), por exemplo. Este fato não significa que Vargas seja comunista, pois isso ele nunca foi. O mesmo perseguiu e prendeu intelectuais, políticos e artistas que se reconheciam como tal. Além disso, o PCB (Partido Comunista Brasileiro) foi lançado à clandestinidade quando Getúlio Vargas chegou ao poder.
Dentro do contexto acima citado, Vargas procurou censurar toda informação negativa publicada na imprensa a seu respeito. Para construir a sua autoimagem, o então presidente criou o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda). Tal departamento se encarregou de criar a imagem de um Getúlio Vargas preocupado com o futuro da nação (as crianças eram presença constante em suas propagandas) e com o bem-estar dos pobres trabalhadores, sempre presentes na autoimagem de Vargas. Desta forma, o então presidente se apresentava como o “pai da nação”. De igual modo, Darcy Vargas se colocava como a “mãe da nação”. Além da realização de obras sociais que reforçavam tal imagem, esta mesma “mãe” tinha filhos, marido e foi uma seguidora incondicional das normas sociais de seu tempo.
Apesar da imagem pública de “casal exemplar”, Getúlio Vargas traiu Darcy inúmeras vezes. Algumas das mulheres com quem o então presidente teve relações extraconjugais foram a vedete Virginia Lane e Aimeé Lopes. Esta última era esposa do amigo de Getúlio, o oficial de gabinete Luiz Simões Lopes, que mais tarde viria a ser presidente da Fundação Getúlio Vargas por quase 50 anos. A família e até mesmo a própria Darcy teriam ciência das traições praticadas por Getúlio. Embora soubesse de tudo, a então primeira-dama não tinha outra opção, a não ser ignorar as traições do marido. Isso porque a traição era entendida (talvez seja ainda hoje) como algo inerente ao homem. Além disso, a pessoa divorciada era estigmatizada, principalmente a mulher. Com isso, Darcy Vargas não tinha outra opção a não ser permanecer casada. O divórcio não combinava com o papel de “mãe da nação”.
Conclusão
Getúlio Vargas foi o Presidente da República que mais tempo permaneceu no poder, totalizando 19 anos (1930-1945, 1950-1954) no exercício da Presidência da República. Logo, Darcy Vargas foi a mulher que mais tempo exerceu o posto de primeira-dama no Brasil. Esta viu a comoção que o suicídio do marido causou, no ano de 1954. Aliás, comoção semelhante o Brasil só veria 40 anos depois, com a morte do piloto Ayrton Senna. Darcy procurou exercer seu papel de primeira-dama alinhado com os papéis e concepções de gênero vigentes até então, além de nunca ousar ter a sua imagem desassociada a figura de seu marido. Saindo, de certa forma, da esfera privada, Darcy Vargas criou um estilo de primeira-dama que influencia até hoje as esposas dos presidentes do Brasil.
Referências:
– CAPELATO, Maria Helena Rolim. Multidões em cena: propaganda política no Varguismo e no Peronismo. Campinas, São Paulo: Papirus, 1998. 310p.;
– SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: uma biografia. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. 694p.;
– SIMILI, Ivana Guilherme. A construção de uma personagem: a trajetória da primeira-dama Darci Vargas (1930-1945). In: Seminário Internacional Fazendo Gênero 7, 2006. p. 1-7;
– https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/almanaque/traicoes-e-amores-mercenarios-vida-intima-de-getulio-vargas.phtml visualizado no dia 20/09/2022;
Como citar este texto:
– ALVES, Marllon. Primeiras-damas do Brasil (Parte III): Darcy vargas, a “mãe da nação”. In: Gênero e História. Disponível em: https://generoehistoriacom.wordpress.com/2022/09/23/primeiras-damas-do-brasil-parte-iii-darcy-vargas-a-mae-da-nacao/ publicado no dia 23/09/2022.
-
Primeiras-damas do Brasil (Parte II): Nair de Teffé – uma pioneira no ingresso de mulheres no mundo da caricatura no Brasil

Nair de Teffé em foto na época de sua juventude. Imagem: Reprodução. Por Marllon Alves
A primeira-dama do Brasil tema deste texto foi alçada a este posto durante um período da história que ficou conhecido como “República da espada”. Foi uma fiel defensora do mandato de seu marido em um contexto onde a república ainda estava se consolidando no país e revoltas eclodiam de quase todas as partes do Brasil. Seu comportamento como primeira-dama e a sua atividade como caricaturista geraram inúmeras críticas por parte de seus contemporâneos, inclusive de adversários políticos do esposo.
Nair de Teffé nasceu em berço aristocrático no ano de 1886 em Petrópolis, três anos antes do golpe militar republicano que pôs fim ao período imperial brasileiro. Seu pai era o barão de Teffé, herói na Guerra do Paraguai (1864-1870), a quem o acompanhou em viagens pelo mundo quando este exercia os ofícios de cientista e diplomata. Desta forma, acompanhou de perto a belle époque [1]de Paris, onde começou a se dedicar à caricatura. Nair começou desenhando os narizes e rostos das freiras do colégio Sante Ursule e continuou aperfeiçoando sua prática com as pessoas que as visitava e os transeuntes das praças da cidade de Petrópolis. Porém, suas caricaturas geravam situações não muito agradáveis. Nair era elogiada por ser mulher e desenhar caricaturas, uma vez que na época esta atividade era vista como exclusivamente masculina. Mas a ironia que Rian (pseudônimo que a caricaturista adotou. Este é o seu nome escrito de trás para frente) expressava em seus traços trouxe advertências. Isso porque as caricaturas de Nair deixavam claro os afetos e desafetos da caricaturista.

Registro do casamento de Nair de Teffé com o então Presidente da República Hermes da Fonseca. Imagem: Reprodução. Assim como as famílias cariocas tradicionais e detentoras de alto poder aquisitivo, os Teffé passavam os meses de verão em Petrópolis e tinham o hábito de andar a cavalo pela manhã. Nestes passeios, pessoas iam se juntando ao grupo pelo caminho e longas comitivas de cavaleiros eram formadas. Conhecido por todos, o barão de Teffé fazia estes passeios quase sempre acompanhado de sua filha Nair e também pelo então presidente e Marechal Hermes da Fonseca, sobrinho do também Marechal Deodoro da Fonseca. Hermes havia ficado viúvo recentemente e estes passeios a cavalo eram como uma terapia. Foi nestes passeios que o marechal acabou se apaixonando por Nair, que de inicio não levou o assunto a sério. A situação levou Nair a uma crise de risos quando em um destes passeios, no ano de 1913, o então presidente a pediu em casamento. Os risos não eram de arrogância, mas de surpresa porque o marechal havia ficado viúvo seis meses antes deste episódio, quando a tradição dizia que o luto fosse feito por pelo menos um ano. Além disso, os dois nunca haviam conversado intimamente e Hermes da Fonseca era 31 anos mais velho do que Nair. Apesar de tudo isso, o casamento entre ambos ocorreu em dezembro de 1913, quando muita gente criticava a atitude do presidente.
Não demorou muito para perceber que Nair de Teffé não era uma primeira-dama “convencional”. Antes de se casar, Nair pediu a Hermes para que este não a impedisse de continuar fazendo suas caricaturas. O pedido foi atendido. Em uma tarde, durante um páreo no Hipódromo da Gávea, Nair protagonizou um “quase flerte”. O ex-presidente da Argentina Julio Roca foi convidado a participar da festa no Derby Club, cuja programação incluía um páreo em sua homenagem. Julio Roca ganhou a aposta e, encantado com Nair, deu-lhe todo o prêmio conquistado. Sem nenhum pudor, a caricaturista e primeira-dama começou a pensar em como usaria o prêmio. Entretanto, seu pai, indignado, mandou a filha devolver o dinheiro, argumentando “que uma moça decente não recebia dinheiro acompanhado de elogios” (RODRIGUES, 2011: p. 64).
Entretanto, o episódio que trouxe de fato grande repercussão foi a festa que Nair deu no palácio do Catete, até então residência oficial do Presidente da República. O mandato de Hermes da Fonseca estava chegando ao fim e a primeira-dama desejou dar uma festa que seria como uma despedida do mandato de seu esposo. Cansada de assistir as cerimônias oficiais que não mostravam a cultura brasileira, Nair preparou uma surpresa que se tornou um escândalo nacional. A caricaturista chamou o compositor Catulo da Paixão Cearense para acompanhá-la, com seu violão, na apresentação da música que considerava a mais brasileira de todas, o maxixe Corta-Jaca, de Chiquinha Gonzaga. Era a junção de duas coisas explosivas: o violão, considerado até então instrumento da malandragem; e o maxixe, ritmo popular considerado sensual. A repercussão foi grande e negativa, fazendo com que Rui Barbosa registrasse no diário do Congresso Nacional um violento pronunciamento: “Uma das folhas de ontem estampou em fac-símile o programa da recepção presidencial em que diante do corpo diplomático, da mais fina sociedade do Rio de Janeiro, aqueles que deviam dar ao país o exemplo das maneiras mais distintas e dos costumes mais reservados elevaram o Corta-Jaca à altura de uma instituição social. Mas o Corta-Jaca de que eu ouvira falar há muito tempo, que vem a ser ele, Sr. Presidente? A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba. Mas nas recepções presidenciais o Corta-Jaca é executado com todas as honras da música de Wagner (…)” Tal pronunciamento era uma mistura de critica política e aquilo que nos dias atuais é chamado de racismo cultural. Curiosamente, Hermes da Fonseca e Rui Barbosa foram adversários nas eleições em que o primeiro foi eleito o novo Presidente da República. A eleição de Hermes da Fonseca significou a volta dos militares ao poder, ao passo que “a candidatura de Rui representava o incentivo ao funcionamento regular das instituições republicanas e a sustentação das lideranças civis no exercício do governo – era a campanha “civilista”” (SCHWARCZ e STARLING, 2015: p. 330).
Nair de Teffé dedicou sua vida ao marechal, acompanhando de perto todas as situações que o mesmo enfrentou em sua vida pública, desde a construção do bairro de Marechal Hermes, no Rio de Janeiro, até as crises políticas enfrentadas pelo então presidente durante a Revolução de 1922. E quando alguém duvidada da inteligência de Hermes da Fonseca, Nair contra-argumentava, exaltando a dedicação do marido aos livros e especialmente aos clássicos gregos. Nair foi a principal fonte de segurança para o marido até a morte deste, no ano de 1923.
Com a morte do Marido, Nair tornou-se melancólica, mas tentou reagir. A agora ex-primeira-dama produziu eventos em Petrópolis, especialmente peças teatrais, onde participou como atriz, diretora e autora. Após criar a Trupe Rian, escreveu e dirigiu O futurismo na caricatura, onde a renda em Petrópolis foi aplicada em obras sociais. De volta ao Rio de Janeiro, na década de 1930, Nair fixou-se em Copacabana e com a herança do pai, morto em 1931, comprou um terreno e nele construiu um cinema em homenagem ao barão. Porém, a tristeza por ter que ir morar no Hotel Glória em 1946 e não ter conseguido o desejado apartamento na Rua Paissandu, que ela adorava, levou a mesma à depressão e, segundo seus amigos, aos jogos de azar. O vicio fez Nair perder uma ilha em Angra dos Reis chamada Francisca, que havia sido um presente de Hermes da Fonseca.

Nair de Teffé em idade avançada. Imagem: Reprodução. Nos anos seguintes, Nair adotou três crianças e foi morar na região rural de Pendotiba, em Niterói, optando por viver uma vida reclusa. Vivendo sob condições econômicas difíceis, lutando por todos os meios para ter uma velhice tranquila. Em 1970 o então presidente Emílio Garrastazu Médici reconheceu que Nair deveria receber integralmente a pensão de Hermes da Fonseca, luta na qual se dedicava desde a morte do marido. Após ter conquistado este direito, voltou a residir em área urbana, no bairro de Icaraí, em Niterói. Nair de Teffé morreu em 10 de junho de 1981, mesmo dia em que completou 95 anos de idade.
Conclusão
Nair de Teffé não foi uma primeira-dama “tradicional” porque não se comportou da forma que a sociedade de então dizia que a esposa de um presidente deveria se comportar. Apesar do contexto em que se casaram, Nair e Hermes da Fonseca se amaram genuinamente e esta foi uma companheira incondicional para seu esposo. Além de se dedicar à caricatura, contribuindo para que outras mulheres ingressassem neste ramo, Nair exerceu muitas atividades culturais, que iam desde a produção de peças teatrais a criação de um cinema. Quando morreu, Nair quase nada lembrava a primeira-dama que foi no passado, mas seu legado continua intacto até os dias atuais.
Notas:
[1] Ao contrário do que alguns podem pensar, este não foi um movimento, mas sim o espírito de uma época. Nascido em Paris, capital da França, é caracterizado por um conjunto de hábitos (principalmente culturais), individuais e coletivos, de pessoas e famílias com alto poder aquisitivo. A belle époque chegou ao Brasil, especialmente, no Rio de Janeiro, capital do país, no século XIX. Os mais abastados do país gostavam de se divertir e vestir “à francesa”. Além disso, ruas do centro da cidade, como por exemplo a Rua do Ouvidor, foram inspiradas nas ruas parisienses.
Referências:
– JÚNIOR, Walcler de Lima; PECHMAN, Robert M. Flirts no footing da Avenida Central. Revista de História da Biblioteca Nacional, ano 1, nº 5, p. 34-37, novembro 2005;
– RODRIGUES, Antonio Edmilson Martins. Ironias da vida. Revista de História da Biblioteca Nacional, ano 6, nº 65, p. 62-65, fevereiro 2011;
– SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: uma biografia. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. 694p.;
– https://www.bbc.com/portuguese/geral-56926480 visualizado no dia 12/09/2022.
Como citar este artigo:
– ALVES, Marllon. Primeiras-damas do Brasil (Parte II): Nair de Teffé – uma pioneira no ingresso de mulheres no mundo da caricatura no Brasil. In: Gênero e História. Disponível em https://generoehistoriacom.wordpress.com/2022/09/16/primeiras-damas-do-brasil-parte-ii-nair-de-teffe-uma-pioneira-no-ingresso-de-mulheres-no-mundo-da-caricatura-no-brasil/ publicado no dia 16/09/2022.
